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Quarta, 28 de outubro de 2009, 14h35 Atualizada às 14h39

Não incentive

Thomas L. Friedman

Estamos em uma fase crítica no Afeganistão, então aqui vai o meu voto: Precisamos pensar sobre como reduzir o quanto afetamos o país e os nossos objetivos lá de forma responsável, e não cavar mais fundo. Simplesmente não temos os parceiros afegãos, os aliados da OTAN, o apoio interno, os recursos financeiros ou os interesses nacionais para justificar um esforço aumentado e prolongado para a construção de uma nação no Afeganistão.

Eu baseio esta conclusão em três princípios. Primeiro, quando me lembro de todos os momentos de progresso naquela parte do mundo - todas as vezes que um player importante no Oriente Médio realmente fez alguma coisa que colocasse um sorriso no meu rosto - todos eles têm uma coisa em comum: os Estados Unidos não tiveram nada a ver com isso.

Os Estados Unidos ajudaram a terminar as construções que começaram, mas o grande avanço não começou conosco. Podemos assoprar as chamas, mas as próprias partes precisam acender o fogo da moderação. E sempre que tentamos fazer isto por eles, sempre que queremos isto mais do que eles, falhamos e eles ficam enfraquecidos.

O tratado de paz de Camp David não foi iniciado por Jimmy Carter. Ao invés disso, o presidente egípcio, Anwar Sadat, foi a Jerusalém em 1977 depois que Moshe Dayan, de Israel, teve conversas secretas no Marrocos com o assistente de Sadat, Hassat Tuhami. Ambos os países decidiram que queriam uma paz distinta - fora do modelo abrangente de Genebra promovido por Carter.

Os acordos de paz de Oslo iniciados em Oslo - em conversas secretas em 1992-93 entre o representante da OLP, Ahmed Qurei, e o professor israelense Yair Hirschfeld. Os israelenses e os palestinos sozinhos deram forma a uma proposta ampla e revelaram-na aos americanos no verão de 1993, para a surpresa de Washington.

A onda americana no Iraque foi militarmente bem-sucedida porque foi antecedida por um levante iraquiano, desencadeado por um líder tribal sunita, Xeque Abdul Sattar Abu Risha, que, utilizando suas próprias forças, começou a remoção dos criminosos pró-Al-Qaeda que haviam tomado cidades sunitas e que estavam impondo um estilo de vida fundamentalista. A onda americana deu a este movimento assistência vital para crescer. Mas a faísca foi feita pelos iraquianos.

A Revolução dos Cedros no Líbano, as retiradas israelenses de Gaza e do Líbano, a Revolução Verde no Irã e a decisão dos paquistaneses de finalmente combater os seus próprios talibãs no Waziristão - porque aqueles talibãs estavam ameaçando a classe média paquistanesa -, todos foram exemplos de maiorias moderadas e silenciosas agindo por conta própria.

A mensagem: "As pessoas não mudam quando dizemos a elas que deveriam", disse o especialista em política externa da Universidade Johns Hopkins, Michael Mandelbaum. "Elas mudam quando dizem a si mesmas que devem mudar".

E quando as maiorias silenciosas tomam as rédeas do seu próprio futuro, nós vencemos. Quando elas não fazem isso, quando queremos que eles se comprometam mais do que querem, perdemos. Os locais percebem que nos deixaram sem escolha, então exploram nossa ingênua boa vontade e presença para pilhar seus países e derrotar seus inimigos internos.

É como eu vejo o Afeganistão hoje. Não vejo uma faísca moderada. Vejo nosso secretário de estado suplicando ao presidente Hamid Karzai que refaça uma eleição que ele abertamente roubou. Também nos vejo implorando aos israelenses que parem de construir mais assentamentos loucos ou para que os palestinos retomem as negociações. Está na hora de parar de subsidiar o contrassenso deles. Deixe que eles comecem a pagar pelo seu extremismo no varejo, e não por atacado. Então você verá movimentação.

O que aconteceria se reduzíssemos nossa presença no Afeganistão? Não haveria a volta da Al-Qaeda, um estímulo ao Talibã e o colapso do Paquistão? Talvez sim. Talvez não. Então chegamos ao meu segundo princípio: No Oriente Médio, toda a política - tudo o que importa - acontece na manhã seguinte à manhã seguinte. Seja paciente. Sim, na manhã após reduzirmos nossa presença no Afeganistão, o Talibã comemorará, o Paquistão tremerá e Bin Laden divulgará um vídeo exultante.

E na manhã seguinte à manhã seguinte, as facções talibãs começarão a lutar uma contra a outra, o exército paquistanês precisará destruir os seus talibãs ou ser destruído por eles, os militares afegãos dividirão o país e, se Bin Laden sair de sua caverna, será morto por um avião teleguiado.

Meu último princípio orientador: Nós somos o mundo. Uma América forte, saudável e autoconfiante é o que mantém o mundo unido e em um caminho decente. Uma América fraca seria um desastre para nós e para o mundo. A China, a Rússia e a Al-Qaeda adoram a ideia dos Estados Unidos sangrarem devagar, por muito tempo, no Afeganistão. Eu não.

As forças armadas dos Estados Unidos deram a sua avaliação. Disseram que para estabilizar o Afeganistão e retirá-lo da condição de ameaça é preciso reconstruir todo aquele país. Infelizmente, este é um projeto de 20 anos, na melhor das hipóteses, e não podemos arcar com isso. Então nossas lideranças políticas precisam insistir em uma estratégia que consiga o máximo de segurança por menos dinheiro e menos presença. Nós simplesmente não temos o superávit que tínhamos quando começamos a guerra contra o terrorismo depois do 11 de setembro - e precisamos desesperadamente construir uma nação em casa. Precisamos ser mais espertos. Vamos terminar o Iraque, porque um resultado decente lá poderia realmente ter um impacto positivo em todo o mundo árabe-muçulmano e limitar nossa exposição em outro lugar. O Iraque é importante.

Sim, reduzir nossa presença no Afeganistão criará novas ameaças, mas aumentá-la também criará. Prefiro lidar com as novas ameaças com uma América mais forte.

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

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