Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Fernando Eichenberg

Segunda, 26 de outubro de 2009, 09h30 Atualizada às 14h51

Encontro com Albert Uderzo, um dos pais de Astérix & Obélix

Fernando Eichenberg
De Paris


"Estamos em 50 antes de Jesus Cristo. Toda a Gália está ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada de irredutíveis gauleses resiste ao invasor". A observação legenda a ilustração de uma enorme lupa que revela num canto do mapa da França, na região da Bretanha, a diminuta e insolente aldeia gaulesa, motivo de incessante fúria do conquistador Júlio César, imperador dos romanos. Assim começam, invariavelmente, as inesquecíveis aventuras do pequenino Astérix e de seu inseparável companheiro de confissões e bravatas, o gordo e simpático Obélix. A dupla de intrépidos gauleses, criação do roteirista René Goscinny e do desenhista Albert Uderzo, diverte há 50 anos crianças e adultos com sua infinita resistência, suas memoráveis surras nas legiões romanas, suas trapalhadas, seu sentimentalismo, suas viagens pelo mundo, suas poções mágicas, menires e suculentos javalis.

Veja também:
» Siga Bob Fernandes no twitter

Na ultima quinta-feira (22/10), foi lançado simultaneamente em vários países da Europa o álbum comemorativo do cinquentenário da célebre dupla gaulesa, L'Anniversaire d'Astérix & Obélix - Livre d'Or, dias antes data oficial (foi no 29 de outubro de 1959 a primeira aparição de Astérix, no jornal Pilote). A edição brasileira, Astérix - Álbum de Ouro, da ed. Record, estará nas livrarias a partir de 9 e novembro.

Recentemente, entrevistei aqui Albert Uderzo, 82 anos, o único remanescente da original dupla de criadores. Foram alguns meses de tratativas até ser agendado o esperado encontro, cujo resultado seria publicado na revistaPersonnalité (Trip Editora). Há 56 anos casado com a bela Ada, de origem italiana e olhar transparente, o bem-humorado Albert Uderzo vive num elegante sobrado em Neuilly-sur-Seine, subúrbio chique de Paris. Em sua mesa de trabalho no amplo ateliê do segundo andar, para o qual sobe num elevador, cria seus desenhos em páginas brancas apoiadas na tábua de madeira confeccionada por seu pai, utensílio sentimental que utiliza desde os 18 anos. Foi ali, sentado no acolchoado sofá negro de canto, num final de manhã ensolarado, que conversou com Personnalité sobre a sua singular trajetória e as suas próprias aventuras de vida.

Uderzo nasceu, em 1927, com seis dedos em cada mão. A malformação, corrigida posteriormente por uma cirurgia, parecia prenunciar uma excepcionalidade futura. Seu pai, imigrante italiano, tentou por tudo com que aprendesse a manejar com destreza o acordeão. Apaixonado por carros, a mecânica de automóveis apontava como sua primeira escolha profissional. Mas foi o daltônico desenhista que, com lápis e pincéis, revelou e exprimiu todo o seu talento e construiu sua vida. Astérix e Obélix se tornaram fenômeno mundial das histórias em quadrinhos. Os números comprovam o sucesso. Desde 1961, seus 33 álbuns, traduzidos em 107 línguas e dialetos, venderam cerca 325 milhões de exemplares em todo o planeta.

Com a morte repentina de Goscinny, vítima de um ataque cardíaco em 1977, foi precocemente anunciado o fim dos célebres personagens. Mas passado o período de luto, Uderzo decidiu dar uma sobrevida à dupla de gauleses: montou a editora Albert-René e passou a criar sozinho novas histórias. Mais recentemente, admitiu pela primeira vez que, após sua morte, permitirá a Astérix e Obélix continuarem suas aventuras pela mão de outros autores.

Apequenado, bigode espesso e rebelde, nariz proeminente, Astérix está distante dos ídolos convencionais das histórias em quadrinhos de aventura. Anti-herói por excelência, o personagem de Uderzo e Goscinny goza, hoje, de plena saúde e comemora seus 50 anos com inabalada popularidade. Sua curiosidade além-fronteiras extrapolou o limite do espaço dos quadrinhos e adentrou nos debates contemporâneos. Astérix alcançou o estatuto de mito, o que tem lhe rendido a atenção de sociólogos, historiadores, políticos, semiólogos e pesquisadores em geral. Na sua já longa carreira de embates contra as legiões romanas e de andanças pelo mundo, nunca o diminuto gaulês teve sua imagem tão fortemente evocada como exemplo e referência como nesse início do terceiro milênio.

