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Sexta, 30 de outubro de 2009, 09h13 Atualizada às 10h09

Venezuela, terra de contrastes

Marcelo Carneiro da Cunha
de Caracas, Venezuela

Estimados leitores, buenos días. Pois cá está esse embaixador da boa vontade distribuindo simpatia e boas maneiras na distante e caliente Caracas, terra de contrastes.


Não está bem um país onde, o tempo todo, de todas as maneiras, tudo que se tenha para falar sobre seja basicamente um homem.
Foto AFP

Distante, distante até que não é tanto assim. A gente entra em um avião em Guarulhos, sacode por seis horas e pronto, chega ao Caribe e a um fuso horário que fica duas horas e meia atrás do Brasil. Isso mesmo, duas horas e meia. A Venezuela, ou pelo menos o governo Chávez inventou um fuso horário com meia hora de diferença para o mundo. Eu achei que era brincadeira, algo como o meio andar daquele filme chato, Quero Ser John Malkovitch, que eu provavelmente acho chato porque não sou, nem de perto. O John Malkovitch, quero dizer.

Mas era sério e eles criaram o fuso horário e meio! Um lugar assim, tem que ser mesmo diferente. Em muitas coisas, é bem legal. Nunca, e olhem que esse neto da minha avó Jovita já andou por esse mundão, nunca vi um clima igual. Sabem, hummm, perfeito? Dias de sol, calor, azul intenso e sem suor ou sofrer? Eles escolheram construir uma cidade aqui perto do Equador, portanto clima constante o ano inteiro, e a mil metros de altitude, portanto, clima climatizado pela própria natureza. Porque a gente não pensou nisso antes? Mais: a cerveja, essa amiga dos dias e noites, é bem boa, e assustadoramente gelada, sempre. Aconselho a Zulia, mas não desaconselho a Solera.

Verde, e apenas desaconselho a Brahma porque gosto de cerveja. Li que o presidente Chávez fez um apelo para os venezuelanos economizarem eletricidade e água. Como vou seguir tomando a Zulia numa temperatura que beira o zero absoluto, acho que meu sacrifício em prol do bem estar vai ser reduzir o meu consumo de água e aumentar o de rum.

Acho que agüento.

A cidade tem bairros muito bonitos. Como TODAS as grandes capitais sul americanas que eu conheço, Santiago, Buenos Aires, Bogotá, Montevideo, essa aqui também dá um banho arquitetônico na gente. Mas, como nenhuma outra, que eu conheça ao menos, as favelas ocupam um espaço inacreditavelmente enorme, nos corações e nos morros que nos cercam.

Você pode conhecer o Rio e achar que aquilo lá é a favela em sua plenitude. Não é. Caracas reinventou o termo.

A comida local é definida por coisas como a arepa, ou a chalapa, tudo muito andino e com farinha de milho na composição. A comida é boa, mas um churrasco que assamos ontem, com picanha made in Brazil, ótima e mais barata do que aí, arrasou corações e mentes.

Os preços são estranhos. Se no dólar oficial, a dois Bolívares Fortes (e qualquer moeda que se afirme como forte para mim é forte candidata ao raquitismo monetário) as coisas ficam caríssimas. No dólar paralelo, que me parece mais real, elas se tornam bastante baratas. Não sei em qual dos dois as pessoas vivem, mas elas parecem sofridas, no metrô, especialmente.

Não vi as Misses Universos deles, mas devem estar por aí. Vi pessoas quase tão misturadas, racialmente falando, quanto no Brasil, e parece que a mistura é bem gerenciada. Visualmente, eles são os que mais se parecem conosco, dentre os sul americanos, acho. Na alma, não sei.

Os serviços, ao menos em hotelaria, são de um padrão, digamos, do Rio de Janeiro. Ou seja, não são nada bons, mas em compensação, são caros. Os hotéis parecem ter sido feitos nos anos 70, e os que nos atendem, deixaram de gostar do que fazem nos anos 60.

O metrô é bem legal, mas os ônibus, fora do bairro arrumado de Altamira, onde estou, são movidos a vapor, parece.

Vocês precisam ver o que é um micro ônibus em Bogotá ou em Caracas. Eu tentaria descrever, mas acontece que sou um cara muito, muito, sem imaginação. Mas, basicamente, se alguma consegue se arrastar pela rua, e se houver espaço na lateral para se escrever Servicio Ejecutivo, pimba. Nisso, ao menos, o Brasil é outro mundo.

As pessoas do curso de criação literária que eu dei eram sensacionais, terminamos hoje com um argumento que vai render um maravilhoso roteiro ou romance nas mãos certas - as deles. O Instituto Brasil Venezuela, onde o curso aconteceu, é um lugar sensacional e faz um trabalho emocionante. Parabéns a todos. Nesse ponto, e na picanha de ontem, o Brasil, aqui ao menos, vai pra lá de bem.

Hoje mesmo (29 de outubro, quinta-feira) o Senado brasileiro aprovou, na Comissão de Relações Exteriores, acho, a entrada da Venezuela no Mercosul, mas vi muita gente apreensiva aqui. Acham que o Brasil vai invadir, com todos os produtos que a gente tem e eles não.

Lemos a ótima poesia local, falamos de cinema, de literatura, fizemos o possível para evitar o tema que poderia azedar nossas conversas e relacionamento, mas ele está ao redor, o tempo inteiro. Na Venezuela, tudo que as pessoas querem falar, tudo que sentem que precisam expressar, tudo que faz com que se sintam sobre o mundo, está relacionado com Hugo Chávez.

Não está bem um país onde, o tempo todo, de todas as maneiras, tudo que se tenha para falar sobre seja basicamente um homem.

Lugares e épocas em que tudo conspira para que a realidade tenda ao seu pior, são lugares e épocas que pedem, imploram, um estadista - alguém que supere o imediato e desarme a bomba. Na ausência de um, em geral, o que se instala, é um sistema no qual o pior se alimenta dele mesmo.

Hoje, por coincidência, nosso presidente Lula está aqui, acho que fazendo ou tentando fazer, exatamente esse papel. Por conta disso, vou tratar de fazer o mesmo, e parar por aqui, enquanto é tempo.

Abrazos, e hasta luego.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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