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Segunda, 26 de outubro de 2009, 09h26 Atualizada às 14h54

Parte II da entrevista com Uderzo

Fernando Eichenberg
De Paris

Vocês criaram Astérix e Obélix em clima de pânico, no estúdio em que você morava em Bobigny, com a ajuda de muito pastis e cigarros, em um quarto de hora.
Nós nos lembramos de tudo isso, mas não da data exata. Sabemos que fazia muito calor, era em pleno verão, havia muito sol. Eu tinha esse pequeno apartamento numa habitação popular de Bobigny. Nos reunimos lá porque ele ainda não era casado, morava com a sua mãe, e para trabalhar era mais fácil na minha casa. Estávamos um pouco em pânico, porque o jornal do qual éramos responsáveis deveria sair em 29 de outubro de 1959 e nós havíamos começado com uma ideia que já havia sido usada por alguém, então precisamos recomeçar do zero e tentar achar algo que pudesse convir. Deveria ser algo que relatasse um pouco a cultura francesa. Foi assim que começamos, no plano histórico, a falar dos gauleses. Nos parecia que os gauleses jamais haviam sido utilizados com humor. Pensamos em pegar o contrapé da história e usar o humor. Se mostrássemos os gauleses derrotados pelos romanos não seria engraçado. Tudo partiu daí. Era preciso fazer rápido, por causa dos prazos do jornal. Meu desenho ainda não estava bem formatado. Ele tinha o essencial do texto, mas não todo o seu humor. A construção da aldeia ainda não estava bem feita, foi sendo aperfeiçoada à medida da progressão dos álbuns. Quando revejo meus primeiros desenhos, fico horrorizado. Gostaria de refazer os primeiros álbuns, mas sempre me disseram o contrário. Quando encontro pessoas que leram os álbuns na época, aos dez anos, e que hoje estão com 60 anos, elas me dizem que preferem guardar a imagem primeira do que conheceram. Se mudar, irei desfazer suas recordações. Portanto, não poderei redesenhar os primeiros álbuns. Azar o meu (risos).

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Goscinny queria Astérix como anti-herói solitário. Você lhe impôs Obélix e, mais tarde, Idéfix.
São coincidências. Cada um dava suas ideias. Eu havia entendido mal o que ele queria. Por que ele queria um anti-herói? Porque havíamos trabalhado na demanda de diferentes jornais da época, que desejavam todos um herói à imagem de Tintin, que fosse aceito pelas crianças e que se parecesse com elas. Por isso eu tinha dificuldade em encontrar trabalho, pois quando mostrava um personagem com um nariz enorme, era automaticamente recusado (risos). No espírito de Goscinny, como no meu, queríamos fazer um anti-herói, alguém não obrigatoriamente bonito, mas solitário. Não queríamos entrar no estilo de Hergé, que havia criado um personagem principal, Tintin, e um personagem secundário, o capitão Haddock, com um cachorro que segue atrás. Quisemos sair disso. Ele começou a escrever o primeiro roteiro e eu a desenhar o primeiro personagem, à imagem de como os franceses vêem Vercingétorix (líder gaulês, 72-46 A.C.), grande e forte. Goscinny viu e disse: "Não é isso, ele é muito atleta, prefiro um personagem pequenino, magrinho, não obrigatoriamente inteligente, mas esperto". Recomecei e desenhei o personagem mais ou menos como Astérix é hoje.

E como surgiu Obélix?
Era preciso colocar personagens na aldeia. Goscinny me disse: "Você instala a aldeia onde quiser, para mim o essencial é que seja perto do mar". A única região que eu conhecia com mar era a Bretanha, e decidi localizá-la lá. A Bretanha é bastante conhecida pelos menires, os dólmens. E fiz um personagem que adorava os menires, portava um nas costas. Goscinny disse: "Olha só, esse personagem pode ser mesmo engraçado". Ele o utilizou no primeiro Astérix, mas não de forma completa. Depois, teve a ideia de que Obélix fosse forte porque caiu no caldeirão do druida, e que seria algo permanente, não poderia mais tomar a poção mágica. Tudo acabou sendo feito assim, pouco a pouco, não em bloco, mas se acrescentando elementos. Cada um dava sua ideia.

