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Quarta, 28 de outubro de 2009, 13h56

Palmeiras teme virar "sombra", avalia psicóloga esportiva

Diego Salmen

Maroto, moleque, arte, mágico, maravilha. Quando se pensa em futebol no Brasil, são muitas as imagens refletidas nas quatro linhas. Nem mesmo a enorme profissionalização do esporte nas úlltimas décadas conseguiu desassociar essas características de um estilo de jogo tipicamente brasileiro.

Mas nem só de passes precisos, dribles mirabolantes, disciplina tática e boas finalizações vive o futebol - seja em São Paulo, Manaus, Pequim ou Dudinka. Pouco valorizado pelas equipes técnicas espalhadas País afora, o preparo psicológico dos atletas também é fundamental para o sucesso de uma equipe.

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Um exemplo disso pode ser observado na ponta da tabela do Campeonato Brasileiro. O Palmeiras, que vem liderando o torneio quase desde o seu início, conquistou apenas um ponto nas quatro últimas rodadas. É o pior desempenho entre todos os participantes no período.

Apesar disso, o clube alviverde segue à frente na tabela, com 54 pontos. Logo atrás, a disputa é intensa: Atlético-MG na segunda colocação com 53 pontos, seguido por Internacional e São Paulo, com 52 pontos cada.

"Ser campeão não é algo que se ensina", afirma Katia Rubio, professora da Faculdade de Educação Física da USP e presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. "A condição de campeão é conquistada ao longo da vida", diz.

Em entrevista a Terra Magazine, a especialista em psicologia esportiva avalia que os jogadores do Palmeiras temem viver no que ela chama de "sombra social".

- Quando o atleta começa a entrar em curva descendente, é como se fosse um avião em queda livre. Para mudar de rumo, fica muito difícil porque você precisa de um fato novo para quebrar esse processo de decadência. E às vezes esse fato novo demora a acontecer. E aí você instala a cultura do derrotado.

Confira a íntegra da entrevista com Katia Rubio, pós-doutora em Psicologia Social pela Universidade de Barcelona:

Terra Magazine - O Palmeiras lidera o campeonato, tem um bom elenco, mas não avançou nas últimas rodadas. Há algum fator psicológico que possa influir nisso?
Katia Rubio -
Uma condição básica do esporte, e que todos os atletas de ponta dizem, é que o difícil não é chegar em primeiro; é se manter. O Palmeiras começou e ficou na frente num momento em que o privilégio talvez fosse de quem estava atrás. Não houve uma alternância na liderança que pudesse dar aos atletas do Palmeiras a chance de relaxar quando eles de fato poderiam relaxar ou tensionar. O momento de tensão do campeonato não é no começo. É no final. Exige mais psicológica e fisicamente também, porque já está todo mundo esgotado, no limite. É quando as fragilidades aparecem, elas não aparecem quando está tudo tranquilo. Elas aparecem no momento da tensão.

Sim...
Então, o que está acontecendo? Você tem o campeonato se aproximando do final, um time esgotado pela cobrança do torcedor, da imprensa, pela não manutenção da liderança conquistada. Há um volume de tensão que os atletas não haviam experimentado ainda ao longo do campeonato. No caso do Palmeiras, especificamente, você tem o Muricy, que é um técnico campeão, mas que também vive uma situação singular na vida dele: à frente do São Paulo, ele conquistava a liderança, quase nunca o São Paulo saía na frente. Era um time de chegada. Todo mundo temia o São Paulo porque sabia que era um time que vinha e estava pronto para o momento do bote. Então o Muricy está experimentando um papel diferente, que é sair na frente e ter que se manter na frente.

Se pegarmos os times que vem subindo na tabela ao longo do campeonato, é possível dizer que essa ascensão ajuda os jogadores, do ponto de vista psicológico, a continuarem vencendo?
Sem dúvida. Porque você tem essa condição da conquista. Sair de trás e se ver galgando postos... O esporte é isso: a busca pela primeira colocação. Agora, só há uma primeira colocação. Mas para quem está no primeiro lugar, a luta para se manter é uma luta completamente diferente da luta para chegar. Nos demais times, há uma disposição de ir para o ataque, no sentido de buscar aquilo que todo time deseja que é estar em primeiro lugar.

Existe a pressão, mas os jogadores do Palmeiras são profissionais, alguém pode argumentar. O profissionalismo do atleta não deveria torná-lo apto a lidar com isso?
Não necessariamente. Ser campeão não é algo que se ensina. A condição de campeão é conquistada ao longo da vida. É um papel que o sujeito desenvolve. Não concordo com aqueles que dizem que falta profissionalismo, isso não tem relação com o que está acontecendo agora. É uma situação, que eu vou relativizar, que não diz respeito ao pavor da derrota, mas à dificuldade de se lidar com uma situação que todo atleta odeia: enfrentar a derrota. No esporte, a derrota não implica apenas a não-vitória. Ela implica tudo aquilo que nós chamamos de sombra social.