O mito é um conto fundador que fala no passado e vive no presente, explica Frédéric Maguet, autor, junto com Henriette Toullier, do livro Astérix, um Mito e suas Figuras (ed. Puf). Não por acaso, embora contra o desejo de seus progenitores, o herói tem sido apropriado por aqueles que tentam abordar politicamente os problemas contemporâneos. Para muitos, a luta de sobrevivência da solitária aldeia gaulesa frente ao insaciável império de Júlio César representa a oposição do pequeno ao grande, a resistência do local ao globalizante. "Oposição entre essa aldeia na qual todo mundo se conhece e esse vasto império que não consegue se impôr", escreve Frédéric Maguet.

Paradoxalmente, Astérix defende sua cultura e habitat numa aldeia cercada, mas não hesita em, ao lado do amigo e guardião Obélix, correr o mundo, descobrindo modos de vida diversos da sua origem gaulesa. René Goscinny era mestre em temperar com humor os contrastes de costumes e culturas, e também em acrescentar elementos modernos às dificuldades impostas aos dois heróis, ao fazer, por exemplo, Astérix e Obélix enfrentarem engarrafamentos na Via Romana n° VII ou se perderem numa burocracia pública infernal de intermináveis guichês, formulários e funcionários inoperantes.

Alheios ao sucesso e às teses políticas e acadêmicas sobre seu comportamento, Astérix e Obélix, Idéfix, Panoramix, Abracurcix e toda a família gaulesa da pequena aldeia sitiada na Bretanha só temem uma coisa: que o céu caia sobre suas cabeças. Até lá, fastuosos banquetes continuarão animando suas noites de lua cheia.

Apesar do generoso espaço destinado ao entrevistado na edição n° 8 da Personnalité (setembro 2009), grande parte de nossa conversa não pôde ser publicada. Aproveito a coincidência comemorativa para disponibilizar aqui a íntegra de meu encontro com Uderzo.

Seus pais nasceram na Itália, foram naturalizados franceses em 1934. Você é francês de nascimento. Que relação você tem hoje com suas origens italianas?
Meus pais chegaram na França em 1923. A Itália foi o país dos meus pais, mas não é mais o meu. Ainda tenho muitos parentes lá, primos. Certa vez, uma prima me convidou para ir à Itália com a minha família. Achei que seria recebido por três ou quatro pessoas, mas, quando chegamos, eles eram quarenta primos! (risos). O fato de eu falar pouco o italiano tornou a nossa comunicação um pouco difícil, mas foi, mesmo assim, um encontro extremamente simpático.

Você nunca quis aprender o italiano?
Meu pai falava francês muito mal, mas queria falar o francês o tempo todo. Ele falava em italiano com a minha mãe, por isso tenho a música da língua na memória, compreendo bem o italiano, mas falar é difícil para mim. Não tenho nenhuma prática. Seria preciso viver uns seis meses na Itália e falar apenas o italiano, desse modo aprenderia rápido, porque quando se conhece uma língua criança, mesmo que não a pratiquemos depois, guardamos sempre o que chamo de "música da língua" na cabeça. E como se trata de uma bela língua, me arrependo de não tê-la aprendido.

Você já esteve algumas vezes no Brasil. Quais as suas lembranças dessas viagens?
Fui três vezes ao Brasil, sendo que viajamos duas vezes ao Rio, de Concorde, passando por Dakar. Estive pela primeira vez em 1971, com a minha mulher e a minha filha. Fomos visitar minha irmã, que estava instalada no Rio. Meu cunhado era militar, foi enviado ao Rio. Minha irmã nos convidou para ir ao Brasil ver o Carnaval. Assistimos a esse extraordinário Carnaval, que acontecia numa avenida hoje não mais utilizada para os desfiles. Numa outra vez em que retornamos, o Carnaval já ocorria em outro local, era um pouco diferente, mas continuava extraordinário. Fomos recebidos pelo nosso editor brasileiro (Alfredo Machado, fundador da Record, já falecido).

