Atualizada às 16h34 Érico Nogueira
De São Paulo
O poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929) ficou mundialmente famoso por sua colaboração com o compositor Richard Strauss, seu compatriota, para quem escreveu os libretti de óperas como Elektra e Der Rosenkavalier, entre outras tantas. Nascido em família abastada, Hofmannsthal doutorou-se em Filologia Românica, serviu na Primeira Guerra Mundial, atuou como uma espécie de mecenas, envolveu-se com festival de Salzburg, e, o que é mais, escreveu poemas líricos e dramas em verso. Aficcionado pela poesia latina e o teatro clássico espanhol, é natural que a sua primeira peça se chamasse Gestern (1891), isto é, "Ontem", e refletisse certa angústia, certo mal-estar diante de um mundo que morreria alguns anos depois, em 1914, junto com o arquiduque Francisco Ferdinando.
Seu texto mais célebre, Uma carta, - a epístola de um suposto lorde Chandos ao filósofo Francis Bacon - foi escrito em 1902 e logo foi considerado como literalmente emblemático da crise da modernidade, que o poeta sabiamente traduziu, aliás, numa crise de linguagem. Há traduções portuguesas desse texto. Quem o quiser ler, contudo, não precisa encomendar o livro: basta comprar a próxima edição da Dicta & Contradita, prevista para dezembro, e conferi-lo em tradução de minha autoria.
O poema que vamos ler data de 1890. É a primeira publicação do autor, então com dezesseis anos, e apresenta um estilo maduro, uma intuição profunda, um soberbo domínio da técnica. Em certo sentido, muitas das idéias que o autor desenvolverá em Uma carta já se encontram em gérmen aqui em "Pergunta". Em tempo: sempre abstrata e generalizante, a linguagem pode "traduzir" a experiência pessoal, singular e quase intransitiva? A linguagem comum certamente não; mas a linguagem da poesia, nas mãos de um mestre como Hofmannsthal, sem dúvida que sim. Celebremos esse feito.
PERGUNTA
Não vês quanto o meu lábio balbucia
sinais tão leves que mal podes ler?
Não sentes que o meu riso me excrucia
quando o meu olho te procura ver?
Não anseias da vida pela brisa,
por um braço que te levasse longe
desse brejo das almas em que pisas
para a luz que alumia não sei onde?
Não soube ler no fundo do teu olho?
Não vi secreta ânsia lá brilhar?
A porta do teu olho não guardava
a tua alma? O desejo, teu espólio,
como rosas que vêm na preamar,
tem pupila de estátua... Ouvi palavra?