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Sábado, 17 de outubro de 2009, 07h57

Queijo com o quê?

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O Camembert e o Brie, queijos de casca branca, me sugeriram pela textura leve e pelo aroma delicado uma Weizenbier, recomenda Tagliari.
"O Camembert e o Brie, queijos de casca branca, me sugeriram pela textura leve e pelo aroma delicado uma Weizenbier", recomenda Tagliari.

Mauricio Tagliari
De São Paulo

Para esquentar esta semana de primavera chuvosa no sul e sudeste do País, nada como um charmoso e gostosinho "queijo e vinho", não?

Bem, há controvérsias... Pode até ser charmoso e gostosinho. Mas um festival de queijos não é a melhor combinação para degustar vinhos. E sim para degustar queijos! Principalmente se forem tintos muito bons. Um ditado francês diz "queijo bom, vinho ruim".

Quando se começa a aprender harmonização de comida com vinhos, uma das primeiras lições é tomar cuidado com a gordura e a proteína de certos alimentos (gema de ovo, por exemplo) que " impermeabilizam" o palato, tornando-o menos sensível. Ou seja, conforme o ditado acima, já que um vinho bom ficará pior, caia de cabeça no queijo e beba um vinho de menor qualidade, pois vocês estará insensível à bebida e seria uma ingratidão usar um grande vinho neste caso.

Claro que existem exceções e algumas são clássicas. Sauternes ou, ainda melhor, um porto, com queijos azuis, salgados, fortes e ácidos, formam uma combinação fantástica. Mas, quanto mais forte o queijo, menor a chance de um tinto seco cair bem. Os brancos aromáticos ou os espumantes fazem melhor papel.

Há umas poucas semanas, durante uma degustação da Confraria do Texugo, nosso ilustre convidado Luciano Furquim, proprietário da loja de queijos Caseus (rua Alagoas, 475, Higienópolis, São Paulo, telefone 11-3661-6900), presenteou-nos com uma aula-degustação de queijos.

Entre Reblochons artesanais, Saint-Paulins de chorar, Bries macios, Camenberts perfumados, Pont-l'Evêques celestiais e Grana Padanos delicados, aprendemos o básico que as mentes embotadas de tintos franceses nos permitiu.

Aprendi, por exemplo, que entre os Blue Cheeses, apenas o verdadeiro Roquefort é feito com leite de ovelha, enquanto os outros são produzidos com leite de vaca. Ah! Agora tudo faz sentido...

A noite foi deliciosa, mas os queijos estavam tão bons que eu passei da conta. Caí na armadilha, não resisti. E de repente me vi um pouco indiferente e diria até um meio enfastiado com os vinhos. Que eram ótimos, diga-se de passagem. Selecionados pelo confrade Jeff Chies.

Eram um Mas de Daumas Gassac 2005, ícone do Languedoc-Roussilon, R$ 209,50, um bordeaux Chateau Ormes de Pez 2003, R$ 170, um borgonha Pommard de Louis Jadot 2005, R$ 232,58 e um Chateauneuf du Pape La Bernardine 2005, R$ 180,09. Um verdadeiro painel do vinho francês. Todos da Mistral. Todos grandes vinhos.

Mas me lembro de um determinado momento em que me peguei desejando ardentemente um copo de cerveja! Amargor e refrescância lavando a alma e o palato. E fui além, fazendo harmonizações mentais com os tesouros lácteos. E não é que me pareceu tudo muito apetitoso?

Usando basicamente os mesmos princípios de harmonização com vinhos, mas com a vantagem de o gas carbônico da cerveja ser um lava-rápido das gorduras e proteínas, tudo me pareceu mais fácil.

Lembrei-me de que há tempos, ainda sem saber rudimentos de harmonização, antes da grande oferta atual de tipos de cervejas, nacionais e importadas, eu pedia, de teimoso, um chope claro e uma porção de provolone no bar. A verdade é que nunca caiu muito bem. Hoje eu sei que o provolone, um queijo duro e defumado, pede uma cerveja mais forte. E se possível também defumada, como as Rauchbier.

Mas, voltando à mesa da confraria, o Camembert e o Brie, queijos de casca branca, me sugeriram pela textura leve e pelo aroma delicado uma Weizenbier (feita de trigo e em geral não filtrada) que tem um pronunciado aroma de especiarias, predominantemente cravo. Recomendo a alemã Weihenstephaner, que dizem ser a mais antiga cervejaria em atividade no mundo. Mas há nacionais muito boas.

Os queijos de casca amarela, como o Reblochon, pediram-me algo levemente mais amargo mas ainda refrescante, como as Pale Ale.

Os azuis, imagino que iriam muito bem com uma Ale mais potente como as Extreme Indian Pale Ale ou ainda uma Strong Dark Ale, que enfrentariam galhardamente todo o sal e a acidez. Mas uma Irish Stout também faria bem as vezes de um Porto...

Parmesão ou Grana Padano, servidos a mim com deliciosas gotas adocicadas de um excelente aceto balsâmico, me fizeram descobrir um novo mundo de sabores. E isso por si só, pela cor e pela doçura, me lembra uma Stout cremosa como a Guinness ou uma Fuller's Porter.

Bem, isso tudo foi apenas um exercício mental. Uma fantasia. Uma degustação que de fato nunca existiu. Mas prometo que vou testar na primeira oportunidade. E quem experimentar antes, por favor, dê notícias.

Afinal, na próxima frente fria, não seria nada mau um charmoso e gostosinho "queijo e beer", não?


Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical. Sócio da ybmusic, escreve sobre música e bebidas no blog www.maisumgole.wordpress.com e sobre música no http://ybmusica.blogspot.com. É co-autor do Dicionário do Vinho Tagliari e Campos.

Fale com Mauricio Tagliari: mauricio.tagliari01@terra.com.br

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