Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Paulo Costa Lima

Quinta, 22 de outubro de 2009, 08h15

Indexação em chamas

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

L'homme l'homme l'homme armé!
Cuidado com o homem armado!
Todos devem vigiar e se armar com um pedação de ferro...
(canção satírica dos anos 1300, sobre o paradoxo
da prevenção da violência)


Helicóptero explodiu no Rio após pouso forçado

Uma coisa é a realidade, e outra coisa é a imaginação. Certo? Nem tanto. Nos tempos do capitalismo cultural a indexação imaginária ameaça se tornar mais real que a realidade.

Por exemplo: existiu na Polônia (na cidade de Cracóvia) um circuito de visitação descrito como 'Lista de Schindler'. Um de seus principais atrativos era o lugar onde "o rapaz que saiu correndo foi baleado e caiu morto". Visitava-se, dessa forma, uma cena de filme.

Mas, na verdade, as pessoas eram levadas ao gueto judeu da cidade para tal vivência, embora as filmagens tivessem sido feitas em lugar completamente distinto. O que estava sendo visitado, portanto, era um lugar imaginado. (Já existe até um termo específico para isso, chama-se dragging, a técnica de misturar cenários).

Todos os aspectos da vida cotidiana estão à mercê da tal indexação. A escola ou faculdade onde se estuda, os jeans que se usa (tudo que se veste), pasta de dentes, as bandas favoritas, as celebridades, as notícias, os políticos.

Talvez seja mesmo necessário reconhecer: não existem produtos, apenas indexações. E, numa visão algo aterrorizante: também não existem pessoas, apenas... apenas o quê?

As pessoas andam, falam e se vestem como se estivessem nos filmes e novelas (novelos, não-vê-las). A imersão é mais real do que a realidade. Seriam as pessoas, cada vez mais, buquês de indexação?

Quase já não é mais possível fazer um enterro digno sem gente usando óculos escuros, como se fossem artistas de Hollywood. Especialmente nas novelas. Quem foi que disse que é preciso esconder as lágrimas?

Mas o que mais espanta é falar numa espécie de meta-indexação. As indexações também são indexadas? Cada pessoa, ou buquê, vai avaliando a cada dia a qualidade do que a sustenta, ou melhor, a qualidade do que se sustenta, nelas. Para Joel Birman¹, o cenário é preocupante:

Encontra-se agora na sociedade contemporânea um conjunto de sujeitos negativamente marcados do ponto de vista narcísico e que não podem enunciar qualquer projeto de futuro. O ódio que perpassa tais sujeitos os conduz à explosão violenta e à ação, pela via da passagem ao ato. Contudo, esta não se restringe apenas às figuras da grande criminalidade, mas também da pequena delinqüência e da violência gratuita, que caracterizam a nossa existência da atualidade.

A indexação da indexação é, portanto, da ordem do narcisismo. Tudo começa na construção do sujeito, em frente do espelho. E é o registro imaginário que controla qualquer 'projeto de futuro'. Não espanta o papel decisivo das drogas.

O problema é que o comércio da indexação regula ao mesmo tempo o grau de felicidade dos viventes (felicidade imaginária) e a capacidade de lucro da indústria. Haverá, dessa forma, sempre, uma menos valia de ódio e frustração integrando a arrumação estrutural das coisas?

E toda essa energia estruturante destrutiva desaguará no assim-chamado terceiro partido, o partido da contravenção? Os outros dois sendo (segundo Melman) o da globalização (dinheiro circulante) e o da nacionalização (o petróleo é nosso)?

Nesse campo de forças que é o atual, percebemos com um certo amargor que a violência se oferece como uma espécie de esfinge para nossa época - decifra-me / devoro-te. Embutida nas relações estruturais corrompe o planeta e a sociedade fingindo ser apenas um caso, um escândalo. Mas é bem mais que isso.

E foi aí que comecei a pensar na cena (imaginária) e na tragédia (real) do helicóptero em chamas no Rio de Janeiro...

¹"Sobre a passagem ao ato", In: Modalidades do gozo, José Antonio Pereira da Silva (Org.). Salvador, Campo Psicanalítico, 2007, p. 60.


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Paulo Costa Lima vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela