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Sábado, 31 de outubro de 2009, 08h07

'Boca a boca' questionada

José Luiz Teixeira
De São Paulo

Em uma cena da novela Três Irmãs, que foi ao ar pela Rede Globo no início deste ano, o ator Erik Marmo provoca inveja em muito marmanjo ao fazer uma respiração boca a boca na atriz Emanuelle Araújo.

Aposto que muitos telespectadores fantasiaram a mesma situação, imaginando-se nas areias de Copacabana a ressuscitar, lábios nos lábios, a sensual estrela global. Ou sendo ressuscitada pelo galã.

Se você é um deles, prezado leitor (ou leitora), pode ir tirando o cavalinho da chuva.

Essa técnica de primeiros socorros está sendo questionada por médicos cardiologistas, segundo reportagem publicada na seção Saúde da 'Folha de S.Paulo' (27/10 Pág. C11).

A matéria não esclareceu se esse procedimento vale também para casos de afogamento.

Diz apenas que estudos apontam uma taxa de sobrevivência três vezes maior em pessoas com parada cardíaca submetidas apenas às compressões contínuas no peito até a chegada de socorro.

Assim sendo, em breve deverá ser feita nova orientação recomendando aos leigos a aplicação apenas da massagem cardíaca na vítima, sem a respiração boca a boca.

Na parte que me toca, recebi a notícia com alívio. Confesso que também nutro a esperança de um dia poder trazer Emanuelle Araújo de volta à vida com meus lábios colados nos seus - mas no sentido figurado.

A verdade é que sempre tive medo de, a qualquer momento, andando pelas ruas da cidade, precisar soprar a boca de um moribundo desconhecido, seja ele do sexo masculino ou feminino, feio ou bonito.

Massagear o peito do pobre coitado, tentando mantê-lo nesta miserável existência, tudo bem. Porém, colar minha boca na sua, confesso envergonhado, seria uma provação.

Fosse eu o Arandir, da peça Beijo no Asfalto, de Nélson Rodrigues, o atropelado iria morrer sem o beijo.

Nesse drama, entretanto, há de se considerar que essa boa ação não salvaria a vida da vítima. Trata-se apenas do último desejo do homem agonizante na via pública.

Na vida real, se ainda for preciso - mesmo! - uma respiração boca a boca para salvar alguém, espero que na hora agá um instinto maior vença essa minha covardia.

E que eu não me comporte como aquele caipira da antiga piada da picada de cobra.

Para quem não se lembra, ou nasceu depois da Proclamação da República, a história (ou estória, como queiram) é mais ou menos a seguinte:

Dois caipiras foram pescar. Quando um deles se afastou para fazer xixi, uma cascavel picou-o bem ali... como direi?...naquela parte do corpo que estava para fora.

Desesperado, ele suplicou ao amigo que fosse à cidadezinha mais próxima, a alguns quilômetros de distância, buscar ajuda.

Meia hora depois, o parceiro chegou arfante ao Posto de Saúde e dirigiu-se rapidamente ao médico de plantão.

O doutor estava muito ocupado e orientou-o a voltar e prestar ele mesmo os primeiros socorros.

- Volte lá, veja onde foi a picada, chupe o veneno da cobra, cuspa, e me espere que eu chego logo - explicou o médico.

Ressabiado, o caipiria voltou para onde estava o amigo, mas já sem correr tanto. Gastou uma hora e meia no retorno. Ao chegar, o outro perguntou desesperado:

- E aí, achou o médico? O que ele disse?

- Disse que você vai morrer.

José Luiz Teixeira é jornalista. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, Tupi e BBC de Londres, e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde.

Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br

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