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Sexta, 23 de outubro de 2009, 12h42

A desconexão chinesa

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Para Krugman, a China continua um país que ainda é pobre e cujo sistema financeiro pode se desestabilizar facilmente por fluxos de dinheiro voláteis
Para Krugman, a China continua "um país que ainda é pobre e cujo sistema financeiro pode se desestabilizar facilmente por fluxos de dinheiro voláteis"

Paul Krugman
Do The New York Times

Os oficiais de alto escalão falam em código. Então quando Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal Americana, falou sobre a Ásia, as rupturas internacionais e a crise financeira, ele não chegou a criticar a política aviltante praticada pela China com relação à sua moeda.

Ele nem precisava: Todos entenderam a crítica subjacente. O mau comportamento da China está impondo uma ameaça à economia mundial. A pergunta agora é: o que o mundo, e em especial os Estados Unidos, vai fazer a respeito?

Veja como funciona: O valor da moeda chinesa, diferente da Libra britânica, por exemplo, não é determinado por oferta e procura. Em vez disso, as autoridades chinesas atingem seu objetivo comprando ou vendendo sua moeda no mercado financeiro estrangeiro - uma política possibilitada por restrições na possibilidade de investidores privados movimentarem seu dinheiro para fora e dentro do país.

Não há nada de necessariamente errado com essa política, especialmente para um país que ainda é pobre e cujo sistema financeiro pode se desestabilizar facilmente por fluxos de dinheiro voláteis. Na realidade, o sistema foi positivo à China durante a crise financeira asiática no final da década de 1990. A pergunta crucial, no entanto, é se o valor pretendido do yuan é razoável.

Até 2001, poderíamos argumentar que era - a posição da China no mercado internacional não estava desestabilizada. Desde então, no entanto, a política de manter a taxa fixa entre o yuan e o dólar faz cada vez menos sentido. Primeiramente porque o valor do dólar caiu, especialmente em relação ao euro. Portanto, manter a taxa entre o yuan e o dólar fixa significa que os oficiais chineses estavam na realidade desvalorizando sua moeda no mercado internacional. Enquanto isso, a produtividade das indústrias exportadoras da China prosperou; o que, combinado com a desvalorização, tornou as mercadorias chinesas extremamente baratas para os mercados internacionais. O resultado disso foi um excedente monstruoso. Se a oferta e a demanda pudessem permanecer, o valor da moeda chinesa teria aumentado significativamente. Mas as autoridades chinesas não a deixaram aumentar. Eles a mantiveram em baixa, vendendo grandes quantidades de moeda, adquirindo uma quantia monumental de bens estrangeiros, dólares em sua maioria, que agora valem 2,1 trilhões.

Muitos economistas, inclusive eu, acreditam que o exagero chinês de compras ajudou a inflar a bolha do mercado americano, antecipando a chegada da crise mundial. Mas a insistência da China em manter a taxa yuan/dólar fixa, mesmo quando o dólar cai, pode causar ainda mais estragos hoje.

Apesar das críticas sobre a queda do dólar, ela pode ser natural e até desejável. Os Estados Unidos precisam de um dólar mais fraco para ajudar a reduzir seu déficit comercial, e estamos chegando a ele com os investidores nervosos, que recorreram à dívida supostamente segura no começo da crise, e agora estão investindo seu dinheiro em outros lugares.

Mas a China mantém a sua moeda atrelada ao dólar - o que significa que um país com uma alto excedente de exportação e uma economia crescente, um país cuja moeda deveria estar se valorizando, está na verdade planejando uma desvalorização gigante.

E isso é algo especialmente desaconselhável numa época em que a economia mundial continua em depressão devido à demanda geral inadequada. Apelar pela desvalorização da própria moeda significa que a China está negando essa demanda aos países que precisam dela e impedindo o crescimento em todos os mercados. As maiores vítimas são provavelmente os trabalhadores de outros países pobres. Eu normalmente sou contra dizer que a China está roubando os empregos de outros países, mas neste caso sou obrigado a concordar.

E o que vamos fazer então?

Os oficiais americanos têm sido extremamente cuidadosos para tratar a questão da China, a ponto de semana passada o Departamento do Tesouro dos EUA, ao expressar "preocupações", certificou em um relatório entregue ao Congresso norte-americano que a China não está manipulando sua moeda. Eles devem estar brincando.

O fato é que, neste momento, tanto cuidado parece fazer sentido. Suponhamos que os chineses resolvam fazer o que Wall Street e o governo americano mais temem, ou seja, despejar no mercado sua quantidade gigantesca de dólares. Nas condições atuais, isso iria ajudar a economia dos EUA tornando as exportações mais competitivas.

Na realidade, alguns países, especialmente a Suíça, vêm tentando melhorar suas economias vendendo suas próprias moedas no mercado financeiro internacional. Os Estados Unidos, por razões diplomáticas, não pode fazer o mesmo. Mas se os Chineses fizerem isso para nós, devemos mandar um cartão de agradecimento a eles.

Não devemos esquecer que a economia mundial ainda está muito precária e não podemos tolerar políticas que prejudiquem outros países em prol da sanidade financeira de um. Algo deve ser feito sobre a moeda chinesa.


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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