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Sexta, 23 de outubro de 2009, 08h09

O estado e a máfia

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

No início dos anos 90 do século passado, o estado italiano negociou com a máfia siciliana para evitar massacres como o que matou o juiz Giovanni Falcone. O segredo mais conhecido do país foi confirmado oficialmente pela mais importante autoridade italiana em matéria de luta ao crime organizado.

Numa entrevista ao jornal de Rai3 o procurador nacional anti-máfia, Piero Grasso, revelou que os serviços secretos italianos entraram em contato e negociaram com personagens como o chefão Totò Riina e o ex-prefeito de Palermo, Vito Ciancimino.

O plano de Cosa Nostra era muito simples: chantagear o estado assassinando alguns personagens importantes. Começaram em 23 de maio de 1992, com uma bomba na rodovia entre Palermo e o aeroporto de Punta Raisi, que matou o juiz Falcone, sua mulher e três policiais da escolta. Grasso explicou:

- O assassinato de Falcone foi a espoleta desta chantagem. Meses depois, o atentado contra o juiz Paolo Borsellino serviu para reativar a negociação com os representantes das instituições.

Borsellino morreu em 19 de julho do mesmo ano, depois da explosão de um carro-bomba estacionado em baixo da casa de sua mãe, em Palermo. Com ele, morreram cinco policiais que o defendiam.

Piero Grasso acha que a negociata com os mafiosos se justifica, no contexto político e histórico em que aconteceu. Naquela época, a Itália vivia o choque da operação Mãos Limpas, que desintegrou o principal partido do país - a Democracia Cristã - e sacudiu todo o sistema político da república.

- Os tempos eram terríveis - explica o procurador anti-máfia - e era preciso deter essa explosão de terrorismo. Os contatos serviam para ter interlocutores certos. O problema era reconhecer a Cosa Nostra um nível suficiente para tratar com o estado, mas não há dúvida que esse contato criou expectativas e consequências.

Grasso conta o que aconteceu depois da prisão de Vito Ciancimino e de Totò Riina:

- Os massacres tomaram outro rumo, mas continuaram. Acho que há um único fio que une os assassinatos iniciais como o de Salvo Lima (eurodeputado democrata cristão morto a tiros em março de 1992) com as outras ações, inclusive o atentado abortado contra o estádio Olímpico em Roma.

Em outra entrevista, ao diário La Stampa, o procurador nacional anti-máfia afirma que a negociação entre o estado e a máfia siciliana salvou a vida de muitos políticos:

- Em princípio decidiram atacar o poder político e pretendiam matar Calogero Mannino, Claudio Martelli, Giulio Andreotti, Carlo Vizzini e outros nomes que agora não lembro. Mudaram de objetivo provavelmente porque compreenderam que não podiam eliminar os que deviam atender a seus pedidos.

Grasso explicou que o pacto era de entregar a cúpula de Cosa Nostra à polícia. Em troca, seus familiares seriam bem tratados - e eles também, na prisão.


Poucos dias depois das declarações de Grasso, o filho do ex-prefeito de Palermo Ciancimino entregou à mídia o papel com os pedidos dos mafiosos: 1) revisão da sentença do maxi-processo (contra os chefões da máfia); 2) anular a lei 41bis (que institui regime de prisão dura para os chefes de Cosa Nostra); 3) revisão da lei Rognoni-La Torre (sobre o sequestro dos bens dos mafiosos); 4) reforma da lei sobre os mafiosos arrependidos; 5) reconhecimento dos mesmos benefícios previstos para as Brigadas Vermelhas para quem se dissocia das organizações mafiosas; 6) prisão domiciliar para os chefões com mais de 70 anos; 7) fechamento das prisões de máxima segurança; 8) prisão perto das casas dos parentes; 9) nenhuma censura no correio dos familiares; 10) medidas de prevenção e sequestro: não para os familiares; 11) prisão só se apanhados em flagrante; 12) eliminar impostos sobre os combustíveis, como em Aosta.

Naturalmente, quem estava envolvido diretamente nas negociações desmentiu tudo. Até a existência do tal papel.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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