
Marina Silva
De Brasília (DF)
A primeira infância é o momento em que as crianças de fato apreendem o mundo e formatam para sempre sua compreensão da realidade. Se elas estão inseridas num contexto familiar ou comunitário privadas de cuidado, afeto, educação e segurança, olharão para a vida sem os instrumentos necessários para enfrentar seus obstáculos.
É essa atenção com a infância que vai permitir a construção de valores positivos e dará aos pequenos um olhar de esperança, uma percepção de sua dignidade, uma autoestima capaz de livrá-los das armadilhas existentes pelo caminho.
No país em que mais da metade das famílias são chefiadas por mulheres, que se dividem entre o trabalho e o cuidado de suas crianças, faltam creches para atender à população. A maior parte das crianças brasileiras, então, não conta com a devida atenção dos pais e do Estado no momento mais importante, que é o da primeira infância.
Os resultados dessa carência são os piores possíveis. Desamparadas, indefesas, essas crianças se sentem "jogadas no mundo". Entre os adolescentes, a maior causa de morte é a violência. A gravidez de adolescentes é também um problema crônico em todo o Brasil. Em 2008, foram mais de 485 mil partos realizados em meninas de 10 a 19 anos na rede pública de hospitais. Essas crianças já crescerão com baixa expectativa de ter aquele cuidado especial que só um ambiente familiar acolhedor é capaz de dar.
Os indicadores relativos à infância no nosso país têm melhorado, sem dúvida. Mas estão ainda muito aquém do necessário e do que pode ser feito. Falta ao país a consciência de que a prioridade deve ser a de investir na formação do próprio povo, e em especial na educação e no bem-estar das crianças. Não somos, ainda, como nação, a "mãe ou pai gentil" que devemos ser se quisermos dar o salto civilizatório que pretendemos.
Por isso é tão louvável a criação e as iniciativas promovidas pela Rede Nacional Primeira Infância. Fundada em 2007, ela reúne organizações que atuam em prol da promoção e garantia dos direitos da criança até os seis anos de idade. Entre muitas ações, a Rede vem discutindo a elaboração de um Plano Nacional da Primeira Infância, que defina objetivos e metas para políticas públicas para crianças dessa faixa etária.
Após mais de um ano de consultas públicas e debates, a proposta será apresentada durante a 2ª Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz, que acontecerá de 27 a 30 de outubro no Senado Federal. Com a presença de diversos especialistas, a programação incluirá, além de uma conferência, oficinas, apresentação de filmes e mesas-redondas, tendo como um dos temas centrais a prevenção da violência na primeira infância. Confirma a programação completa no endereço www.senado.gov.br/sf/senado/programas/infanciaepaz e participe!
É mais do que urgente congregar e aprofundar todas as políticas para que atendam às necessidades dessa parcela tão frágil da população, que chega a quase 20 milhões de pessoas.
Hoje é comum apontar para a crescente importância política e econômica do Brasil. Analistas do mundo todo concordam que nosso país deve ter um papel cada vez mais decisivo. Mas só terá real importância se na base da aspiração nacional estiver o objetivo de dar expectativa de vida mais digna e feliz para a nossa população.
A riqueza que o país gerar deverá servir, em primeiro lugar, a esse propósito. Que só será verdadeiro e possível se começar pelos cuidados com a infância, para que nossas crianças cresçam num ambiente de paz, esperança e solidariedade.
Terra Magazine