
Amilcar Bettega
De Paris
Sophie olha para a mesa alguns metros adiante. Um jovem casal fuma em silêncio. Não, a garota fuma, e os dois estão em silêncio.
Mas ela, a garota, parece nervosa e prestes a dizer alguma coisa importante. Pelo menos ela tem essa expressão (uma postura?, se pergunta Sophie) um pouco confusa de quem se prepara a enfrentar um momento decisivo, de quem tem que puxar as palavras um pouco a contragosto, arrancá-las à força como se disso dependesse a continuação de sua vida.
Sophie, na expectativa do que ela virá a dizer, surpreende-se no esforço quase físico para se aproximar da mesa do casal (seu dorso não encosta no espaladar da cadeira, o tronco está inclinado para a frente e a mesa à qual está sentada é visivelmente um obstáculo a ser transposto), que continua em silêncio.
Mas Sophie sabe que assim que ela (a moça) começar a falar (e ela sabe que ela vai começar a falar), suas palavras jamais lhe chegarão, a ela, Sophie, que ainda assim, sem nada apreender do que a moça dirá, vai se sentir aliviada, vai distender os músculos de todo o corpo, começando pelo pescoço, os ombros, as costas, braços, pernas, vai se sentir ligeiramente mais pesada e, quase sem perceber, vai outra vez recostar-se na cadeira.
É nesse instante que ela perceberá o movimento insistente do pé de Martín (ele tem as pernas cruzadas) balançando tão próximo a ela que quase roça a sua coxa.
Num primeiro momento, aquilo a irrita. Depois é como se tudo à sua volta recebesse de uma só vez uma grande carga de materialidade, o ar enfumaçado do café, os ruídos da louça que os garçons depositam no balcão, os pedidos lançados à cozinha, as conversas paralelas nas mesas, as risadas, o cheiro do café con leche, o calor do ambiente fechado, a fumaça do cigarro cruzando-lhe as narinas, roçando-lhe os lábios, enredando-se numa confusão de odores e espessuras sobre a xícara de café vazia à sua frente, tudo se torna excessivamente corpóreo, tudo tem um peso, uma massa, uma concretude quase obscena, uma existência real.
A fumaça espalha-se no tampo da mesa, escorre pelo bordo arredondado do mármore e derrama-se por sobre as pernas de Martín, sentado à sua frente. Ele está quase reclinado na cadeira, as pernas cruzadas ao lado da mesa, o cotovelo esquerdo apoiado sobre o tampo de mármore, a mão apoiando a cabeça que mantém uma leve inclinação em relação ao tronco. E todo o corpo formando uma linha contínua que desce até o pé que balança num ritmo constante junto à cadeira de Sophie, quase roçando a sua coxa.
Nesse momento (passado o instante da irritação), Sophie olha para Martín e sorri. Um pouco mais adiante, está a mesa do jovem casal que continua em silêncio. E ao fundo, uma parede espelhada multiplica o espaço confuso e enfumaçado do café, dando-lhe uma profundidade infinita.
Terra Magazine