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Quinta, 15 de outubro de 2009, 08h19

Rio 2016 e Olimpíada Cultural¹

EFE
O que não se deseja: milhares de jovens gritando 'This is a pen, this is a pen' na chegada dos atletas em 2016.
O que não se deseja: milhares de jovens gritando 'This is a pen, this is a pen' na chegada dos atletas em 2016.

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Redesenhar uma cidade passa necessariamente pelo seu capital humano - derrubar e erguer coisas só faz sentido quando a alma não é pequena.

Foi bonito sair da emoção dos vídeos de Fernando Meirelles para o anúncio de que a partir de 2010, todos aprenderão inglês como preparação para as Olimpíadas.

Mas a beleza desse anúncio não está na preocupação em formar mão-de-obra para um evento internacional. Está sim na decisão de convocar a todos, especialmente as crianças, para um fazer construtivo e libertador.

Esse anúncio transforma o Rio numa espécie de campo experimental para a potencialização do nosso capital humano - e liga diretamente o gabinete do prefeito à sala de aula, uma conexão mais do que necessária.

O futuro do Brasil depende do sucesso dos mais pobres, dizia Darcy Ribeiro. Se eles não tiverem sucesso, ninguém terá.

Se o Rio se transformar, de fato, num laboratório desse tipo, em dois tempos a experiência migra para as outras cidades. Custa sonhar? Mas o que significa exatamente construir esse campo experimental?

É mais fácil visualizar o cenário horripilante do que não se deseja: milhares de jovens gritando 'This is a pen, this is a pen' na chegada dos atletas em 2016. Não queremos que as Olimpíadas aumentem o grau de alienação já existente.

O cenário desejável remete a uma articulação incrível. O sonho do Rio toca em uma necessidade nacional - a difícil, mas absolutamente necessária, conexão entre educação e cultura, no perímetro da escola.

Embora ambos os setores, no âmbito nacional, tenham dado passos relevantes - a Cultura partiu de algo como zero em termos de políticas públicas e mudou o cenário -, a capacidade de conexão entre os dois mundos continua beirando o vazio.

A escola no Brasil não se concebe como equipamento ou sinapse cultural. Diretores e professores, em geral, não se vêem como agentes culturais, como líderes de um processo dessa natureza. Também não há programas que estimulem essa concepção.

Quantas coisas poderiam acontecer - no Rio, no Brasil - se a escola fosse pensada, planejada e realizada como o grande projeto cultural brasileiro?

Só para dar um exemplo: o lugar de se conhecer a sofisticada música dos indígenas - absolutamente desconhecida de seus descendentes, nós. O lugar de se ouvir Villa-Lobos ou Gilberto Mendes, e ao mesmo tempo de se reverenciar os nossos mestres dos saberes populares (muitas vezes vizinhos da escola pública).

O que aconteceria se houvessem programas de estímulo conectando as universidades com as escolas? Os grupos culturais, os centros de pesquisa, as grandes empresas, tudo isso pensando cultura como algo abrangente - da ciência e das artes até o esporte e a tecnologia.

Conheço um projeto que monta cuícas eletrônicas (digitais). Detalhe: como são projetadas no computador, soam como se tivessem 3 m de diâmetro. São verdadeiros cuicões!

Já há escolas particulares que desenharam a cultura como fio condutor para quaisquer conteúdos - os resultados são impressionantes. Imagine isso transformado em política pública, valorizando o processo civilizatório brasileiro e os diálogos com o resto do mundo?

E se cada escola tivesse, além de um grupo esportivo, o seu grupo cultural de referência (teatro, música, dança, cinema, poesia...) apontando para 2016? Mas não é qualquer grupinho não. Só adianta se for aquele grupo de dar água na boca, de deixar todos na escola com o maior orgulho e vontade de participar. Exemplos de referência mostrando que isso é absolutamente possível não faltam.

As possibilidades se multiplicam: remetem à idéia de uma grande Olimpíada Cultural². Remetem ao desafio de desenhar um programa audacioso de formação intensiva, com mobilização intensa da sociedade nessa direção.

Afinal, redesenhar a cidade, ou o País, é redesenhar sua educação. E sem cultura isso não parece possível. O Rio pode vir a ser a ponta dessa grande virada nacional...

¹ A idéia de uma Olimpíada Cultural foi reforçada por diversas mensagens de leitores da coluna anterior, a qual sugeria a criação de um programa de cultura brasileira nas escolas do Rio.
²A cidade de Salvador realizou um interessante experimento (piloto) nessa direção em 1989 (Maratona Cultural) em oito bairros populares, com resultados surpreendentes.

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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