
José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)
Cães de Aluguel e principalmente Pulp Fiction aparentemente esgotaram o estoque de maldades de Tarantino. Quinze anos depois e nada de novo, Jackie Brown, Kill Bill 1 e 2 - embora divertidos - e agora Bastardos Inglórios apenas repetiram a receita inovadora do bolo cinematográfico criado pelo diretor.
Alguns ingredientes desse bolo:
1) Montagem inovadora;
2) Trilhas meticulosamente pesquisadas;
3) Violência estilizada;
4) Referências de filmes.
E como cobertura, uma grossa camada de deboche. Tarantino sempre tratou o épico no cinema com desdém. Tirou as fórmulas consagradas do pedestal, experimentou novas elipses narrativas, e fez do sangue jorrando uma espécie de pacto orgástico com o espectador. Nesse bolo Pulp Fiction é a cereja. Abordagem semelhante, aliás, a do cinema dos irmãos Cohen. Embora os Coen estejam em um patamar superior no quesito evolução.
Bastardos Inglórios começa como se fosse um faroeste - os bandidos chegam, as crianças/adolescentes/assustadas se recolhem, e o pai fica só. Em seguida um longo e intrigante dialogo irá detonar a trama. Opa, penso: o filme promete. Porém, escravo do deboche, Tarantino parece compelido a filmes de segunda categoria. Criador de um cinema que derrubou conceitos, o diretor virou refém do novo conceito que ajudou a estabelecer.
Isso aparece na caracterização dos Bastardos, uma brigada antinazista que reúne um grupo de judeus que escapou dos alemães. Entre escalpos nojentos, planos mirabolantes, tarefas improváveis, eles fazem com que um tom farsesco, tome conta da tela e o filme escorregue para a paródia/trash. E a paródia quando em excesso é um ingrediente que pode abatumar o bolo.
Mas espere, há méritos - e também um boa quantidade de malícia. Os longos diálogos de interrogatório por exemplo; além do já citado do início, o da taberna é impagável. E, sobretudo, o tema mais explorado por Tarantino em todos os filmes que fez: a vingança. Histórias de vingança produzem uma catarse inigualável. Os personagens lavam a alma do espectador. Ao escolher o nazismo como tema, Tarantino pôde servir um prato cheio disso: pau no Hitler e sua cambada nunca é demais.
A novidade é que os vingadores são os próprios judeus que ainda por cima - ironia do diretor - incineram os nazistas. Mas ao invés de fornos, ou câmaras de gás, os vilões enfrentam o fogaréu dentro de uma sala de cinema. O celulóide é matéria-prima desse fogo - no cinema tudo é possível.
Quentin Tarantino não acredita - e se acredita não propaga em seus filmes - em sentimentos nobres. No cinema dele não há lugar para amor, piedade ou heroísmo. As pessoas são movidas por interesses e podem mudar de lado conforme esses interesses: o poder está na mão de quem segura o revólver. Uma cena exemplar em Bastardos Inglórios é aquela em que a mocinha judia, depois de atirar no alemão, se apieda dele. Quem viu o filme pode lembrar como diretor se relaciona com a piedade dela.
Bastardos Inglórios dá à Segunda Guerra um enfoque peculiar, para se dizer o mínimo. Ao tirar dos judeus o papel histórico de coitadinhos e alçá-los à condição de vingadores - e de vingadores violentos, sanguinários - o diretor, de uma certa forma, equipara judeus e alemães. O que é bem audacioso da parte dele, aliás. Tarantino queima os livros de história , incinera o roteiro maniqueísta proposto pelos fatos e proclama - com uma dose extra do sarcasmo que lhe é peculiar - que não há heróis, sequer vencedores: todos são bastardos inglórios.
(Twitter: ZPgoulart)
Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br
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