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Segunda, 2 de novembro de 2009, 15h05

Bibancos: "Pasta de dente deveria estar na cesta básica"

Carolina Oms
Especial para Terra Magazine

Você já sorriu hoje? Se a resposta é sim, sinta-se um privilegiado. Diariamente, milhões de brasileiros que aprenderam a viver com dor nos dentes - ou que simplesmente não os têm mais - são impedidos de comer, beijar, sorrir, viver em comunidade. O que o país tem feito por eles? Muito pouco.

Do desejo de denunciar essa realidade, nasceu o documentário Boca a Boca. Idealizado pelo dentista e empreendedor social Fabio Bibancos e realizado pela Divina Imagem Produções, o filme propõe uma discussão sobre a precária condição de saúde bucal dos brasileiros, o papel de governos e empresas na perpetuação dessa precariedade e o que a sociedade civil mobilizada tem tentado fazer para mudar esse cenário.

Fábio Bibancos, em entrevista à Terra Magazine conta que o projeto já mudou a vida de milhares de crianças:
- Meninos e meninas têm suas vidas transformadas após receberem tratamento odontológico que lhes resgata dignidade e condições para a inserção na sociedade. Adolescentes que se descobrem, que conseguem emprego, que mudam de bairro, que arrumam namorada.

O dentista defende a adoção de políticas públicas eficiente para a saúde bucal: "não temos uma pasta de dentes genérica que poderia ser distribuída gratuitamente em postos de saúde juntamente com escova e fio dental", protesta. Leia a íntegra da entrevista :

Terra Magazine: De onde surgiu a ideia e a motivação para criar o projeto?
Fábio Bibancos - Uma das questões que me levou a criar a ONG foi a necessidade de tratamento odontológico curativo urgente e imediato para jovens e adolescentes. Eu realizava palestras em escolas públicas, após o lançamento do meu primeiro livro "Um sorriso feliz para o seu filho" e ao final das palestras as mães chegavam em mim e diziam: "Entendi tudo, mas dê uma olhadinha na boca do meu filho..." Eu olhava e a situação estava precária. Aquilo me afligia muito. Já não dava mais pra ensinar a escovar ou aplicar flúor. A criança estava com dor e precisava de tratamento urgente! Há muitos projetos educativos e preventivos realizados com esse público, mas para aqueles que necessitam de atendimento e que a prevenção não mais adianta, o sistema público se mostra ineficaz e a odontologia particular se torna inacessível, portanto, comecei a atender algumas crianças em meu consultório. Mas eram muitas, então comecei a envolver amigos dentistas nessa história. Hoje a ONG tem mais de seis mil dentistas voluntários cadastrados e 12 mil crianças em atendimento.

Em que situação, em termos de políticas públicas, o Brasil está no que se refere à saúde bucal?
O Brasil precisa urgentemente olhar para a saúde bucal. Somos um país infantilizado em muitos outros sentidos e no que se refere à saúde bucal não é diferente. Não temos políticas públicas eficientes que atendam as necessidades do cidadão. Em um país onde temos medicamentos genéricos (que são caríssimos) distribuídos até para o tratamento da AIDS, não temos uma pasta de dentes genérica que poderia ser distribuída gratuitamente em postos de saúde juntamente com escova e fio dental, afinal, esses são os únicos remédios que os dentistas receitam. Porque não temos pasta, escova e fio dental na cesta básica? Tem sabonete!

Quanto a saúde bucal afeta a vida e auto-estima das pessoas?
No Brasil, onde as diferenças sociais são gritantes, a falta de dentes é um dos maiores sintomas da pobreza. Assim como os graves problemas odontológicos, ela condena cidadãos à marginalidade. Há milhares de pessoas que não conseguem emprego e encontram dificuldades para se relacionar com outras pessoas no dia-a-dia porque têm sua auto-estima muito abalada.

Como a vida das pessoas atendidas pelo programa mudou?
Meninos e meninas têm suas vidas transformadas após receberem tratamento odontológico que lhes resgata dignidade e condições para a inserção na sociedade. Adolescentes que se descobrem, que conseguem emprego, que mudam de bairro, que arrumam namorada(o).

Por que vocês decidiram fazer um filme sobre o projeto?
A Turma do Bem já realizou 03 curta metragens: Dente por Dente - 2006, Bocadamata - 2007 e Festa do Biscoito - 2008.
Percebemos que através da arte conseguimos sensibilizar e mostrar qual a verdadeira importância da saúde bucal para o público, seja ele dentista ou não. Depois que participei do Fórum Econômico de Davos e conversei com Al Gore, que fez o documentário sobre meio ambiente, senti a necessidade de termos um Documentário que fosse nosso grande instrumento de divulgação da nossa causa. Boca a Boca foi lançado no último dia 26 de outubro de 2009 em quase 200 cidades da América Latina. O filme propõe uma discussão sobre a precária condição de saúde bucal dos brasileiros, o papel de governos e empresas na perpetuação dessa precariedade e o que a sociedade civil mobilizada tem tentado fazer para mudar esse cenário.

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