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Sexta, 23 de outubro de 2009, 08h37

Nobel da Paz: acerto ou erro?

Fabio Feldmann
De São Paulo

Causou espanto a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao presidente dos EUA Barack Obama, inclusive ao próprio. Teriam os responsáveis se precipitado ao conceder o Prêmio ou estaríamos diante de uma estratégia de compromisso? Aumentaria a responsabilidade do Presidente dos EUA com certos temas de campanha, a exemplo da paz no mundo, notadamente no Iraque e Afeganistão?

Pessoalmente, acredito que o Prêmio Nobel da Paz representa uma tendência importante de valorização de temas e instituições.

Se fizermos uma análise dos últimos anos, tivemos os seguintes prêmios: em 1999, Médicos Sem Fronteiras, em reconhecimento pelo trabalho humanitário pioneiro em diversos continentes; em 2000, Kim Dae- Jung, sul coreano que dedicou seu trabalho essencialmente para a paz e reconciliação com a Coréia do Norte; em 2001 a Organização das Nações Unidas e seu então Secretário Geral Kofi Annan receberam o Prêmio pelo trabalho por um mundo mais pacífico; em 2002 o americano Jimmy Carter foi o laureado escolhido por décadas se esforçando pelo encontro de soluções pacíficas em conflitos internacionais e pelo desenvolvimento econômico e social; em 2003 Shirin Ebadi, iraniana, defensora dos direitos humanos e da democracia em seu país; em 2004, Wangari Maathai, queniana, ganhou o Prêmio por sua longa trajetória a favor do ambientalismo e direitos humanos; no ano de 2005 a Agência Internacional de Energia Atômica e Mohamed ElBaradei, do Egito, foram os premiados por seus esforços em combater o uso da energia nuclear e assegurar que sua utilização tivesse fins pacíficos; em 2006 Muhammad Yunus e o Grameen Bank receberam o Prêmio pela promoção do desenvolvimento econômico e social das classes desfavorecidas, por meio do micro crédito; em 2007 Al Gore e o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) receberam o Prêmio por seus enormes esforços e contribuições na obtenção e disseminação das conclusões sobre as mudanças climáticas; em 2008 Martti Ahtisaari, finlandês, ganhou o Prêmio pela sua contribuição ao longo de três décadas para a solução de conflitos internacionais e por fim, este ano, o Presidente dos EUA, Barak Obama, ganhou o prêmio por seu esforço em reforçar o papel da diplomacia internacional e da necessidade de cooperação entre os povos.

Como se vê, os temas valorizados foram pobreza e micro crédito, meio ambiente e luta contra o apartheid, mudança do clima, Nações Unidas e visão multilateral na resolução dos problemas mundiais, cooperação entre os povos, fim de conflitos internacionais, dentre outros.

Dentro desse contexto, não há como negar que o Prêmio ao Presidente Obama tem uma importância às vésperas da negociação de Copenhague e diante dos problemas de paz mundial. No que tange à Copenhague, cada vez mais se torna evidente a necessidade de medidas urgentes em termos de estabilização do clima no planeta, sendo que é absolutamente inaceitável um novo regime internacional sem a presença dos EUA. Para tanto, todos aguardam ansiosamente a votação da lei Waxman-Markey em tramitação no Senado.

Hoje se discute a possibilidade de se criar uma categoria para meio ambiente. Tenho dúvidas, mas, de qualquer modo, penso que a Gro Brundtland e Maurice Strong mereceriam ter ganho, no passado, o Prêmio Nobel da Paz, pelas suas respectivas contribuições.

Os responsáveis pelo Nobel assumiram um grande risco, restando saber no futuro se valeu a pena. Não se pode esquecer que Gandhi nunca ganhou o Prêmio, ou seja, erros no passado já foram cometidos, muitos por omissão. E alguns permanecem polêmicos até hoje...

Fabio Feldmann é consultor, advogado, administrador de empresas, secretário executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade e fundador da Fundação SOS Mata Atlântica. Foi deputado federal, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Dirige um escritório de consultoria, que trabalha com questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável.

Fale com Fabio Feldmann: fabiofeldmann08@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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