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Quarta, 14 de outubro de 2009, 08h05

O mergulho da tartaruga

Amilcar Bettega
De Paris

Tem dias que não dá! Cada vez tem mais dias que não dá. E essa certeza me vem antes mesmo de eu abrir os olhos, ainda nesse elevador difuso que me puxa do fundo da morte até a superfície da sua pele, ainda bêbado do mergulho, sem idade nem sexo, apenas um corpo mais podre do que ontem à noite.

Há muito que não lembro nada dos sonhos, e o despertar é apenas uma passagem, um céu baixo e com sol de néon, uma mudança de fase do sono. A enfermeira que coloca a xícara de chá sobre a mesa ao lado da cama é também um camelo, minha mãe morta ou o saco cheio de pedras que tento puxar enquanto dois homens vestidos de branco se aproximam dizendo que é preciso quebrá-las.

Não sei como é o seu rosto, o da enfermeira. Não posso dizer se ela é loira ou morena, ou se tem olhos claros, nem mesmo se é magra ou alta. Já me ocorreu de imaginar seus seios: pequenos, com grandes auréolas marrons em torno de mamilos planos. Mas não há como colar um rosto acima desse par de seios. Quando tento apreender um traço qualquer da sua fisionomia, ou mesmo do resto do seu corpo, ela já não está mais. Talvez ela não exista. Ou estará, quem sabe, no quarto ao lado, abrindo as cortinas e depositando a xícara de chá quente na mesa de uma outra cabeceira, como quem acende uma vela.

Depois, uma luz amarela embala as horas de um tempo sem memória. Mas não há espera, porque o que vem depois é sempre e exatamente o agora, isso aqui, uma cabeça, um pensamento que já não precisa de normas, uma coisa que desliza sem atrito nenhum, como sobre um piso ensaboado.

Um hospital, uma cama, médicos e enfermeiras. Tudo isso só serve para reforçar a certeza de que sempre se morre sozinho.

Penso na tartaruga. Talvez um dia tenha lido isso em algum lugar. Não, foi você quem me disse, que me sussurou no ouvido. Mas o que me vem não é a lembrança do que li, ou do que você me disse ao ouvido, não é lembrança de nada. Sinto apenas o efeito, a consequência. Poderia dizer que estou à espera, se houvesse espera. Movo lentamente a cabeça, sinto as vértebras do pescoço reclamarem.

Nesse momento, enquanto ainda me esforço para guardar um traço qualquer do rosto da enfermeira, sou apenas uma tartaruga que espicha a cabeça para fora do seu casco e a mergulha numa xícara de chá quente.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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