O que o Brasil evoca em você?
Antes de tudo, me evoca um país extremamente belo. Tivemos o prazer de ir até a capital, Brasília, com construções ainda inacabadas. Era relativamente deserto. Eu me lembro de ficar surpreso na visita a um grande centro comercial, pois não havia quase ninguém, mas tinha os álbuns de Astérix à venda. Saber que estávamos tão longe de casa e ver os álbuns lá me deu obviamente prazer, e me emocionou o fato de saber que o trabalho que fazíamos podia ser apreciado em locais tão longínquos. Não visitei as favelas, porque era algo um pouco delicado de se fazer, mas queria tê-lo feito. Havia uma favela ao lado de Brasília, ocupada por pessoas que trabalharam na construção da cidade, mas não pudemos colocar os pés lá. Fora isso, é um país extremamente colorido. A imagem que guardo do Rio e de seu Carnaval é evidentemente fantástica. Fomos convidados aos bailes. As fantasias, as belas mulheres...

Astérix também tem uma história de sucesso no Brasil.
Fico contente em saber que é um personagem que agrada no Brasil. Uma coisa surpreendente é que somos, em geral, bem-recebidos na América do Sul - Brasil, Argentina, Chile e outros países -, mas na América do Norte é o contrário. Os americanos nos fecham as portas. É um país de democratas, mas com uma democracia bastante singular. Tudo o que eles fazem, projetam no mundo inteiro. Mas eles mesmos não recebem nada desse mundo inteiro. São portas fechadas. Podemos viver sem os americanos.

Você descobriu sua aptidão para o desenho e também o daltonismo quando teve de ilustrar, na escola, a fábula "O Lobo, a Cabra e o Cabrito", de La Fontaine. Como foi isso?
Deveria ter uns sete anos, ainda não sabia ler e escrever. A professora nos contava uma fábula de La Fonatine e pedia que ilustrássemos. Era uma forma inteligente de fazer as crianças apreenderem a fábula pelo desenho. Isso me marcou profundamente, porque ganhei a primeira caixa de lápis coloridos. E foi assim que se descobriu que eu era daltônico, pois fiz um desenho com a grama vermelha e minha mãe ficou um pouco surpresa (risos).

O fato de ter feito um belo desenho não o marcou?
Não tinha consciência se desenhava bem ou não. Meu irmão mais velho, que tinha sete anos a mais do que eu, desenhava. Como ele era bastante agitado, minha mãe fazia com que desenhasse para se acalmar. Ele desenhava o que via. Havia uma antiga série, chamada Gédeon, criada por Benjamin Rabier (1864-1939), uma grande desenhista francês. Eu observava meu irmão copiar esses desenhos. É uma memória de infância. Mas meu irmão não pensava em fazer do desenho uma profissão, ele era apaixonado por mecânica, e foi ele que me inculcou o gosto pelos automóveis.

Como você viveu com o daltonismo?
Vivi de uma forma inconsciente. Seguidamente, me esquecia de que era daltônico. Por vezes, desenhava cavalos verdes, o que fazia rir as pessoas ao redor, que me perguntavam: "Mas por que você desenhou um cavalo verde?". Eu achava que elas estavam brincando. Eu respondia: "Mas ele não é verde, é marrom!". Nesse momento, comecei a compreender que seria preciso contratar um colorista (risos).
Em 1934, você descobriu as histórias de Mickey. Sua vontade de desenhar personagens vem das HQ de Walt Disney, mas, na época, sem imaginar que poderia se tornar uma profissão.
Eu gostava dos filmes de Disney. Nas sessões de cinema da época, havia a projeção de dois filmes longos e, no meio, a exibição de um noticiário, um documentário ou um desenho animado. Havia muitos filmes de Disney, que me marcaram muito. Nos jornais, lia as tiras de Mickey, que até hoje tenho na memória e que me incitaram, pelo prazer, a contar histórias por meio de personagens que eu mesmo criava, sempre com narizes enormes (risos). Mas tudo sem maiores pretensões. Na época, era uma profissão desconhecida. Ninguém sabia o que era história em quadrinhos, exceto aqueles que começaram a fazê-la. Mas eu mesmo não sabia que poderia ser uma profissão.