Especificamente, o que é isso?
Numa sociedade onde você tem a valorização do vencedor e a busca pelas primeiras posições, o segundo e o terceiro colocados vivem sempre à sombra daquilo que é o desejo de todo mundo - a vitória. E ninguém quer isso. Qual é a principal ofensa na cultura norte-americana?

Qual?
Loser (perdedor, derrotado). É para aquele cara que foi fraco, medroso, derrotado no sentindo mais amplo da palavra: que é aquele cara que não só perdeu, mas também não lutou. Isso no esporte ganha uma dimensão muito maior. O campeonato dura meses, mas quando há uma situação de derrota, de duas ou três partidas, imediatamente essa sombra da derrota começa a pairar sobre o grupo. E aí ele não tem só que lutar contra esse estigma, mas também manter o foco no torneio.

Não pode haver uma atitude de displicência em relação à liderança? O time está na frente e fica de "salto alto"?
Essa relaxada pode até acontecer em um ou dois jogos. "Ah, a gente está sobrando" e coisa e tal. Mas eu ainda não associo isso a uma determinação do atleta em não jogar. Por quê? Ele vive disso. A profissão dele é isso. Eu distinguo o relaxamento da falta de profissionalismo.

É uma questão que envolve mais maturidade do que profissionalismo...
Exatamente. Quando o atleta percebe que já perdeu dois ou três jogos, aí a questão passa a ser emocional, porque ele vê que fica cada vez mais difícil rever um quadro adverso.

Muitas vezes a torcida reclama que os jogadores são "mercenários" e não se importam de perder porque já ganharam dinheiro suficiente. O dinheiro é mesmo uma questão menor nesse aspecto?
Claro. Quando o time começa a enfrentar uma sucessão de derrotas, é preciso muito empenho por parte do grupo e do técnico para que esse quadro se altere. Então já não é só uma disposição para; é preciso um trabalho hérculeo de todos para reverter esse quadro. É mais do que uma disposição profissional, é maturidade. E a gente sabe que maturidade em um time depende da mistura de vários sujeitos, alguns mais maduros e outros menos. Reverter essa situação adversa acaba sendo uma tarefa difícil para o técnico e para o grupo enquanto um conjunto homogêneo.

Em que medida a troca de técnicos influi no comportamento dos atletas? O Palmeiras já está no terceiro treinador só neste Brasileirão. O jogador precisa de uma liderança durante esse processo?
Certamente. E com todas essas mudanças você se dá conta da capacidade de liderança de um técnico que consegue chegar ao final do campeonato com um time desses na frente. É sim um mérito do técnico que consegue chegar ao final do torneio nas primeiras posições.

O time perde identidade nesses momentos, não?
Não só identidade, mas a própria sistemática de trabalho. Cada técnico tem um estilo de liderança, de trabalho, uma didática e um estilo de comunicação que interferem diretamente no rendimento do time. Não é uma tarefa fácil nem para o técnico pegar uma equipe no desenrolar de um torneio.

Muitos jogadores nessa condição tiveram de parar de estudar, vieram de famílias pobres e sem muita instrução. Esse histórico social tem alguma relação com o postura dos atletas nessa situação?
Não. Essas características, nessa condição, não tem interferência nenhuma. Aí você tem questões que são mais determinantes, que é principalmente o vínculo dos jogadores com o técnico e com aquilo que a gente chama de tarefa, que seria a busca do resultado. No caso deles, é chegar em primeiro no campeonato. É a missão deles. Agora, tem uns que querem isso de fato, outros que desejam aparecer na mídia para serem negociados com outros clubes, aqueles que usam sua imagem para buscar patrocínios pessoais... Quando você tem essa diluição de objetivos, a busca pelo título também se perde.

Nesta terça-feira, o zagueiro Rodrigo, do São Paulo, declarou que se o Palmeiras saísse do primeiro lugar, não voltaria mais. Que papel esse tipo de provocação tem nesse processo? E o papel da própria mídia?
Isso depende do atleta. Tem quem goste de provocação e se sinta mais motivado, outros se intimidam e há ainda aqueles que ficam agressivos, como se isso fosse uma provocação pessoal. Mas isso depende de cada atleta e da história de vida de cada um.

Como lidar com essa pressão na outra ponta da tabela? Times grandes como o Fluminense e o Sport, estão a ponto de serem rebaixados...
Quando o atleta começa a entrar em curva descendente, é como se fosse um avião em queda livre. Para mudar de rumo, fica muito difícil porque você precisa de um fato novo para quebrar esse processo de decadência. E às vezes esse fato novo demora a acontecer. E aí você instala a cultura do derrotado. Quando há essa queda vertiginosa, você tem a cultura do derrotado, que é aquela pessoa que precisa ficar buscando desculpa para tudo, mas não consegue assumir a própria responsabilidade no processo. A culpa é da diretoria, a culpa é da torcida... Ele perde o foco, e nesse jogo de empurra ocorre a desagregação do grupo e a perda da coesão entre os atletas.

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Redação Terra
Katia: Muricy experimenta "papel diferente" no Palmeiras

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