E depois veio Idéfix.
Para o cãozinho foi igual. Nunca perguntei a Goscinny porque ele me pediu para desenhar um pequeno cão na porta de uma salsicharia. Porque depois o cachorro desaparece. E foi aí que eu lhe disse: "Quero fazer uma piada, fazer com que ninguém veja o cachorro de tão pequeno que ele é, e assim ele segue os personagens...". E é verdade que o cão teve sucesso, os leitores queriam revê-lo, saber seu nome. Fizemos um concurso junto aos leitores para a escolha do nome, recebemos milhares de cartas, e cinco delas sugeriram Idéfix.

Você considera todos os personagens como seus filhos, mas reconheceu uma fraqueza por Obélix. Ele é charmoso, não idiota como pode parecer, humano, tímido, ciumento. Ele tem todas as qualidades e defeitos de um ser humano.
Era também o que dizia Goscinny, que havia entendido a importância desse personagem. Era o que chamamos de um faire-valoir, aquele que, como na dupla Laurel e Hardy, não compreende tudo. Há aquele que dirige a história e, o outro, que a segue sem a compreender, mas que mesmo assim ajuda em sua concretização. Esse personagem, que é um pouco ingênuo, logo conquistou a simpatia do público, sobretudo das crianças. E a nossa também. Eu gosto muito de desenhar Obélix, porque ele tem sempre uma atitude um pouco particular, enquanto Astérix é alguém sério. Quando todo o mundo na aldeia briga com golpes de peixes, há apenas dois personagens que não entram na disputa, o druida e Astérix. Eles ficam observando seus companheiros e se dizendo: "Francamente, mentalmente eles são baixos". Fazia um equilíbrio entre os dois personagens, que hoje não podem mais ser separados. Se Obélix desaparecesse seria um escândalo, o leitor não me perdoaria.

O leitor influenciava o trabalho de vocês?
O leitor solicita coisas. Foi o caso, por exemplo, da piada dos piratas, que criamos a partir de uma série realista de Pilote, que se chamava O Demônio do Caribe, feita por amigos. Por meio do jornal, tínhamos uma relação com o leitor bastante viva e profunda. E muito rápida. Como era um semanário, e como fazíamos o trabalho com pouco adianto, tínhamos quase instantaneamente a reação dos leitores. Fomos praticamente obrigados a colocar sempre nas histórias o banquete final, as brigas com os peixes como porretes e, sobretudo, os piratas, que receavam por seu barco. Eles se tornaram um gimmick, parte integrante das aventuras de Astérix.

Você critica o espírito cartesiano francês de sempre querer dar uma explicação a tudo, sobretudo quando se trata de um sucesso. Já se creditou o sucesso de Astérix e Obélix ao fato de a dupla de gauleses cutucar o lado chauvinista do francês e mesmo de ser inspirada na figura do general De Gaulle. Por que você considera "inútil" perguntar sobre as razões do sucesso de Astérix?
Porque, tanto Goscinny como eu, nunca conseguimos responder a essa questão. Nós não esperávamos de maneira alguma tal sucesso. Mesmo o editor, Dargaud, não imaginava algo assim. Um ano antes de Astérix, havíamos criado um outro personagem, que se chamava Oumpah-Pah, a história de um índio. O humor de Goscinny já se exprimia de maneira bastante forte nesse momento. Mas esse personagem não teve muito sucesso. E o fizemos com a mesma vontade com que fizemos Astérix. Por que Astérix fez esse sucesso repentino? É o segredo da poção mágica (risos).

Segundo você, o editor Georges Dargaud pouco fez pelo sucesso de Astérix. O que funcionou teria sido, sobretudo, o boca-a-boca, ou, como disse certa vez, o "boca de druida à druida". Nesse aspecto, Astérix, para você, seria um pouco como Harry Potter, cuja criadora, J.K. Rowling, foi surpreendida pelo repentino sucesso.
O sucesso não vem obrigatoriamente de uma ofensiva publicitária ou promocional. Isso pode ajudar para não importa que produto, mas dura por um tempo. Não é algo perpétuo. O boca-a-boca é formidável. As pessoas falam porque descobriram algo que lhes diverte, lhes dá prazer. E vai de boca em boca. E de um álbum a outro tivemos uma progressão de venda extraordinária. Dargaud nunca fez promoção. Ele não tinham nem a intenção de aumentar a tiragem, mesmo que já estivéssemos a 100 mil exemplares, para ele já era enorme. Eu precisei forçar a mão dele. Ameacei romper o contrato, e ele aumentou a tiragem para 200 mil exemplares, todos vendidos, depois subiu para 300 mil. O primeiro álbum foi publicado em 1961. Em 1966, o L'Express (semanário de informação francês) saiu com a capa: "O fenômeno Astérix".

Astérix conquistou a categoria de mito, estudado por sociólogos, historiadores, semiólogos...
Eu acabo de receber um livro que não consegui compreender (Tu sais ce qu'il te dit, Môssieu Astérix? ' Você sabe o que ele te diz, Môssieu Astérix?, Bernard Lavillate, ed. Inlibrovéritas). Não sei o que dizer ao autor, porque não entendi nada. Ele mistura Sartre com a psicologia para interpretar Astérix. Há pessoas que pegam Astérix como testemunha para afirmar certos discursos e valores que não aparecem para os autores nem para os leitores, exceto para aqueles que desejam absolutamente provar certas coisas, as quais eles são os únicos a compreender.

Numa Europa cada vez mais unificada e em meio à crescente globalização, Astérix aparece para muitos como um contraponto, um símbolo de resistência à estandardização e à invasão preponderante de certas culturas. Você concorda?
Efetivamente, nós nos questionamos sobre isso. Nos veio um pouco ao espírito isso da revanche do pequeno contra o grande, e todos temos uma revanche contra algo que nos ultrapassa e nos destrói, sejam políticos que decidem leis nem sempre bem aceitas, mas a que somos obrigados de nos sujeitar. Penso que por isso houve uma ressonância em outros países, porque é parecido, todos são atingidos por esse fenômeno de ser consciente de estar submetido a uma força contra a qual nada se pode fazer. Talvez Astérix tenha servido como um tipo de símbolo ao mostrar que ele, pequeno, podia fazer algo. É um pouco como David contra Golias, não se reinventa a história. E utilizamos um período histórico muito importante, a invasão da Gália pelos exércitos romanos, que eram extremamente fortes, a grande potência mundial da época. Nós cutucamos a história dizendo: "Eles ocuparam o mundo inteiro, exceto uma pequena aldeia...". É isso que fez com que a maionese desse certo. Mas nós não éramos conscientes disso.

Astérix resiste em sua aldeia, mas com o espírito aberto. Ele viaja pelo mundo.
Eles não tem a pretensão de reconquistar a Gália, sό o que querem é que os deixem em paz. E quando alguém lhes vem pedir ajuda, mesmo o druida diz: "Quero ajudar, mas atenção, só se deve usar a poção mágica em caso de real necessidade, não para atacar outras pessoas". Porque se sabe que na história as tribos gaulesas lutavam entre si. Aliás, o espírito francês se manteve assim. Há aquela frase do general De Gaulle, sobre na França haver tantos queijos quanto o número de dias no ano ("Um país capaz de dar ao mundo trezentos queijos não pode morrer, dizia o britânico Winston Churchil durante a Segunda Guerra Mundia; De Gaulle respondeu: "Não se pode governar um país que possui 365 variedades de queijos"). O que prova que há sempre esse espírito um pouco gaulês de querer superar aquele que está ao lado. Não há essa unidade que se vê em outros países. Astérix tocava aquelas pessoas que desejavam reagir. Sei que se pudesse reagir contra certas leis que me irritam, eu o faria, mas não possuo os meios. Infelizmente, não tenho a poção mágica (risos).

