Terra Magazine

 

Sábado, 17 de outubro de 2009, 07h54

De fatos e opinião

Francisco Viana
De São Paulo

O fato é o mensageiro da comunicação, tanto no jornalismo como na comunicação organizacional e nos movimentos sociais. O fato é o Hermes moderno. É que ninguém esqueça: na mitologia Hermes foi o deus enviado do Olimpo para ensinar os homens a fazer política, depois que Prometeu entregou o fogo sagrado a humanidade e abriu caminho para que desenvolvesse o conhecimento. De que fale o conhecimento sem a política? Nada. A política é que constrói a utilidade do conhecimento. E o culto aos fatos é a essência da política que constrói e afasta as trevas da manipulação e da mentira.

Vamos aos fatos.

Na semana que ficou para trás, a invasão da fazenda Santa Henrique, em São Paulo, de propriedade da Cutrale, a maior produtora de sucos de laranja no País, foi um dos temas dominantes no noticiário. Mas o dado novo não é esse e, sim, a eficácia da comunicação do MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do Incra . Não desejo avaliar se os trabalhadores estão certos ou errados, nem avaliar as relações entre o Incra e o MST, mas lançar de luzes sobre o caminho objetivo que escolheram para se comunicar com a sociedade.

O noticiário da Folha no domingo, dia 11, é emblemático. Vejamos as manchetes:

Incra veste camisa do MST, diz ruralista

Presidente da UDR critica declaração de superintendente, que afirmou que área de 50 mil hectares no centro-oeste de SP é da União

Antes da fala do ruralista, representante do Incra-SP negou relação privilegiada com o movimento e afirmou que se relaciona com todos

Na matéria está escrito:

O presidente nacional da UDR (União Democrática Ruralista), Luiz Antonio Nabhan Garcia, disse que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) "veste a camisa do MST". O Incra reivindica na Justiça terras no interior de São Paulo ocupadas por fazendeiros e empresas.

Entre essas propriedades está a fazenda da multinacional Cutrale em Iaras (271 km de São Paulo), invadida pelo MST no dia 28 de setembro e desocupada na quarta-feira, com pés de laranja destruídos e máquinas e imóveis depredados.

O superintendente do Incra-SP, Raimundo Pires Silva, diz que a fazenda está dentro de uma área de 50 mil hectares no centro-oeste do Estado formada por terras da União e ocupadas irregularmente. "Ele (presidente do Incra) recebe dinheiro público e não está no cargo para defender o MST. Tenho certeza de que ele veste a camisa do MST", afirmou o presidente da UDR.

"Ele não pode dizer que a área é da União. Só pode haver um pronunciamento neste sentido depois que houver uma sentença final sobre o caso", afirmou Nabhan Garcia.

Ele diz que as terras foram registradas em cartório e, por isso, as empresas são proprietárias legítimas. "Agora vem o Incra, depois de mais de um século, dizer que as propriedades são devolutas? São décadas de produção e de trabalho destas empresas naquela área." A Folha tentou ouvir o superintendente do Incra-SP, mas não conseguiu localizá-lo. Em entrevista antes das declarações de Nabhan Garcia, ele negou que o órgão tenha uma relação privilegiada com o MST. "Nós nos relacionamos com todos os assentados, organizados ou não", afirmou.

Ele condenou o que chamou de "atos de vandalismo" do movimento durante a invasão da fazenda da Cutrale em Iaras. Silva argumentou que não pretende prejudicar as empresas ao reclamar o direito às terras. Ele afirmou que é falso criar uma oposição entre o Incra e o setor produtivo. Ele diz que é trabalho do Incra é realizar assentamentos e é direito da União reivindicar terras públicas.

Com relação ao MST registrou o jornal:

Mídia influenciou em reintegração, afirma sem-terra

Integrante da coordenação nacional do MST, Jaime Amorim afirmou que a decisão judicial de reintegração de posse da fazenda da Cutrale "foi influenciada pelo show midiático", em uma referência às imagens exibidas pela TV que mostraram um trator passando por cima de milhares de pés de laranja na propriedade, em Iaras (SP).