Foi o seu irmão Bruno que percebeu o seu talento e deu um empurrão na carreira.
É verdade. Só entrei nesse meio porque, durante as férias, meu irmão mais velho me disse: "No lugar de ficar vagando na rua, vai ver se consegue algo na área da edição". Ele sentiu que eu tinha algo. Bruno foi ao mesmo tempo um irmão e um pai para mim, tenho até hoje sua foto na minha mesa de trabalho. Tive dois pais na minha vida. O verdadeiro era um homem obrigado a trabalhar tão duro que não tinha muito tempo para se ocupar do ensino de seus filhos, e para ele era ainda mais difícil porque conhecia mal o idioma. Meu irmão me ajudava nos deveres escolares e eu o seguia por todo o lado. E foi assim que entrei numa editora, eles se surpreenderam com a qualidade do meu desenho e me mantiveram lá por um ano e meio. Depois veio a guerra, a ocupação alemã, a fome em Paris. Os nazistas impunham um serviço obrigatório, que obrigava os jovens franceses, e mesmo pessoas de mais idade, a ir trabalhar nas fábricas alemãs. Para fugir disso, meu irmão foi se esconder numa fazenda na Bretanha. Como eu já não tinha quase o que comer em Paris, ele mandou que eu fosse para lá também. Foi assim que conheci a Bretanha, que se tornou a terra que me alimentou. Eu tinha 14 anos, e nessa idade temos muita fome.

Um de seus primeiros trabalhos foi como "repórter-ilustrador" no jornal France Dimanche. Você conta que uma vez chegou a desenhar por 36 horas ininterruptas. Como era esse trabalho?
Era uma profissão um pouco singular. France Dimanche era um jornal que hoje chamamos de "people" (revista de celebridades), e que por vezes produzia informações a partir de poucos elementos. Eu lhes servia, de alguma maneira, como fotógrafo. Quando se tratava de uma informação que não se podia fotografar, me mandavam desenhá-la. Era um tipo de repórter-fotógrafo. Era uma tarefa bastante dura, porque eles esperavam até o último minuto por uma informação interessante. O jornal fechava a edição na terça-feira. Na segunda-feira eu trabalhava o dia inteiro e a noite toda, e no dia seguinte eles mandavam buscar meus desenhos. Uma vez trabalhei 36 horas sem interrupção, sem dormir, só parando para comer um sanduíche. Mas era jovem, e quando se é jovem se pode fazer isso. Era muito bem pago, bem mais do que nos meus primeiros trabalhos, depois, na HQ. Mas não era uma profissão apaixonante. Eu fazia porque precisava ganhar minha vida, e isso me permitiu comprar meu primeiro carro, um Simca 5, que na Itália se chamava Topolino. Simca saiu da marca Fiat. O Simca 5 tinha cinco cavalos e rodava até 80km/h, exceto quando o vento era de frente (risos). Mas foi meu primeiro carro, aos 21 anos, e ficava feliz em poder passear nele com meus amigos, numa época em que não havia carro algum em Paris. Era o deserto total. Fui um privilegiado. Morava num bairro popular em Paris, no 11° distrito, na rua de Montreuil, em que não havia nenhum automóvel. Quando comprei meu carro e estacionei na frente de casa, todos os vizinhos desceram à rua para admirar (risos). Para eles era algo extraordinário. São lembranças que guardo, porque a Paris de hoje não tem mais nada a ver com a Paris daquele tempo.

Você prefere a Paris de outrora?
Ah, sim. Eu vivi num outro planeta, que nada tem a ver com o que conhecemos hoje. Evidentemente, as coisas progrediram suavemente para se chegar até aqui, e ainda não terminou. Novas mudanças virão. Mas quando volto no tempo das lembranças e penso no que conheci, no que vivi, a vida era muito diferente. Não tínhamos muito dinheiro, mas tive uma infância particularmente bela porque meus pais não tinham nenhum receio de ver seus filhos na rua. Com meus amigos, íamos vagar nos bosques do subúrbio onde morei antes de me mudar para Paris, a quinze quilômetros de distância da cidade. Hoje, Clichy-sous-Bois (o subúrbio) é reconhecido como um lugar perigoso, onde se queimam muitos carros. Mas naquela época era tranquilo, havia pequenas casas, as crianças brincavam na rua. Eu passava meus dias no bosque. Hoje, você não pode deixar uma criança passear assim.

