
Atualizada às 17h18 Júlio Gomes de Almeida
De São Paulo
O quadro econômico externo ainda é de difícil avaliação, mas se depender das forças dinâmicas que estão se desenvolvendo na economia o crescimento do PIB brasileiro no ano que vem será muito elevado e reabriremos o caminho para um desenvolvimento econômico maior no próximo qüinqüênio.
O grande receio ainda está na duvidosa recuperação das economias centrais. A observação dos resultados do PIB dos países mais avançados não deixa dúvida de que, por enquanto, o melhor desempenho deveu-se aos fortes estímulos monetários e fiscais aplicados pelas economias. Isso não é ruim, mas daí identificar sinais inquestionáveis de recuperação econômica mundial, vai uma distância muito grande.
Do lado brasileiro, o quadro de possibilidades parece bem melhor devido a certos processos recentes que fizeram a diferença em um momento delicado como o que vivemos no último ano. A questão central está no comportamento do emprego durante a crise. Apresentou-se de fato na economia uma tendência de forte aumento das demissões, mas esse processo ficou restrito à indústria.
Em parte, isso se deveu à formalização do trabalho que vem ocorrendo no país desde o início dessa década, o que por si só dificulta as demissões. Respondeu também ao fortalecimento do mercado interno decorrente das políticas de rendas e de investimento que o governo vem promovendo e que receberam o reforço das reduções de tributos o que barateou a compra de bens duráveis e de material de construção.
Devido a isso, os setores de serviços e de comércio praticamente não sofreram os efeitos da crise e puderam manter seus níveis de emprego o que, por seu turno, contribuiu para sustentar o nível de renda da população, preservando o mercado interno consumidor.
No crédito, o receio de um grande aumento da inadimplência levou os bancos a restringirem fortemente o crédito novo, mas como o emprego e a massa real de rendimentos foram protegidos, a projeção de maior inadimplência não se confirmou, de forma que os financiamentos já no segundo trimestre desse ano voltaram. O crédito para pessoas físicas recuperou-se antes, mas nesse final de ano será a vez do retorno dos financiamentos para as empresas.
Já está delineado o percurso da recuperação da economia brasileira no ano que vem. Ela terá no mercado interno consumidor sua base de apoio, para o que a preservação do emprego e da renda da população durante a crise teve papel decisivo. Mas virá do crédito o mecanismo principal de ampliação do poder de compra que dinamizará o consumo e permitirá que o crescimento econômico volte ao nível pré-crise.
A despeito dessa provável reativação econômica no ano que vem, é bom não perder de vista que a sustentação de um processo de crescimento requer que o investimento ou as exportações ou uma combinação de ambos assuma a liderança do processo. No entanto, nada disso está hoje inteiramente assegurado muito embora o maior crescimento da economia mundial já esteja abrindo espaço de parcial recuperação das exportações brasileiras, inclusive de produtos manufaturados que chegaram a cair 30%. O investimento também ao que tudo indica chegou ao fundo do poço no segundo trimestre de 2009, devendo voltar a crescer ainda nesse ano.
A crise deixou transparente o déficit de competitividade de muitos setores produtivos da economia brasileira, o que em grande parte decorre de fatores sistêmicos, como tributos elevados e que não são devidamente retirados das exportações, juros altos no crédito junto ao sistema financeiro exceto o BNDES, câmbio valorizado e infraestrutura deficiente e cara. Todavia, há também um déficit de inovação empresarial. Esses são temas que deveriam merecer prioridade máxima na agenda de política econômica do próximo governo, mas, de preferência são questões para as quais deveríamos procurar soluções desde já.
Terra Magazine
» Por que a economia brasileira saiu antes da crise?