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Sábado, 31 de outubro de 2009, 16h39 Atualizada às 08h07

Lições do Renascimento

Francisco Viana
De São Paulo

Na semana que agora termina, foi realizado na Faculdade de Direito de Sorocaba um seminário sobre o Renascimento. Na abertura, o professor Antonio José Romera Valverde, que responde pelo Grupo de Pesquisas Renascimento, da PUC-SP, organizador do evento, afirmou: "O Renascimento foi o acontecimento mais importante do milênio que terminou no século XX". De fato, foi um momento tão seminal quanto hoje esquecido. No Brasil, por exemplo, estuda-se e discute-se escassamente o tema.

Numa visão retrospectiva, vamos encontrar no Renascimento a emergência do homem como centro da vida, a condenação às tiranias, a descoberta que a riqueza não é uma dádiva divina, mas da dominação de uma classe sobre a outra ou do mérito, o ocaso da dominação da teologia sobre a filosofia e a ciência, e sobretudo dois acontecimentos seminais. O primeiro foi o humanismo cívico (ou o republicanismo clássico), que ampliou os espaços públicos e quebrou o sistema de castas. Ou seja, a política democratizou-se, grandes massas passaram a ser incorporadas à vida pública, decidindo o destino das sociedades.

O segundo foi que a comunicação, pela primeira vez na história, também se tornou um fenômeno de massas, como caminho para civilizar o debate público. Não por acaso a retórica voltou a fazer parte dos currículos das universidades Italianas e, em Florença, núcleo forte do pensamento renascentista, o estudo das humanidades tornou-se essencial.

Um dos grandes acontecimentos dessa época foi protagonizado pelo filósofo Leonardo Bruni, autor da celebre frase de que a riqueza não é boa, nem má, mas neutra. Foi a senha para que um colossal movimento de opinião publica se espalhasse por toda a Itália e, também, pela Europa condenado o culto a pobreza e, dando alicerce, a expansão do capitalismo. Produziu-se livros, resgatou-se a Ética a Nicômaco de Aristóteles, ainda hoje ensinada nas faculdades de administração, fundamentou-se um ciclo de expansão do capital que só no XIX, com Max Weber, mereceria uma teorização mais abrangente.

Por aquela época Bruni acreditava que a virtù - a capacidade de mudar o destino e afirmar o valor republicano do bem estar público - fosse mais forte que a ganância e a exploração. Acreditava que o bem público fosse o símbolo maior da perfectibilidade humana e que a razão fosse preponderante nas relações humanas.

Não foi exatamente o que viria acontecer nos séculos seguintes, mas o fato concreto é que o tema da riqueza tem uma boa origem: o compromisso ético com o bem público. E, por sua vez, a comunicação guarda intima relação com esse mesmo bem.

O Renascimento, como insistiu o professor Valverde, é chave principal para o entendimento do mundo contemporâneo. Foi naquele período, que começa em 1300 e se prolonga até o século XVII, a despeito dos seus limites imprecisos, que brotaram tipos característicos dos nossos dias como o humanista, o republicano, o banqueiro, o comunicador, o artista, o liberal, enfim, foi a época que influenciou as revoluções inglesas e americanas. É o momento em que se pensou, como viria a teorizar posteriormente a Escola de Frankfurt, a reedição da democracia ateniense, só que sem escravos.

No caso especifico da comunicação, o retorno ao Renascimento permite compreender que seu surgimento não se dá nos Estados Unidos do pós-guerra, com fins de alargar o mundo dos negócios. Se dá, sim, com os humanistas com fins de alargar os espaços públicos da participação política e, consequentemente, de democratizar o exercício do poder. Inclusive, os grandes conselhos datam daquela época. Os Medici ,em Florença, chegaram a governar com conselhos de três mil cidadãos, apesar de serem os populistas da época.

Por fim, um último registro: como integrante do Grupo de Pesquisa Renascimento da PUC-SP participei do Simpósio com uma palestra sobre Leonardo Bruni. O tema: a ética da Riqueza. Todo o conteúdo do evento será publicado nos Cadernos do Renascimento, em fase de elaboração. Um dado auspicioso foi a participação intensa dos alunos da Faculdade de Direito de Sorocaba. Ativa e atenta. Não se via celulares ligados, nem computador.

Houve interesse, muitas perguntas e uma platéia nunca inferior a uma centena de alunos. O que é muito indicador do interesse pela história e pela política num momento em que se tenta criar uma cidade ahistórica, isto é, afirmar a idéia neoliberal de que não existe passado, nem futuro, apenas o repetitivo tempo presente de produção do lucro máximo.

No caso do Simposio na Fadi houve um outro fato merecedor de registro: foi o empenho do professor Flávio Panequi de informar e mobilizar os alunos. Isto prova que em havendo empenho e ação - vida ativa unidade a vida reflexiva, como nos idos do Renascimento - as coisas acontecem e germinam propiciando boas colheitas.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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