
Atualizada às 11h58 Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)
Escrevo de uma lan house em Botucatu. Participo do programa Viagem Literária, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Durante uma semana me encontrarei com professores, alunos e pessoas comuns nas cidades de Macatuba, Pederneiras, Cerqueira César, Cerquilho e na referida Botucatu. Nessa etapa do programa, outros 55 municípios estarão recebendo escritores com o mesmo objetivo: conversar sobre literatura, o ato de ler e escrever, a importância dos livros.
Botucatu é uma cidade bonita. A antiga fazenda de café, Lageado, onde hoje funciona a faculdade de agronomia e laboratórios de pesquisa da UNESP, lembra o campus da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Uma floresta de pinheiros e eucaliptos, um riacho correndo, uma topografia acidentada com subidas e descidas. E muito silêncio, cortado às vezes pelas motos que passam velozes como no restante das cidades brasileiras.
Botucatu já foi última parada de trem, um entreposto de onde partiam exploradores de terras, sertão adentro, num tempo em que São Paulo era quase todo coberto de florestas. É difícil imaginar nos dias de hoje que as pessoas se referiam aos interiores paulistanos, tudo o que o que não ficava no litoral, como sertão. A palavra ganhou outro significado, traz sempre a lembrança de terras áridas, desérticas ou cobertas de caatinga; ou seja, remete à paisagem nordestina.

A literatura contribuiu para a nova configuração desse imaginário, sobretudo Os Sertões de Euclides da Cunha, Vidas Secas de Graciliano Ramos, O Quinze de Rachel de Queiroz. Também o cinema do ciclo do cangaço e do próprio Glauber Rocha. Acho que falarei desse poder de transformação da arte, às pessoas que irão me escutar.
Essas viagens representam muito para os escritores e as pessoas que terão oportunidade de ouvi-los e dialogar com eles. Ela lembra o trabalho de catequese dos padres jesuítas. Uma boa catequese, diga-se. Ninguém vai pregar doutrinas religiosas, afirmar dogmas. Os escritores falarão da importância transformadora dos livros em suas vidas. Num país com cerca de 50 milhões de analfabetos, em que importantes políticos não se constrangem em afirmar que não lêem e não gostam de ler, é preciso dar voz aos que acreditam na educação como o único instrumento possível de reverter a desigualdade social e a violência.
As universidades americanas convidam escritores de todas as partes do planeta para residirem nos seus campus e conviverem com os alunos, trocando experiências. É uma forma de tornar fronteiras permeáveis, mostrando o que se produz fora do lugar em que eles vivem e estudam. A viagem literária também possibilita um intercâmbio cultural, a chance de se falar de vários pedaços de Brasil, do que se pensa e faz além do estado mais rico do nosso país. E também nos oferece a chance de desvendar territórios novos, conhecer entranhas de um Brasil que se mostra por lentes que não são as dos jornais e noticiários da televisão.
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