Certa vez, foi feita uma sondagem entre políticos franceses para saber se Astérix era de direita, de esquerda ou de outra tendência política e ideológica. Deu um pouco de tudo: que era de direita, de esquerda, ecologista, machista.
Nunca quisemos fazer política, por uma simples razão: sabemos que é muito perigoso dar ideias políticas às crianças. Penso que se deve deixar à criança a sua liberdade de espírito. Ela deve estudar a história, claro, mas não se deve inculcar nela esse ou aquele partido político. A criança deve fazer sua vida, e é ela que compreenderá mais tarde que partido escolher. Nós sempre quisemos ser apolíticos. E não concedo a ninguém o direito de dizer de que partido somos. Mesmo que tenhamos nossas próprias ideias, não as colocamos nas nossas aventuras.

Vocês nunca quiseram infiltrar ideias políticas nas histórias de Astérix, mas divertiram bastante os adultos com críticas de sociedade, da moral e dos costumes.
Mas isso não é a política da politicagem, é a vida de todo o dia, porque, evidentemente, nos servimos do cotidiano dos franceses para adaptá-lo às aventuras gaulesas. Se tivéssemos feito verdadeiras aventuras gaulesas, seria muito menos engraçado. Os gauleses eram guerreiros sanguinários. Diz-se que quando faziam prisioneiros, lhes cortavam a cabeça e penduravam em postes fincados em suas cabanas, para mostrar que eram fortes. Era dramático. Isso era o que contavam os romanos, que queriam mostrar que os gauleses eram bárbaros. Descobrimos hoje muitas coisas que demonstram o contrário, que os gauleses possuíam uma certa civilização. Mesmo se havia divergências entre as tribos, eles tinham uma forma de viver bastante realista, não estavam todo o tempo brigando entre si. Eles inventaram uma máquina agrária extraordinária, um tipo de ceifadeira, puxada por animais, usada para cortar o trigo mais facilmente. Como os gauleses não registravam por escrito a sua forma de viver, foram outros que deram as suas versões. Júlio César queria mostrar ao Senado romano que havia vencido tribos de selvagens, e que havia uma glória por ele ter levado uma tipo de civilização romana. O que, aliás, foi feito, a Gália se romanizou. Mas nós somos extremamente orgulhosos por saber que foram os gauleses que inventaram o barril! (risos). Eles não eram seres brutos, simplesmente com um sabre e uma espada para bater na cabeça das pessoas. Eles tinham uma forma de cultura, que infelizmente não se propagou, porque só os druidas tinham a distinção intelectual, o gaulês simples não escrevia e não podia transmitir o que tinha em sua cabeça.

Na história em quadrinhos, você critica a invasão das séries americanas e dos mangás japoneses. Você, inclusive, fez uma menção a isso em seu último álbum, brincadeira que nem todos entenderam.
No último álbum que fiz, tive essa ideia, porque fiquei irritado ao ver como os mangás invadiam o mercado francês. Pessoalmente, não me incomodou, mas atrapalhou enormemente meus colegas, que hoje têm dificuldade em vender seus produtos. Porque o mangá absorve, creio, 40% do mercado de história em quadrinhos na França, o que é enorme. Eu gostaria que o mercado francês pegasse 40% do mercado japonês, mas não é o caso. É o contrário, pois conheço alguns colegas que se dizem intelectualmente superiores aos outros e que vão ao Japão para aprender a fazer mangás. E são pessoas talentosas. Então, no meu álbum coloquei personagens que vêm de outro planeta, um deles mostra o sentimento de ser um pouco americano e, o outro, japonês. Os críticos não entenderam isso, escreveram coisas desagradáveis, dizendo: "Como ele pode se permitir misturar na história galo-romana foguetes interespaciais. Eu lhes respondi: "Por que OVNIs não poderiam ter existido na época galo-romana?". Nós não somos o umbigo do universo. Foi uma desculpa que usei para poder falar do protecionismo.