Você sente uma certa melancolia?
Quando se conhece uma época como a que eu vivi, temos todos um sentimento de melancolia, sabemos que as coisas não podem voltar a ser como antes. O progresso está aí, a vida social mudou. Eu conheci uma vida social bastante difícil. Em 1936, me lembro das pessoas desfilando na rua com o punho cerrado para cima, cantando a Internacional e gritando: "Trabalho ou pão!". Hoje, não se reclama pela mesma coisa. Se quer trabalhar menos e ganhar mais, não é "trabalho ou pão". Era diferente, a vida era excessivamente dura. Meu pai era um bravo homem que tinha cinco filhos para criar. Meu irmão começou a trabalhar aos 12 anos. Hoje, quando vejo uma criança de 12 anos, penso: "Não é possível que meu irmão já trabalhava nessa idade". Eu fui beneficiado de um ano, porque foi instituída uma lei que sό autorizava o trabalho a partir dos 13 anos. Depois, se passou para 14 anos, 15, 16... para possibilitar às crianças um tempo escolar mais longo.

Em 1951, você conheceu René Goscinny, recém-chegado de Nova York. Você tinha 24 anos e, ele, 25. Uma cumplicidade instantânea se criou entre vocês. Como você mesmo disse: "Nós queríamos refazer o mundo com toda a nossa inconsciência e toda a audácia de nossa juventude".
Não queríamos refazer todo o mundo, mas ao menos o mundo da história em quadrinhos, porque era, sobretudo na França, um mundo muito pobre. Havia alguns grandes desenhistas, como um que conheci quando tinha 14 anos e de quem tenho um desenho original ali na parede, que se chamava Calvo (Edmond François, 1892-1958). Era um homem extraordinário, mas que tinha dificuldade em se manter, porque era muito mal pago. Mas havia muito poucos desenhistas, porque não era uma profissão reconhecida. E o nosso desejo era o de fazer uma história em quadrinhos um pouco menos óbvia. Mas não tínhamos a pretensão de fazer um humor que interessasse aos adultos. Queríamos, sobretudo, nos divertir. Fazer o humor "torta de creme", usado nas histórias em quadrinhos feitas para as crianças, não era engraçado. E foi assim, desenhamos para nós, para nos divertir, com o humor que tinha Goscinny e com o meu estilo de desenho grotesco, que não agradava a todos os editores. Se dizia do humor de Goscinny que era muito intelectual e, de mim, que meu desenho era demasiado grotesco. Obtivemos sucesso porque tivemos a responsabilidade de criar um novo jornal, o Pilote, em 1959. Do contrário, ninguém nunca teria aceito Astérix. C'est la vie.

Você definiu Goscinny como gênio do humor como roteirista, mas também na vida real. Ele era realmente engraçado na vida real?
Era realmente uma doença nele. Ele não podia contar algo sem enfeitar com coisas engraçadas. Muitas vezes, inclusive, contava coisas que havíamos vivido juntos, mas que eu não reconhecia, porque ele enfeitava tanto de uma forma engraçada que criava uma nova história. Era a sua natureza. Para ele, bastavam duas pessoas para que pudesse soltar seu humor. Ele nasceu assim, e não se muda a natureza das pessoas. Ele soube aproveitar isso muito bem, porque fez disso sua profissão. Mas, ao mesmo tempo, foi algo bastante duro para ele. Como se diz na França: "Comemos a nossa vaca raivosa juntos". Isso aproxima as pessoas.

Segundo você, o humor dele escondia uma extrema timidez, sobretudo com as mulheres.
Ele tinha um complexo. Era judeu de origem, e você sabe que a guerra, infelizmente, deixou rastros difíceis. Mesmo nos Estados Unidos ele sofreu, mas nunca falava disso. Ele se servia do humor para se comunicar com as pessoas. Mas com as mulheres era excessivamente tímido, e usava o humor para fazê-las rir, era algo mais forte do que ele. Mas nunca ia mais longe do que isso. É só ver que ele se casou aos 40 anos. Foi preciso trombar com uma mulher que o forçou um pouco... (risos).

