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Sábado, 24 de outubro de 2009, 08h03

O antigo, o novo e o antiquíssimo

Mauricio Tagliari
De São Paulo

No mundo do vinho, há tradições novas, tradições antigas e tradições antiquíssimas. Curiosamente, algumas vezes, as antiquíssimas e as novas se encontram. É o caso, por exemplo, do DOC (Denominazione di Origine Controlata) de Morellino di Scansano.

Situadas na região de Maremma, ao sul da Toscana, beirando a costa, as colinas em torno do vilarejo de Scansano têm produzido vinho por mais de mil anos. Mas seu terroir foi eclipsado na época moderna pelos seus vizinhos Chianti, Brunelo de Montalcino e Vino Nobile di Montepulciano.

Em parte devido à desorganização da política vitivinícola italiana reinante até poucos anos atrás, seu reconhecimento como DOC é muito recente, data de 1978. Tradicionalmente a variedade de Sangiovese, dominante na Toscana, é chamada lá de Morellino (moreninho; dizem que provavelmente devido à cor de uma raça de cavalos criada na região, mas eu não garanto...). Daí que os vinhos são os Morellino di Scansano. Em sua produção, é permitido, além de Morellino (ou Sangiovese, como queiram), o uso de 15% de outras uvas.

São vinhos leves, de taninos agradáveis, que evidenciam características da sangiovese cultivada numa região um pouco mais quente do que nas famosas citadas acima. Trazem muita fruta e o teor alcoólico um pouco mais alto, mas de acidez agradável, que não permite o surgimento de um sabor pesado. Não precisam passar por madeira e devem ser bebidos jovens. São excelentes para acompanhar massas leves e carnes vermelha ou branca, grelhadas.

Já a versão reserva tem por obrigação passar ao menos um ano em barrica e só pode ser vendida dois anos após a colheita. É um vinho mais estruturado, com taninos bem redondos.

Uma das fattoria pioneiras da região é a Le Pupille, da talentosa Elisabetta Geppetti, primeira presidente e também fundadora do Consorzio del Morellino di Scansano.

Le Pupille já vinha produzindo, em pequena quantidade, vinhos de qualidade desde os anos 70. Elisabetta, nos primeiros anos, recebeu consultoria de grandes enólogos, como Giacomo Tachis, Ricardo Cotarella e Christian le Sommer, do Chateaux Lafite.

Este último, segundo nos revelou recentemente Sergio Bucci, atual enólogo e diretor de Le Pupille, em uma prova de seus vinhos, contribuiu com uma visão afrancesada, mais voltada para o cuidado no vinhedo, típico de uma viticultura de região de clima mais difícil que a ensolarada Toscana.

O Morellino di Scansano Le Pupille 2007, 13,5% de álcool (Vinci, U$ 35) é um vinho franco, aberto, simples, sem ser tedioso. De cor quase violeta, é macio no palato e rico de aromas, distante, contudo, de uma bomba superpotente. Frutado sem ser óbvio. Tem notas de ervas e um pouco de café no fim do copo. Traz um pequeno percentual de Alicante, provavelmente uma variante presente na região desde os tempos do domínio espanhol na costa e Malvasia Nera.

O Morellino di Scansano Poggio Valente 2005, 14% de álcool (Vinci, U$ 75,90), um corte de Sangiovese e Alicante, é mais que um reserva, um verdadeiro cru produzido a partir de uvas do vinhedo do mesmo nome. Tem cor rubi brilhante e passa 15 meses em barrica. Seu aroma é mais complexo e no palato é macio, elegante e fresco. Traz algo intangível de Bordeaux, além de um leve achocolatado...

A Toscana revolucionou o mundo do vinho italiano nos anos 70 com os chamados supertoscanos, que de forma rebelde usaram uvas exóticas à região e à legislação, como a francesa Cabernet Sauvignon, para produzir grandes vinhos. O advento da categoria IGT (Indicazione Geografica Tipica), que os libertou das cepas italianas, trouxe por outro lado uma busca pelo talvez exagerada pelo vinho de autor.

A ascenção, nos últimos 30 anos, do Morellino di Scansano, de certa forma é um retorno ao sabores autênticos da Toscana mais vibrante, natural e por que não dizer, antiquíssima. Onde os vinhos são pensados para acompanhar a refeição e não para ganhar prêmio em degustação. Vinhos, acima de tudo, leves e agradáveis.

São excelentes opções de vinhos toscanos de alto nível, sem os preços exorbitantes de muitos dos Brunello ou Chianti Classico. Principalmente agora que a Vinci (www.vincivinhos.com.br.) está com o dólar a R$ 1,49 para os vinhos acima de U$ 30 até o dia 30 de novembro (ou até o término dos estoques)...

Auguri!


Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical. Sócio da ybmusic, escreve sobre música e bebidas no blog www.maisumgole.wordpress.com e sobre música no http://ybmusica.blogspot.com. É co-autor do Dicionário do Vinho Tagliari e Campos.

Fale com Mauricio Tagliari: mauricio.tagliari01@terra.com.br

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Reprodução
A uva Sangiovese, dominante na Toscana

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