"Por causa da pressão gerada pelo show midiático, com a exibição das cenas de destruição dos pés de laranja, a Justiça da região chamou para si a responsabilidade, mas a competência jurídica não é estadual porque a área é federal", disse Amorim. Durante a invasão, membros do movimento destruíram pés de laranja com trator da fazenda. Segundo o MST, foram cerca de 3.000 pés. A empresa diz que foram derrubados de 7.000 a dez mil. A fazenda tem cerca de 1 milhão de pés de laranja.

Para o líder dos sem-terra, o MST tentou demonstrar que é "contra a monocultura". "Transformaram suco de laranja em seres humanos, como se nós tivéssemos destruído uma geração. O que o MST quis fazer é demonstrar que somos contra a monocultura", disse.

E emendou: "O que eles (integrantes do MST) fizeram foi demonstrar para o país um sentimento patriótico. Alguém tem que defender este país contra latifúndio e monocultura".

Ao ser questionado sobre as acusações de depredações e furtos por parte do MST, Amorim disse que podem ter ocorrido "excessos", mas que foram causados por pressão da mídia.

"Não sabemos se é verdade. É claro que, na luta do dia a dia, há os excessos e a gente não pode ficar controlando todos. A verdade é que os companheiros ficaram muito indignados e pressionados com o show midiático que fizeram em cima de alguns pés de laranja", disse.

Na sexta-feira, o MST divulgou nota na qual afirma que "repudia a versão construída para responsabilizar o MST pela depredação da fazenda".

O que se pode concluir desse confronto de posições. Primeiro, um erro do Incra, a despeito dos acertos em ocupar espaços. O seu porta-voz deveria ter ficado de plantão para falar com os jornalistas enquanto durasse o conflito. Enquanto falou, o Incra fez política. Quando permite que o jornal afirme que não o encontrou(A Folha tentou ouvir o superintendente do Incra-SP, mas não conseguiu localizá-lo. Em entrevista antes das declarações de Nabhan Garcia, ele negou que o órgão tenha uma relação privilegiada com o MST."Nós nos relacionamos com todos os assentados, organizados ou não", afirmou.) está errando politicamente. Não porque não atendeu ao jornal, mas porque não se comunicou com a sociedade. A questão é sempre a sociedade. A liberdade não é da imprensa, mas da sociedade. O direito a informação não é da imprensa, mas da sociedade. A sociedade é o centro, o principio e o fim de toda comunicação.

A objetividade dos fatos é mensagem. O leitor julga. O leitor avalia. Os fatos são o trunfo e o algoz da comunicação. Faço esse registro porque um dos maiores problemas da Comunicação da área pública, independente de questões ideológicas, é assimilar um dado essencial da realidade. Quando em treinamentos e palestras ouço alguém reclamar da imprensa, a primeira pergunta que me vem a mente é: qual é a realidade factual? Certa vez um secretário de saúde disser: eu administro toda uma rede de postos de saúde e apenas um tem problema. Representa 20% do atendimento. Será que ninguém vê a realidade dos demais? Uma questão não exclui a outra. São fatos distintos. Não é porque 80% da rede de atendimento vai bem que se vai fechar os olhos para os 20% que vão mal.

Comunicação é fato, opinião precisa ser alicerçada em fatos, mensagens têm suas raízes nos fatos. E o que é o fato? O fato é o acontecimento, seu contexto, sua história, mas é também uma forma de ver a realidade. Contudo, há uma objetividade matemática na verdade factual. Dela não se pode fugir. Ou a fazenda invadida pertence ao Estado ou não pertence. Ou os pés de laranja foram destruídos na proporção denunciada ou não foram. Ou existem relações privilegiadas entre o Incra e o MST ou não existe. Há uma objetividade nas questões. E essa objetividade é que constrói a realidade. Marx foi um jornalista excepcional. Por que? Estava sempre atento aos fatos. Basta ler suas reportagens. Suas posições eram tiradas a partir dos fatos da história, da realidade. Um dos seus livros mais excepcionais, 18 Brumário de Luís Bonaparte é pura ourivesaria dos fatos. Para a Crítica à economia política segue pelos mesmo caminho. O capital é o zenit dessa metodologia de respeito aos fatos. Não estou falando da questão ideológica, mas do método. Sem fatos não há argumentos.