Seu pai teve um sério desentendimento com os irmãos dele no início dos anos 1920, o que provocou a partida dele e de sua mãe para a França. Ao longo de sua vida, você enfrentou diferentes processos na Justiça e, hoje, talvez viva o mais doloroso deles, a ação judicial que opõe você e sua filha única Sylvie, contrária ao novo controle acionário majoritário das edições Albert-René pelo grupo Hachette, uma decisão sua e de Anne Goscinny (filha e herdeira de René Goscinny). Como você se sente com isso?
Infelizmente, há hoje esse problema sabido de todos, mas do qual não quero falar, se você me permitir. Espero que um dia tudo seja resolvido. Pode-se esperar tudo na vida, mesmo para alguém de idade como eu, para quem o tempo passa muito rápido. Mas não quero falar disso. É algo muito difícil para eu.

Com a morte repentina de René Goscinny, em 5 de novembro de 1977, foi decretada pela crítica em geral a morte do "pai de Astérix" e também a do próprio personagem. Você sofreu por ter sido ignorado naquele momento?
O autor estava morto, Astérix estava morto, não se falava do desenhista, então significava que ele estava morto também. Isso foi muito duro para eu suportar. Vivi mal a morte do meu amigo, que aconteceu de uma forma brutal, ninguém esperava, nem mesmo ele. Levei muito tempo para assimilar isso. É verdade que, para mim, Astérix estava morto. Mas passei dois anos escutando as pessoas dizendo que aquele que retomasse Astérix fracassaria, que seria impossível depois de Goscinny. Ninguém falava de mim, eu não existia. Meu orgulho reagiu de uma forma completamente extravagante. Já que era assim, decidi que não iria somente eu mesmo escrever o roteiro de um novo álbum, mas também eu mesmo iria editá-lo, algo insensato. Mas fiz e não me arrependo de tê-lo feito, porque deu certo. Obrigado à imprensa que me esqueceu, obrigado àqueles que negaram o fato de que eu pudesse um dia fazer algo. Ainda hoje há críticas duras, mas o público não segue os críticos, isso que é bom.

Você sempre disse que Astérix desapareceria depois da morte de seus dois criadores. Mas, hoje, mudou de ideia, e deseja que a aventura continue quando não estiver mais neste mundo. Por quê?
Mudei de ideia por várias razões, que estão relacionadas, justamente, a esse problema que vivo atualmente (o processo judicial entre ele e sua filha). Quis mudar as regras. E depois me perguntei: "Por que um autor desejaria que um personagem morresse com ele?". É um tipo de egoísmo. No final das contas, se os leitores ainda demandam, então que seja feito por outro, e caberá a esse outro provar que o sucesso persiste. É uma aposta no futuro. Aquele que assumir terá um trabalho considerável, para não desanimar o leitor. Eu não posso proibir isso, assim como fizeram todos os meus colegas - como Franquin com Gaston Lagaffe ou Maurice com Lucky Luke -, que permitiram que se desse continuidade aos seus personagens. Apenas um recusou, Hergé. Mas se trata de egoísmo puro e simples. Quando não estivermos mais aqui, não importa. Não sei se poderemos ver algo lá do alto do céu.

Você tem medo da morte?
Sou como todo o mundo. Não tenho medo da morte, mas medo de não mais viver. Estou habituado a isso, do fato que perdi todos os meus companheiros de viagem. A maioria desses que você vê na parede (aponta para os quadros com fotos e/ou desenhos de autores de HQ) partiu. Eram pessoas da minha geração. Nos conhecíamos enormemente, fazíamos um tipo de franco-maçonaria. Éramos desconsiderados externamente, tentávamos nos aproximar, belgas como franceses. Era uma época que não existe mais. É a evolução da vida, as coisas são tão diferentes hoje. Não reconheço mais essa profissão. Criei minha empresa há 30 anos, não tive mais vivência com editores externos, não sei mais como funciona.

