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Sábado, 17 de outubro de 2009, 07h59

Torcendo para o inimigo

José Luiz Teixeira
De São Paulo

Bem sei que posso me expor ao desprezo de todos vocês, meus sete ou oito leitores, mas confesso:

Torci para a Argentina vencer o Uruguai, na última quarta-feira, e se classificar para a Copa do Mundo na África do Sul.

De todas as manifestações que ouvi no rádio e na televisão, fico com a simplicidade do nosso centroavante canarinho Luís Fabiano:

"Eles tem um grande time; sem eles, a Copa perderia um pouco seu brilho", afirmou, aparentando sinceridade, a uma emissora de rádio.

Concordo. Nunca fui bom em nenhum esporte, mas nunca gostei de competir com adversários piores do que eu - se bem que sempre foi difícil encontrá-los.

Não gosto do Maradona, nunca tive vontade de conhecer Buenos Aires, não entendo como um povo alfabetizado pode idolatrar Isabelita (se fosse a dos patins, vá lá!) e o seu o sotaque "castejano" dói nos meus ouvidos.

Admiro Borges, Cortázar, Chê, Piazzola, Mercedes Sosa e, perdoem-me o machismo, considero as argentinas muito bonitas - pelo menos as que vejo no Verão, nas praias de Santa Catarina.

Em outras palavras, tenho coisas a favor e contra nossos vizinhos do sul. Prezo, porém, a política de boa vizinhança.

Nada justifica o tratamento que muitos jornalistas esportivos gostam de dar a eles, nutrindo, muitas vezes, um sentimento que beira ao belicismo.

As excessivas manifestações do narrador esportivo Galvão Bueno, por exemplo, chegam a ser perigosas.

Na minha sempre imodesta opinião, elas podem semear ódio no coração dos telespectadores mais pobres de espírito.

Fico imaginando o que ocorreria se, em vez de Evo Morales, fosse Cristina Kirschner que ocupasse a Petrobrás.

Quando governo da pobre Bolívia tomou essa atitude, não foram poucas as vozes brasileiras que se levantaram pedindo rompimento de relações diplomáticas com aquele país.

Já pensaram se isso ocorresse com a Argentina? Os nossos 'patriotas' iriam pregar a imediata invasão de Buenos Aires por tropas verde-e-amarelas.

Posso vislumbrar o nosso comandante Nelson Jobim à frente da Infantaria, vestido de Rambo e baioneta nos dentes.

Portanto, meus poucos e pacifistas leitores, como o assunto é futebol, acho que devemos baixar um pouco a bola e não disseminar o ódio a vizinhos - às vezes me pergunto se as sangrentas guerras étnicas não começaram assim.

Uma piadinha ou outra, tudo bem - aquela do zelador que se acha dono do prédio considero ótima -, desde que não incite a violência, como já vi muito na Internet. O importante é deixar a rivalidade dentro do campo de futebol.

Mesmo porque, tirante aquela mania de europeu, nós outros, brasileiros, não temos motivo para hostilizar esse povo.

Exceção de um amigo meu e daquele ilustre senador cujas mulheres os trocaram por argentinos. Nesse caso o ódio, convenhamos, é perfeitamente justificável.

Não sei se eu suportaria.

José Luiz Teixeira é jornalista. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, Tupi e BBC de Londres, e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde.

Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br

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"Em outras palavras, tenho coisas a favor e contra nossos vizinhos do sul. Prezo, porém, a política de boa vizinhança".

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