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Quinta, 29 de outubro de 2009, 08h14

Capoeira, Bahia, Brasil

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Vá lá definir as coisas... Sabemos que não devemos falar das coisas sem uma idéia clara do que sejam; principalmente quando se trata de coisa pública e notória.

Geralmente o que a gente considera uma definição de uma coisa é simplesmente colocá-la numa categoria mais ampla, pendurando um conceito no outro. Podemos dizer que uma cadeira é um móvel, que um microfone é um aparelho eletrônico e assim pó diante...

Mas como definir o que é capoeira, aqui da Bahia, se a capoeira está muito envolvida em definir o que é ser Bahia?

Ou seja: não dá para aplicar aquele velho chavão antropológico ou sociológico de que a cultura, no caso a capoeira, é um reflexo da sociedade; por que o que está envolvido é muito mais do que isso... Eu preferia que o renomado pensador Clifford Geertz, ao invés de ter ido parar em Bali, e ter estudado as brigas de galo de lá, que ele tomasse o rumo daqui da Bahia e focalizasse na capoeira. Lá em Bali ele de certa forma revolucionou a antropologia ao perceber que as brigas de galo eram textos, "uma leitura balinesa da experiência balinesa".

Não estamos certos em fazer essa associação? Não é a capoeira uma história contada de dentro sobre a experiência daqui? Não merece a capoeira ser entendida não como reflexo de algo e sim como texto constitutivo, como dramatização da própria existência entre nós...? Convocando isso que poderíamos chamar de círculos concêntricos - Salvador, o Recôncavo, a Bahia, o Brasil e o Mundo. Resumindo e repetindo: uma leitura "densa" para usar o termo de Geertz da experiência baiana e brasileira;

É justamente por isso que aqueles que aprendem capoeira relatam ter aprendido muito mais do que simplesmente capoeira. Aliás, não existe simplesmente capoeira. Como diz Mestre Curió:

"...o que caracteriza um Mestre é ética, é saber quem é ele, ter filosofia; por que a capoeira é uma filosofia, a capoeira ela é arte, ela é dança, ela é malícia, é coreografia, teatro, sagacidade, religião, cultura, ela só pode ser perigosa na hora da dor..."

São doze categorias que o Mestre Curió levanta como aspectos ou metáforas norteadoras da capoeira. São metáforas por que a capoeira permanece sendo capoeira, mas ela aciona significados de analogia, ou melhor universos de significado que convocam todas essas atividades, elas próprias desdobráveis em outras tantas: como filosofia também entendemos uma educação, e certamente os seus métodos; como arte também entendemos uma estética, e uma estética visual, a indumentária por exemplo; e como ética e sagacidade, entendemos o próprio sumo da existência e da resistência entre nós, e vislumbramos mesmo uma política, a capoeira como atitude política, em prol da própria história que encarna e que relata...

E esse agir complexo, esse pensar complexo, permite que a capoeira estabeleça sinapses com o mundo. Pois se ela se constituiu de forma densa como uma narrativa daquilo que somos, hoje circula pelo planeta materializando de forma impressionante o conceito de rede, de sociedade em rede. A capoeira está na frente de tudo que temos, está na frente do Brasil...

Para um País como o nosso, que continua perseguindo o ideal de nação, o ideal de se constituir como nação para todos os habitantes, e que ao mesmo tempo vivencia uma época que ultrapassa o discurso nacional e polariza o poder em conglomerados mundiais -, portanto, na delicadeza dessa quadra que ora atravessamos, a capoeira assume uma posição estratégica de agente civilizatório que fomenta o sentido de pertencimento e veicula formação ética. Reconhece e valoriza a matriz africana, mas ao mesmo tempo abre-se à contemporaneidade. A capoeira civiliza o Brasil.


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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