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Sábado, 24 de outubro de 2009, 08h00

Conto: "Inércia, pois"

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Este conto foi publicado na revista brasileira Perry Rhodan (da editora mineira SSPG) em março de 2004.

Um bedog tem em média 1,80 m. de altura e 150 quilos de peso. O soco do bedog mais próximo da entrada abateu-se em cheio sobre a cabeça de Riko, mas o humano de 1,68 m. e 70 quilos nada sentiu. Os pugilistas diziam que o golpe que você não vê é aquele que o derruba, mas Riko só não foi morto por estar em uma nave espacial que acelerava a toda força, com o compensador inercial ativado. Sem inércia, não há transmissão de energia de um objeto impactando sobre outro. Sem a compensação da inércia, os corpos biológicos a bordo no cruzador espacial seriam esmagados contra o encosto dos seus assentos ou desmembrados a qualquer manobra mais brusca, em velocidades próximas à da luz.

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Na sala de comando que Riko acabava de invadir, havia apenas meia-dúzia de tripulantes. Esperava encontrar todos afivelados nos seus assentos, mas um deles, acostumado à eficácia do compensador inercial, desistira dos incômodos cintos, e fora ele quem o vira entrar. Riko aparou mais golpes com a cabeça, e então apanhou cuidadosamente o atacante, e subiu nas costas do surpreso brutamontes. Dando uma chave de braço em seu pescoço, aplicou pressão constante até tirar-lhe os sentidos.

Durante a aceleração, os bedogs confiavam cegamente em seus rígidos procedimentos, que Riko havia estudado com cuidado. Seus inimigos não sabiam agir no ambiente de anulação total da inércia. E uma vez acionado o compensador, o aparelho ficaria ligado até o final da manobra.

Dois outros bedogs livraram-se dos seus cintos e levantaram-se para enfrentá-lo - mas estacaram aos primeiros passos. Você não sabe o quanto o ato de caminhar depende de impulsos e quedas dos membros, agora tornados inúteis. Riko, por outro lado, avançava com os movimentos deliberados de um esquiador, aplicando força muscular em cada gesto. Na ausência da Primeira Lei de Newton, recorria-se à Terceira Lei, a da ação e reação. Logo estava sobre o primeiro oponente, a hipodérmica com a dose cavalar de sedativo já preparada. Um toque e o bedog desmoronou sobre a colunata de suas quatro pernas. O segundo tentou proteger-se com os leques de oito dedos de suas mãos enluvadas, mas a hiperpressão da seringa venceu o tecido e o pôs a nocaute. Se os inimigos da humanidade tivessem o hábito de envergar trajes espaciais durante essas manobras, Riko não teria a menor chance.

O cruzador dirigia-se ao Cerco do Sistema Solar, uma batalha que já durava quatro meses. Levava mísseis com bombas definitivas. Bastaria que uma delas chegasse à Terra, ou ao Novo Marte terraformizado, para incendiar o oxigênio da atmosfera e extinguir toda a vida que estivesse desabrigada. O desenvolvimento da bomba e o carregamento dos mísseis no cruzador espacial fora descoberto pelo serviço de inteligência terrana, que designara Riko Santos para a missão de tomar a nave, sozinho. Sua única qualificação fora ter pregado peças nos colegas, durante os procedimentos de aceleração e frenagem, nas naves da Frota em que havia servido. Ele desenvolvera a técnica.

Após ser contrabandeado pela inteligência terrana para dentro do cruzador, enfrentava agora os imensos bedogs em combate corporal. Faltavam três. Por sorte a arma-padrão do inimigo era o desintegrador portátil, altamente destrutivo e portanto proibido na sala de comando.

Riko despachou um perplexo bedog com nova estocada da seringa. Os outros dois permaneceram em suas posições. Eram o piloto e o comandante. Através de qualquer um de seus consoles Riko poderia alterar o programa de salto no hiperespaço, desviando a nave do seu ponto de reentrada em algum lugar na nuvem de Oort do Sistema Solar, e lançando-a para uma nebulosa distante, onde uma flotilha terrana se apoderaria de seu apocalíptico arsenal.

O piloto apanhou o estojo do seu traje espacial e com ele tentou proteger-se dos golpes de Riko. O embate transformou-se numa demorada e contorcida esgrima de espada contra escudo, até que Riko visasse um dos muitos dedos vulneráveis, na borda do estojo metálico.

Restava apenas o comandante da espaçonave. Ele aproveitara a demora de Riko em despachar o piloto, para calçar as luvas metálicas do traje espacial, e já retirava o capacete do estojo. Protegido, poderia neutralizar Riko com um aperto dos seus poderosos braços ou simplesmente caminhar até uma armaria e matá-lo com um desintegrador.

- Desgraçado! - Riko xingou, pensando em saltar sobre ele ou em arremessar-lhe a seringa.

Mas seria inútil.

No tempo em que levou para avançar, o bedog terminou de meter a cabeça no capacete. Para ter liberdade de movimentos, porém, ele havia se desafivelado do assento.

Riko alcançou-o, fez girar a poltrona, e tentou puxá-lo para fora.

Apenas a inércia era anulada pelos campos energéticos do compensador, e não a gravidade ou a massa. Riko ainda tinha que movimentar os 150 quilos do inimigo. Terminou abraçado pelo bedog, sentindo as suas costelas serem esmagadas. Não podia mais respirar. Em poucos segundos estaria inconsciente e a mercê do inimigo. Mas agora estava próximo o bastante para pressionar um botão no console - um botão que acionava as presilhas magnéticas de gurança.

A menor disfunção do compensador inercial poderia atirar o tripulante para fora da poltrona. Presilhas especiais poderiam ser acionadas manualmente, para prendê-lo no assento e para enrijecer o traje de pressão e impedir que o sangue fugisse dos dois cérebros funcionais do bedog.

Riko levantou-se e encarou o inimigo. Se o acionamento das presilhas de segurança podia ser tanto automático quanto manual, o seu desengate seria apenas automático, controlado pelo computador de bordo, pois a tontura e a desorientação poderiam levar o bedog a acioná-lo enquanto ainda estivesse perigo. Suando e ofegante, Riko desrosqueou devagar o capacete do bedog.

- É só uma soneca - disse em intercosmo. - Em mais uma hora você vai acordar numa cela terrana - e ferrou-o com a hipodérmica de alta pressão.

Caminhou então para a poltrona do piloto e o removeu do assento. Digitou rapidamente as novas coordenadas no controle de salto. Recostou-se na desconfortável poltrona. Depois da leve tontura que assinalavam a reentrada no universo normal, Riko reconheceu a nebulosa de destino nas telas da nave, que agora passava por um regime violento de desaceleração.

Um grunhido às suas costas o fez saltar da poltrona.

O bedog que ele havia derrubado com uma chave de braço, e não com o poderoso sedativo, estava de novo em pé e fulo da vida. Atirou contra Riko um enorme e pesado anteparo de metal.

O terrano levantou os braços num reflexo de autoproteção, mas não havia por quê.

O objeto atirado, sem o fator inercial, foi regido apenas pela ação da gravidade sobre sua massa e pelo atrito com o ar. Executou um arco estreito e caiu aos pés de Riko, sem quicar uma única vez.

- Ora, seu grande idiota - Riko disse, e avançou sobre o espantado bedog, de seringa em punho.

De posse da bomba definitiva, a humanidade teria um novo e derradeiro fator de dissuasão contra os bedogs. O cerco seria levantado, a guerra já tinha os seus dias contados.

"Eu posso até acabar recebendo uma medalha", pensou o terrano brincalhão. "Isso sim, seria a maior das piadas."

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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