Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Thomas Friedman

Segunda, 26 de outubro de 2009, 14h13

De olho no prêmio

Thomas L. Friedman
Do The New York Times

BAGDÁ, 25 de agosto de 2012 - O presidente Barack Obama foi hoje para Bagdá em sua viagem de fim de mandato para destacar os sucessos da política externa norte-americana. Em um momento em que as negociações entre Arábia e Israel continuam mergulhadas num impasse e o Afeganistão permanece numa situação difícil, Obama elogiou o fim pacífico da presença americana no Iraque como a sua única conquista no Oriente Médio. Falando para um grupo de autoridades iraquianas e norte-americanas sob a bandeira "Missão Realmente Cumprida" escrita em árabe e em inglês, Obama levou as honras por ajudar o Iraque a alcançar um fim decente - embora muito caro - para a guerra iniciada pelo presidente Bush. Assessores disseram que Obama destacaria o progresso no Iraque em sua campanha de reeleição.

Será que poderemos realmente ler esta notícia em três anos? Eu não apostaria nisso. Mas também não a removeria de consideração. Seis anos após a invasão dos EUA, o Iraque continua a perturbar e atormentar. Assistir à política iraquiana é como ver um equilibrista na corda bamba atravessando uma caverna perigosa. A cada passo parece que ele vai cair no abismo e, no entanto, de alguma forma ele continua a cambalear para a frente. Nada é fácil quando se tenta transformar um país brutalizado por três décadas de ditadura cruel. É um passo, uma eleição, uma nova lei ao mesmo tempo. Cada um é uma luta. Cada um é crucial.

Esta próxima etapa é especialmente importante, razão pela qual não podemos deixar o Afeganistão distrair os diplomatas norte-americanos do Iraque. Lembre-se: transformem o Iraque e isso terá impacto em todo o mundo árabe e muçulmano. Mudem o Afeganistão e vocês mudam somente o Afeganistão.

Especificamente, a equipe de Obama precisa se certificar de que os políticos do Iraque, que adoram uma discussão, não adiem as próximas eleições marcadas para janeiro e não as realizem com base no sistema de "lista fechada" de 2005 que é dominado por líderes partidários. Devemos insistir, com toda a nossa influência, em uma eleição de "lista aberta", o que cria mais espaço para novos rostos, permitindo que os iraquianos votem em candidatos individuais e não apenas em um partido. É isso que o líder espiritual do Iraque, o Grande Aiatolá Ali al-Sistani, também está exigindo. Este é um sistema muito mais responsável.

Se conseguirmos uma eleição de lista aberta, o próximo grande passo seria o surgimento de partidos iraquianos nesta eleição concorrendo a cargos com base em coalizões não-sectárias - onde sunitas, xiitas e curdos concorram juntos. Isto seria significativo: o Iraque é um microcosmo de todo o Oriente Médio e se os partidos do Iraque conseguirem descobrir como governar a si mesmo - sem um ditador tirânico - a democracia é possível em toda esta região.

O que é intrigante é que o primeiro-ministro iraquiano, Nouri Kamal al-Maliki, que veio do partido xiita Dawa, decidiu concorrer desta vez com o que ele chama de "A Coalizão de Estado de Direito", uma aliança pan-iraquiana e nacionalista com cerca de 40 partidos políticos, incluindo os líderes tribais sunitas e outras minorias.

Al-Maliki esteve em Washington na semana passada e eu o entrevistei no Hotel Willard principalmente para perguntar sobre seu novo partido. "O Iraque não pode ser governado por uma cor, uma religião ou um partido", explicou. "Nós vimos claramente que o sectarismo e que o agrupamento étnico ameaçaram a nossa união nacional. Portanto, creio que deveríamos reunir todas estas diferentes cores e estabelecer o Iraque como um país construído com base no Estado de Direito, justiça e cidadania. O povo iraquiano nos incentivou. Eles querem isso. Outros partidos também estão se organizando como este. Ninguém mais pode concorrer como um bloco puramente sectário... Nossa experiência é única nesta região".

Isto é certo. Os iranianos querem que os partidos xiitas pró-Teerã dominem o Iraque. Além disso, a ditadura iraniana odeia a ideia de o Iraque "inferior" realizar eleições reais enquanto o Irã limita a votação a candidatos pré-selecionados e em seguida manipula desonestamente o resultado. A maioria dos líderes árabes teme que qualquer democracia real multissectária crie raízes no bairro.

"A coisa mais perigosa que poderia ameaçar os outros é que se nós realmente tivermos sucesso na construção de um estado democrático no Iraque", disse al-Maliki, cujo país tem hoje cerca de 100 jornais, "os países cujos regimes são baseados em um partido, seita ou grupo étnico se sentirão em perigo".

Al-Maliki sabe que não será fácil: "Saddam governou por mais de 35 anos", disse. "Nós precisamos de uma ou duas gerações criadas em democracia e direitos humanos para nos livrar desta orientação".

Se esta eleição acontecer, ela ainda será realizada com a presença dos soldados norte-americanos. O maior prêmio e teste serão daqui a quatro anos se o Iraque puder realizar uma eleição na qual coalizões multiétnicas com base em concepções diferentes de governo - não sectarismo - disputem o poder e as rédeas sejam passadas de um governo a outro sem qualquer envolvimento militar norte-americano. Essa seria a primeira vez na história árabe moderna em que coalizões multissectárias verdadeiras disputariam e cederiam o poder sem interferência estrangeira. Isso transformaria toda a região.

Sim, vamos encontrar uma solução para o Afeganistão. Mas não esqueçamos que algo muito importante - mas tão frágil e provisório - ainda está se desenrolando no Iraque e nós e nossos aliados ainda precisamos ajudar a sua realização.

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela