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Quinta, 15 de outubro de 2009, 08h13

Dois casos

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

"Com o mal não se brinca, respeita-se". Li essa frase solene no artigo de Luiz Felipe Pondé na Folha do dia 21/9/09 (seus textos são sempre provocadores, especialmente por estarem na contramão dos discursos politicamente corretos). Não lembro mais o tema da coluna, o que pode ser mau sinal (falo de minha memória; também tiver que procurar o nome completo do colunista, pois só tinha anotado "Pondé").

O que me levou a registrar esse dado não foram o tema nem as posições ideológicas do texto. Foi mesmo a peculiaridade sintática que certamente seria "corrigida" em qualquer aulinha de TV e poderia vir a ser tema de alguma prova. É que a regência de "brincar" (brincar com) não é a mesma de "respeitar", e a maioria absoluta dos manuais ensina que não se coordenam dois verbos de regência diferente quando seu objeto é o mesmo.

A frase significa, obviamente, que não se deve brincar com o mal, mas respeitá-lo - respeitar o mal ou ao mal; a repetição é para enfatizar que se trata do mesmo complemento verbal de "brincar". Convenhamos que seria exagero e mau gosto exigir a repetição de "mal", ou que se acrescente um pronome ao verbo "respeitar", arquitetanto uma saída como, "... respeita-se a ele", "se o respeita" ou, pior, "respeita-se-o". Sempre se poderia reescrever o "pensamento" em duas orações, mas o problema seria praticamente o mesmo: "Com o mal não se brinca. Respeita-se...". A melhor saída foi mesmo a do autor. Qualquer alteração provocaria uma mudança substancial no ritmo, que, no caso, é muito mais importante do que a sintaxe. O tom solene da afirmação desapareceria com um arranjo diferente, com mais sílabas etc.

Dane-se a sintaxe! deve ter pensado Pondé (se tiver percebido o pequeno enrosco em que se meteu).

Caso diferente, mas também bom para uma conversa, é a seguinte frase de Gilberto Dimenstein na Folha de 20/9. Disse ele: "A frase 'meu sucesso depende apenas de mim mesmo' é discordada totalmente apenas por 3,4% dos jovens investigados".

Que passiva!! As descrições canônicas dizem que só há passivas com verbo transitivo direto. (A razão é simples: o sujeito da oração passiva é "antigo" objeto direto da ativa correspondente, e só um verbo transitivo direto tem um complemente que pode tornar-se sujeito, pois os objetos indiretos são precedidos por preposição, e assim não podem transformar-se em sujeitos; uma passiva de "preciso de sossego" seria "de sossego é precisado por mim", uma construção bem estranha!).

Ora, "discordar" não é um verbo transitivo direto: é transitivo indireto (discordo disso / de você). No exemplo de Dimenstein, a ativa seria "3,4% dos jovens discordam da frase 'meu sucesso... etc.'".

Dimenstein inventou para ele uma gramatiquinha ad hoc. Esqueceu propositalmente a preposição "de" ou se distraiu? Mas esse não é, certamente, o maior pecado dele. Nem vale a pena contabilizar o caso na lista das dívidas. Até porque nada se compara àquele livro dele e de Rubem Alves sobre terem sido maus alunos...

Meu sonho é que observações como essas servissem para que a "sociedade" fosse menos dura com certos problemas da escola e, talvez, mais dura com outros. Por exemplo, que houvesse pressão para que acabassem aulas em que construções como as de Pondé fossem simplesmente condenadas e aulas em que se dissesse aos alunos que só há passivas com transitivo direto sem que isso seja explicado e justificado.

Insisto um pouco neste segundo caso porque um leitor me confessou há alguns dias - depois de pedir uma explicação sobre o caso - que passou anos ouvindo essa regra na escola, mas que não encontrou nenhum professor capaz de lhe explicar a razão. É que quase ninguém sabe ler o que subjaz a uma gramática, porque, de fato, não se lêem gramáticas, mas "colunas" e pequenos manuais feitos por quem defende ensino de gramática, ora veja!


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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