Quando o presidente da UDR, referindo-se ao presidente do Incra, afirma: "Tenho certeza de que ele veste a camisa do MST." Ele não está se escudado nos fatos, mas emitindo uma opinião. Terá consistência? Somente os fatos poderão confirmar. Quando o representante do MST afirma que os trabalhadores destruíram 3.000 pés de laranja e não de 7.000 a dez mil pés, como afirma a empresa, não estão dando opinião, mas referindo-se a um fato. Será realidade? Uma investigação idônea facilmente apontará a verdade. O episódio MST versus Cutrale é um exemplo emblemático do caminho que a comunicação precisa seguir. Fatos acima de tudo. E opinião também baseada em fatos. O que é positivo nesse episódio é que o Incra foi a campo fixar sua posição; o MST também. A empresa não ocupou sozinha os espaços na mídia. É evidente que a Cutrale mereceu mais espaços, inclusive com clara posição de condenação ao MST. A Veja, por exemplo, estampou o título explosão da barbárie. E publicou um texto onde os trabalhadores sem terra são acusados de malandros, vândalos e criminosos. Mas, filtrado os adjetivos, o fato é que a revista se posiciona contra a reforma agrária. Faz parte do jogo. Na política, não há isenção. E os posicionamentos precisam ser respeitados. Entendidos e respeitados.

No jornalismo também não há isenção. A isenção jornalística é ouvir as partes, ouvir fontes que sejam idôneas. Por exemplo, na questão da terra quando se ouve a UDR ou a Confederação Nacional da Agricultura, seria sinal de isenção ouvir uma fonte de uma Universidade, de um Instituto de pesquisa sem vínculos com o empresariado rural. A isenção é isso: ouvir as partes. Não se significa que não se tome partido. Se tomar partido até na forma com que se hierarquiza os fatos, com que se escreve as primeiras palavras do texto. Que ninguém se iluda: a isenção no jornalismo é como o centauro, aquele belíssimo espécime que era metade humano, metade animal que todos acreditavam existir, mas que ninguém jamais viu.

Daí, ser imperativo ao recurso à comunicação objetiva. Uma revista como a Veja pode, e deve, emitir a opinião que melhor lhe convier; mas os fatos são sagrados, o espaço para os dois lados, também. Se a Comunicação pública for feita a partir dos fatos, é certo que as opiniões políticas - leia-se manipulações - tendem a diminuir. E é simples: vivemos numa sociedade plural, os problemas estão à flor da terra e , claro, o leitor julga. O leitor toma também posições. O leitor identifica o veículo de comunicação que trabalha mais com opiniões do que com fatos. Ele também se posiciona.

A pergunta central é: qual é a razão dos fatos? Na primeira eleição presidencial, a TV Globo manipulou a edição do último debate entre Collor e Lula. Até hoje trabalha para recuperar o passivo de imagem-reputação deixado pelo episódio que, logo, tornou-se público e provocou vastas reações. Há múltiplas definições do jornalismo e da comunicação, mas todas elas convergem para esse misto de deus e profeta tão falado, mas geralmente esquecido: os fatos. Fora dos fatos tudo é especulação e opinião. E, como diz o velho Platão na República: opinião não é conhecimento. É sim o meio do caminho entre a obscuridade das trevas e a luz. Os fatos, eles sim, são os olhos que iluminam a essência da realidade, o sol que ilumina o saber. Sobretudo, o saber público.

É o que deve reger, principalmente, a comunicação publica a serviço da sociedade.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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