Numa carta enviada de Nova York, em 1953, Goscinny escreveu: "Nós fazemos uma profissão de malucos".
Na época era uma verdadeira profissão de loucos. Hoje, se tornou uma profissão que proliferou em número de desenhistas, editores, talvez também graças ao sucesso de Astérix. Não fomos os primeiros, porque Hergé, com Tintin, já tinha números de venda extraordinários. Mas Hergé foi algo à parte. Quando entramos nessa profissão, não esperávamos chegar à sua altura. Fazíamos essa profissão pelo prazer, ganhávamos mal nossa vida. O autor não era reconhecido pelo editor, era o desenhista que recebia o prêmio e distribuía o que achava que deveria dar ao autor. O autor não tinha nem mesmo o seu nome inscrito numa história em quadrinhos. Para ver como as coisas evoluíram. Goscinny dizia que era uma profissão de malucos porque não havia nenhuma consideração pelo nosso trabalho. Mesmo se as pessoas percebiam o humor, mesmo se apreciavam no início, quantas vezes me perguntaram: "Mas qual é a sua verdadeira profissão?". Hoje, as pessoas sabem que a HQ é uma profissão, alguns a chamam inclusive de "a nona arte". Eu nunca me considerei como um artista, mas como um artesão. Eu tenho respeito pelo trabalho que fazia meu pai, que se tornou artesão quando se aposentou, aos 65 anos. Era um excelente ebanista. Aprendeu a fazer ótimos violões, que vendia a um comerciante de instrumentos musicais, que se chamava Paul Beuscher. Eu tive de fazer com que ele parasse de trabalhar aos 80 anos.

Você descobriu Laurel e Hardy (O Gordo e o Magro) em 1936. A famosa dupla americana de comediantes foi um elemento importante na sua cumplicidade com Goscinny. Por quê?
Nós dois admirávamos Laurel e Hardy, que para mim eram deuses vivos. Éramos como duas crianças a contar um para o outro as piadas dos filmes que conhecemos - ele nos EUA e na Argentina e, eu, na França. Isso nos aproximou ainda mais. Não é preciso muita coisa para criar uma cumplicidade num trabalho que não tinha nada a ver com o que faziam Laurel e Hardy. Mas tínhamos uma admiração por eles. Poderíamos tê-la tido por Charles Chaplin, conhecíamos a grande arte de Chaplin. Mas, para nós, em Laurel e Hardy havia esse diálogo entre os dois personagens, enquanto que Chaplin era solitário. Aliás, é curioso, porque quando criamos Astérix ele deveria ser um personagem solitário. Por fim, eles se viram a dois. É a história de Laurel e Hardy. Sem querer, fizemos os nossos Laurel e Hardy na história em quadrinhos.

Vocês, inclusive, na vida pessoal adotaram de Laurel e Hardy a expressão "Well, well, alright, hmmm, hmmm" como um tipo de sinal secreto.
Foi uma expressão que notamos nos papéis deles. Um dia escutei a versão original, por atores que falavam um inglês normal, e era menos engraçado. A sorte foi que na França eles dublaram utilizando o sotaque americano. A forma como eles falavam nos divertia. Era o nosso "toque de chamada". Quando nos escrevíamos, sempre terminávamos a carta por "aaall-right". Verdadeiras crianças (risos).

Em 1976, Goscinny não pôde participar da turnê francesa de lançamento do filme Os Doze Trabalhos de Astérix, mas escreveu uma sensível carta, que voce lia antes de cada primeira projeção. No texto, ele dizia que vocês eram "intercambiáveis". Essa carta sempre o tocou muito.
Nós produzimos um filme de animação e Dargaud (o editor francês, Georges Dargaud) quis exibí-lo em todos os grandes cinemas das grandes cidades da França. Dargaud, que entretanto era bastante avaro no plano da comunicação, alugou um jet Falcon e fizemos todas as grande cidades, Marseille, Bordeaux, etc. Eu deveria ler essa carta de Goscinny, pela qual ele se fazia perdoar por sua ausência, por causa do câncer de sua mulher - acabou que foi ele que partiu bem antes dela. É verdade que tudo isso foi tocante, porque era alguém com muito sentimento, que ele escondia atrás de seu humor. Ele me considerava um pouco como seu irmão menor. Quando eu fazia alguma besteira, ele dizia: "Eu sempre te disse para nunca sair sem mim!" (risos). Era a sua frase.

» Clique aqui e leia a continuação da entrevista.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Fernando Eichenberg vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela