
Eliano Jorge
Uma carreira esportiva, quando muito longa, alcança duas décadas. A de Wilson da Silva Piazza atingiu 15 anos. Desde então, ele se ocupa de melhorar justamente a vida dos ex-esportistas. Sua nova missão é "criar alguma proteção a estes atletas, que ficam à mercê da própria sorte depois".
Nos gramados, ele não era dos mais criativos. Fora dele, ajudou a criar o Fundo de Assistência ao Atleta Profissional e as associações estaduais de apoio, na década de 1970. Passou a defender a classe.
E defender é tarefa que Piazza, de 66 anos, sabe muito bem. De confiável meio-campista defensivo, tornou-se zagueiro da seleção que arrebatou o terceiro título mundial, no México, em 1970. Sim, aquele time considerado por tanta gente entendida como o melhor da história. Liderança, ele mostra desde que capitaneou o Cruzeiro entre as conquistas da Taça Brasil de 1966 e da Copa Libertadores da América de 1976. Ainda acumula uma dezena de títulos mineiros.
Nesta semana, ele levou seu currículo à mesa de discussões da Semana da Previdência Social, em Salvador, sob o tema "Trabalho Decente, Trabalhador Protegido", organizado pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, da Bahia, em articulação com o Ministério da Previdência Social.
É uma tentativa inicial de incluir esportistas das diversas modalidades no sistema previdenciário, evitando o atual quadro de desproteção social desses trabalhadores de características particulares.
"A Previdência vai realizar um debate para ver como pode atender, no caso, o artista, o jogador, não só de futebol, mas o atleta de alto rendimento, que não tem uma carreira muito duradoura, como trabalhador. O tempo é curto e depois tem os problemas que a gente sabe, ele fica completamente desamparado da Previdência Social", afirma Piazza, que, entretanto, não apela a benesses. "Isso tem que ser analisado com cautela, sem privilégios para A ou B, porque, afinal de contas, a Previdência tem esta responsabilidade de atender a todos os trabalhadores do Brasil", assinala.
Diante dos altos investimentos em infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, a demanda dos artistas desses espetáculos ganha mais evidência. "Esse atleta que queremos que coloque uma medalha de ouro no peito, como nós vamos nos importar com ele, não só até lá, mas também depois? Eu acho que a coisa deve ser organizada para isto, sem qualquer tipo de favoritismo, de privilégio", comenta Piazza, que preside a Federação das Associações de Atletas Profissionais (FAAP) desde sua fundação, em 1995. O primeiro dos seus quatro mandatos de vereador - de 1972 a 1988 - foi conciliado com a carreira de jogador.
Confira a entrevista.
Terra Magazine - O senhor foi vereador e jogador de futebol ao mesmo tempo?
Wilson Piazza - É, consegui conciliar. Foi um pouco sacrificante, mas deu para contornar porque o calendário do futebol brasileiro era menos apertado do que hoje. Não tinha tantas competições.
Teve algum outro caso desse?
O caso do João Leite como deputado, eu não sei se ele pegou um pouquinho como jogador.
Goleiro do Atlético Mineiro...
É. Chegou a deputado. Não tenho certeza se foi logo depois que parou ou um pouquinho antes. O caso do Luiz Otávio Valadares, que foi presidente do Atlético, o Ziza, também foi vereador, mas encerrou a carreira prematuramente. Acredito que hoje, para levar as duas atividades, é muito complicado. Jogador de um time de ponta viaja muito.
O senhor disputou Copa do Mundo e Libertadores durante o mandato...
Mas o que é que eu fiz? Eu pedi, por exemplo, a licença porque estava em missão representativa do País, à época. Entrou o meu suplente. Às vezes, o político sai e não pede licença, aí não dá chance de o suplente entrar. Não tinha nem remuneração. Em 1972, o máximo que o vereador tinha era ajuda "de um salário mínimo", não tinha carro, não tinha gabinete, nada. Faltavam as melhores condições, a melhor estrutura para fazer o melhor trabalho. Para atender alguém, tinha que ir num canto porque a gente não tinha sala.
Qual foi sua agenda aí no Rio de Janeiro na última quarta-feira?
A gente esteve na CBF, que é a fomentadora de muitas informações para o sistema, de acordo com a própria legislação. Nós estivemos também com o presidente do Conselho Federal de Educação Física porque hoje há a exigência que os atletas, para ficarem no próprio meio, são obrigados a fazer curso. Então, ficamos acertando esta parte porque aqueles que jogaram até 1998 estão acobertados pela lei que regulamentou a profissão dos atletas. Ela que diz que todo atleta que jogou três anos consecutivos ou cinco alternados é considerado monitor. Mas isso não é suficiente no nosso entendimento. A gente quer que aqueles que querem seguir a profissão de treinador se preparem para tal, inclusive fazendo faculdade de Educação Física, se qualificando. Você tem que ter o lado prático e a tática, o lado científico.
O sistema de assistência prega que a maior bandeira nossa tem que ser voltada a uma requalificação, ou seja, uma qualificação alternativa para o atleta. Se ele preparar antes isso, é muito melhor. Se ele, lá na base, tiver uma conclusão de curso, uma base, uma escolaridade como ensino médio para depois entrar no ensino superior, vai facilitar muito a vida dele.
Em que avançou a questão dos direitos previdenciários dos atletas no seminário, em Salvador, nesta semana?
A legislação hoje é outra. O atleta tem que estar atento, principalmente num aspecto que é muito delicado, pois no futuro, quando deixar de ser atleta, pode trazer um prejuízo enorme para ele. Porque hoje ele é um atleta que está ganhando bem, está num clube grande, mas amanhã ele tem que encerrar (a carreira) ou tem qualquer sequela e precisa parar, ou então diminui muito o potencial dele... Aí entra a parte da Previdência Social, às vezes ele fica excluído dos benefícios. Por quê? Ele não tem consciência, não procurou saber. Como também às vezes o clube, como empresa, não procura cumprir aquilo que tem que ser. Vamos supor, no caso de acidente do trabalho, precisa ser comunicado à Previdência Social para resguardar o possível direito dele amanhã, numa situação em que ele pode ter que recorrer.
Vou citar só um caso, o do Reinaldo, com problema de joelho e lesões que teve, precisou antecipar o encerramento da carreira dele. Aí depois tinha que montar um processo para ter direito àquilo que qualquer segurado da Previdência recebe. O problema é muito importante porque a consequência da falta de conhecimento do atleta, de entendimento dele, de saber como esta parte previdenciária funciona, seja através da própria agência, seja através das associações, das entidades que estão aí para prestar esclarecimentos, ele pode pagar um preço muito caro e ter um prejuízo muito grande.
O que tem sido pensado pro futuro em relação a isto?
Este foi o primeiro pontapé que foi dado, num tempo muito curto, neste encontro da Previdência, tratando de duas categorias principalmente. Eles atentaram para este detalhe: como fica o artista? (artista) Da bola, no caso, o jogador, com a Previdência Social, que não tem tempo suficiente para aposentadoria. Mas, até em razão desta situação com o Presidente da República, que acenou com a possibilidade de uma aposentadoria especial para o jogador, quando do nosso encontro dos jogadores que estavam completando os 50 anos como os primeiros campeões mundiais do Brasil. Então, em razão disso, a Previdência vai realizar um debate para ver como pode atender, no caso, o artista, o jogador, não só de futebol, mas o atleta de alto rendimento, que não tem uma carreira muito duradoura, como trabalhador. O tempo é curto e depois tem os problemas que a gente sabe, ele fica completamente desamparado da Previdência Social. Ele precisa, através do esporte, dedicar todo tempo para obter vitórias e conquistas que trouxeram divisas para o País. Isso tem que ser analisado com cautela, sem privilégios para A ou B, porque, afinal de contas, a Previdência tem esta responsabilidade de atender a todos os trabalhadores do Brasil.
Mas foi feita alguma proposta?
A gente vai estudar, por etapas. Abriram este espaço pra gente ir pro diálogo, e, quem sabe, daqui a alguns meses, a gente tenha alguma coisa mais estruturada, mais engajada para poder criar alguma proteção a estes atletas, que ficam à mercê da própria sorte depois, quando termina o tempo deles, seja do atletismo, seja do basquete, do vôlei, do que seja. A maioria deles não tem recursos, eles não são oriundos de famílias abastadas financeiras. São pessoas, às vezes, simples, trabalhadores, humildes, acostumadas a ganhar pouco e depois que conseguiram destaque, e dedicaram a vida toda naquela atividade, quando terminam, ficam à própria sorte.
O Brasil vai sediar Copa do Mundo em 2014 e Olimpíada em 2016. Gastará bilhões em construções. E na questão dos atletas...?
Pois é, por isso que a gente fala. É muito importante o País sediar, que cumpra a chamada condição de postulante para que aconteçam bem a Copa do Mundo e a Olimpíada, mas é preciso a gente lembrar que não basta você fazer uma cidade de pedra enquanto você não tem uma cidade composta de seres humanos, que são os atletas, que são trabalhadores, e num tempo muito curto de atividade. É preciso a gente ter paz também, né? Esse atleta que queremos que coloque uma medalha de ouro no peito, como nós vamos nos importar com ele, não só até lá, mas também depois? (esses atletas) Que dedicam a vida toda para este tipo de treinamento e tal. Eu acho que a coisa deve ser organizada para isto, sem qualquer tipo de favoritismo, de privilégio. É, sim, responsabilidade que o governo tem.
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