
Rui Daher
De São Paulo

Ilustração: Gabriel Daher
Escrevo de Delémont, capital do mais novo cantão suíço, o de Jura, próximo à fronteira com a França.
As primeiras referências à aldeia datam do final do século VIII. São 1.200 anos de História banhados pelas águas do rio Sorne e uma paisagem de colinas e montanhas cobertas por densas florestas.
Trouxe-me aqui matéria de Assis Moreira, correspondente do "Valor", em Genebra, que informa a revolta que invadiu a região depois que uma empresa sueca, a Greenbioenergy, mostrou intenção de investir US$ 100 milhões para construir uma usina e produzir biocombustíveis.
Como a produção local seria desvantajosa, o grupo escandinavo optou pela competitividade da nossa cana-de-açúcar. Importaria 130 mil toneladas anuais do etanol brasileiro que seria refinado na usina até atingir os 100% de pureza.
Argumentos de praxe: atender a demanda sem interferir na produção de alimentos; reduzir as emissões de CO2 e gases de efeito estufa; obter custos competitivos e diminuir a dependência em relação ao petróleo.
Como numa Honduras golpeada, não deu acordo. Citadinos juntaram-se a organizações ambientalistas e partiram para o pau, melhor, para as passeatas de protesto.
Não pensem vocês que se trata de proteção ao gol do time da casa. Nada disso. A maior preocupação é com a meta adversária. Para eles, "a importação de etanol de cana do Brasil coloca em perigo os direitos e a saúde dos trabalhadores, a alimentação, o futuro de pequenos agricultores e a biodiversidade (...) uma pressão considerável sobre o desmatamento, redução de fertilidade de solos e poluições diversas".
Os 12.000 habitantes de Delémont desconhecem ou discordam do que diz Gilberto Gil, em "Aquele Abraço": "quem sabe de mim sou eu". Em francês, algo como "qui me connaît, c'est moi". Somente a nós a Bahia deu régua e compasso?
Esse fato leva a uma inferência emblemática que conduzirá o agronegócio nas próximas décadas: as questões ambiental, social e sanitária como ferramentas éticas do protecionismo.
Um preâmbulo brasileiro: entre 1964 e 1967, primeiros anos do governo militar, no ministério da Fazenda, Octávio Gouvêa de Bulhões e Eugênio Gudin ensaiaram os primeiros passos que levaram, em pouco tempo, ao fim dos subsídios agrícolas. Monetaristas ferrenhos, eles os achavam inflacionários.
Olhando para o estágio de nossa agricultura atual é difícil dizer se foi para o bem ou o mal. A verdade é que, depois disso, os campos auriverdes precisaram de quase 30 anos para vicejar.
Temor ou necessidade que não tiveram os países desenvolvidos que continuaram a subsidiar seus agricultores e defendê-los como fossem preciosos tesouros.
Nós perdemos essa coragem. Ou acreditamos que os nossos são tão melhores que não precisam de ajuda. Servem-nos as estéreis discussões, como a que hoje separa o trabalho hercúleo de se fazer um censo agropecuário - preciso ao radiografar a agricultura familiar - e levantar por amostragem os assentamentos, quando ambos são desprotegidos e carentes. Pacifica-nos ver o uso das entidades de classe como trampolim político para facilitar saques ao dinheiro público ou à atividade produtiva.
Damos de ombro ao não ver em nenhuma plataforma eleitoral planejamento estratégico de longo prazo que integrasse todos os aparelhos públicos e privados do País para dar qualidade de vida à população. Este, que seria o mais forte argumento diante dos futuros ataques do protecionismo.
Com um clique no Google, deixo Delémont pra trás. Não visitei o "La Cigogne", (7, Rue de La Préfecture). Não devo ter perdido muito. Suas especialidades: massas feitas em casa e pizzas no forno à lenha.
Terra Magazine