Por causa de uma malformação, você nasceu com seis dedos em cada mão, o que foi logo reparado por uma cirurgia. Mas você tem problemas para desenhar com a mão direita.
Operei as duas mãos (mostra as cicatrizes). Mas tenho esse outro problema, porque tenho 67 anos de desenho, com uma mão que certamente não foi feita para desenhar. Como me disse um osteopata: "Você é talhado como um lenhador e quis fazer um trabalho de ourives!". É verdade que minha mão não era de todo feita para esse tipo de trabalho. Eu forcei para poder desenhar o traço que desejava, e com isso minha mão se tornou mais indócil, mais difícil. Mas continuo a desenhar, e sempre da mesma maneira. Como não posso mais desenhar com tinta preta, com pincel, como fazia antes, delego esse trabalho a alguém. E para que ele entenda bem meu desenho, sou obrigado a fazer um desenho muito limpo e claro. Se faço um rascunho com três traços no mesmo lugar, ele não saberá qual deles utilizar. Portanto, sou obrigado a fazer um desenho à lápis muito preciso.

Segundo você, a única verdadeira revolução na reprodução do desenho, em 30 anos, foi o surgimento do scanner.
O scanner melhorou sobretudo para as cores. É prodigioso. Isso me ultrapassa, porque não saberia como fazê-lo. Já tenho dificuldades para enviar um email.

Você ainda acompanha a HQ?
Um pouco, mas não muito. Por razões práticas. Eu me digo que se um dia ler uma história em quadrinhos, reter uma ideia, e que eu mesmo me esqueça depois de que essa ideia tive dela e a projete numa das aventuras de Astérix, isso pode ser muito grave. Para evitar ser influenciado, leio pouco. Mas leio algumas, como Titeuf, personagem criado por Zep, um jovem de muito talento, reconhecido como alguém que trouxe algo novo. Há ainda outras séries e autores de talento, mas li tantas histórias em quadrinhos na minha vida...

Quais são os seus álbuns preferidos de Astérix e por quê?
Já disse que talvez tenha preferido mais um álbum do que outro, embora goste de todos, sobretudo dos álbuns escritos por Goscinny. Mas há um que me divertiu muito, que é Astérix Entre os Bretões, porque Goscinny transpôs o vocabulário inglês em francês, e achei isso extraordinário. Foi algo muito engraçado e muito inteligente, ninguém havia tido essa ideia. Tenho um amor especial por esse álbum. Não é em relação ao meu trabalho, mas ao de Goscinny. Senão, não tenho nenhum arrependimento em relação ao que fiz, amo todos os meus álbuns, os meus filhos, mesmo aqueles que fiz sozinho.

O que você pode dizer do próximo, que será publicado em outubro, em homenagem aos 50 anos de Astérix?
Não há muito o quê dizer, porque o próximo será um álbum bastante particular, o Livro de Ouro, do fato de seu 50° aniversário. Será um álbum diferente, mas no qual conto ainda assim histórias. Não será uma nova aventura de Astérix, com um começo e fim, mas uma sucessão de coisas que marcam o histórico do personagem.

Você se arrepende de algo em sua vida?
Não. Teria dificuldade em me arrepender do que quer que seja. Penso ter bem-sucedido a minha vida. Minha vida profissional, minha vida familiar - à parte essa "pequena coisa" (o processo jurídico movido por sua filha). Vou festejar este ano os 56 anos de casamento com minha esposa, o que revela uma vida bem-sucedida e tanto. Supreendemos muita gente quando falamos disso. Um dia recebi uma medalha de Comandante das Artes e das Letras, que me foi transmitida pelo então ministro da Cultura francês, Jacques Aillagon, junto com um diretor e um ator de cinema. Todos fizeram seu discurso, eu fui o último. Não sabia que teria de fazer um discurso. Havia festejado 50 anos de casamento com a minha mulher, e então disse: "É um ano extraordinário para mim, não apenas recebo uma distinção muito importante, mas, além disso, festejei as Bodas de Ouro com minha esposa". Quando disse isso houve gritos da audiência, repleta de gente do cinema. Nunca tive tanto sentimento de simpatia por parte das pessoas do cinema como nesse momento (risos).

» Clique aqui e leia a primeira parte da entrevista.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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