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Quinta, 15 de outubro de 2009, 08h17

Os clássicos: Cavafy, "Os cavalos de Aquiles"

Érico Nogueira
de São Paulo

No segundo poema do quarto e último livro das Odes, Horácio adverte o neófito sobre o inevitável fracasso de quem tente competir com Píndaro. A sua inspiração, sugere o romano, é quase uma força da natureza; o ritmo de seus versos é imprevisível; seu fôlego é praticamente inesgotável. Como será possível, pois, que o possamos igualar?

Além da de Píndaro, também à obra do igualmente grego Constantine Cavafy me parece que se aplica muito bem - embora, presumivelmente, por outras razões -a rubrica de inigualável. Tentar descobrir e enunciar estas razões é o intuito desta nota.

Refletindo sobre a natureza racional do trabalho poético, Paul Valéry confessou um costume, um vício até, do seu pensamento: começar sempre a partir da língua, definir o status quaestionis investigando como o uso da língua, e suas vicissitudes, parece já enunciar o problema e indicar a solução do que se investiga. Não sei nada da pretensa validade do método de Valéry; sei apenas que compensou, na sua enorme obra em prosa, o exíguo da sua poesia. Quanto a Cavafy, porém, e a questão de ser (ou não) 'inigualável', creio que o método vem muito a calhar. Pois falar de poesia grega, sobretudo a moderna, importa em falar da língua em que está escrita. O que não é necessariamente verdade se se fala de poesia inglesa, alemã ou italiana, por exemplo.

A língua grega moderna - isto é, a língua inicialmente falada por um certo extrato das populações da Grécia meridional, acrescida de componentes eruditas e elementos estrangeiros - só se tornou a língua oficial do país em 1976. Até esta data, a língua oficial era a chamada "katharévousa", uma variante livresca decalcada do grego bizantino. O debate em torno da reforma lingüística, que começou ainda em meados do século XIX, teve a cidade de Atenas por epicentro e o poeta Palamás por corifeu. Cavafy, contudo, bem ao seu feito, ficaria alheio a tal celeuma.

Nascido e morto em Alexandria, no Egito, - não sem antes ter morado em Londres e Constantinopla - Cavafy era como a cidade natal: cosmopolita, misterioso, dúbio. Ao compor, usava, sim, a língua viva da então grande comunidade grega de Alexandria, não há que negar; mas esta língua vinha de tal sorte enriquecida por vocábulos, referências e construções mais clássicos que se tornou ela própria, neste nível puramente lingüístico da escolha vocabular, cadência rítmica e construção sintática, uma lição de poesia. Poder-se-ia argumentar que este é também o caso de todos os grandes poetas de todas as grandes línguas do Ocidente: o poema é um artefato lingüístico; as questões pertinentes à língua, portanto, também são pertinentes à poesia. Será? Absolutamente não me parece que exista, a saber, uma 'questão da língua alemã' subjacente à poesia de Celan, de Rilke - e muito menos à de Goethe. Ou uma 'querela anglófona' embutida na de Yeats. A maioria das grandes línguas ocidentais - inclusive o estranho, o helenizado dialeto de Leopardi - já estava suficientemente sedimentada quando, no século XVIII, o romantismo pariu a modernidade. O grego moderno não. É por isso que lemos Cavafy como lemos Dante, como lemos Camões: ele é um inventor, é um pioneiro. Ele realiza o ideal do formalismo russo - nele, gramática, estilística e poética são uma coisa só.

Finalmente, eu diria que Cavafy é alexandrino por opção e temperamento, não só porque nasceu em Alexandria. Pois, partindo sobretudo da lírica grega de dicção eólica - Safo, Alceu e Anacreonte -, o poeta a submete a um severo regime formal, a um crivo criteriosíssimo, disposto a re-colorir o que o tempo apagou. Sua poesia é densa, é compacta. É precisa. É, numa palavra, - segundo a acepção que Calímaco de Cirene, poeta, filólogo e chefe da Biblioteca de Alexandria, logrou celebrizar - alexandrina: como o poema "Os cavalos de Aquiles", com efeito, que segue em tradução pra lá de livre ¹ (tão livre que lhe mudei o título), pode facilmente demonstrar:

DOIS CAVALOS

O herói tombou: e logo na medula
seus cavalos sentiam a desdita
enquanto a mão - tão douta, tão exata -
os deixava, dois barcos, à deriva.

Ao grito estrídulo de escudo e espada,
os animais choraram sem destreza:
sem consolo, brutos, indomáveis,
renegaram, pisando, o rés-do-chão.

Vendo-o Zeus (tão cativo da beleza),
sentiu pequeno o coração, maciço, e
"meus cavalos, por que chorar, por que",
falou, "se lei mortal vos não oprime?"

Mas os cavalos, meio por prazer,
cheios de sombra e pó nas ferraduras,
insistiram no sangue, pele e músculos
da beleza mortal - delícia e logro.

¹A bem da verdade, não se trata de tradução, mas de emulação ou imitação do poema grego original - com todas as vantagens e desvantagens que daí decorrem. Quem quiser ler algo mais bem comportado e bem próximo do modelo, consulte Konstantinos Kaváfis, Poemas. Trad. José Paulo Paes. José Olympio.

Érico Nogueira é poeta, editor (Dicta & Contradicta) e professor de línguas e literaturas clássicas (IICS). Ganhou o "Prêmio Governo de MG de Literatura" de 2008 com O livro de Scardanelli. Escreve também no Ars Poetica, blogue de poesia. Vive e trabalha em São Paulo.

Fale com Érico Nogueira: nogueira.erico@terra.com.br

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