
Atualizada às 08h07 Francisco Viana
De São Paulo
Na semana que agora termina, foi realizado na Faculdade de Direito de Sorocaba um seminário sobre o Renascimento. Na abertura, o professor Antonio José Romera Valverde, que responde pelo Grupo de Pesquisas Renascimento, da PUC-SP, organizador do evento, afirmou: "O Renascimento foi o acontecimento mais importante do milênio que terminou no século XX". De fato, foi um momento tão seminal quanto hoje esquecido. No Brasil, por exemplo, estuda-se e discute-se escassamente o tema.
Numa visão retrospectiva, vamos encontrar no Renascimento a emergência do homem como centro da vida, a condenação às tiranias, a descoberta que a riqueza não é uma dádiva divina, mas da dominação de uma classe sobre a outra ou do mérito, o ocaso da dominação da teologia sobre a filosofia e a ciência, e sobretudo dois acontecimentos seminais. O primeiro foi o humanismo cívico (ou o republicanismo clássico), que ampliou os espaços públicos e quebrou o sistema de castas. Ou seja, a política democratizou-se, grandes massas passaram a ser incorporadas à vida pública, decidindo o destino das sociedades.
O segundo foi que a comunicação, pela primeira vez na história, também se tornou um fenômeno de massas, como caminho para civilizar o debate público. Não por acaso a retórica voltou a fazer parte dos currículos das universidades Italianas e, em Florença, núcleo forte do pensamento renascentista, o estudo das humanidades tornou-se essencial.
Um dos grandes acontecimentos dessa época foi protagonizado pelo filósofo Leonardo Bruni, autor da celebre frase de que a riqueza não é boa, nem má, mas neutra. Foi a senha para que um colossal movimento de opinião publica se espalhasse por toda a Itália e, também, pela Europa condenado o culto a pobreza e, dando alicerce, a expansão do capitalismo. Produziu-se livros, resgatou-se a Ética a Nicômaco de Aristóteles, ainda hoje ensinada nas faculdades de administração, fundamentou-se um ciclo de expansão do capital que só no XIX, com Max Weber, mereceria uma teorização mais abrangente.
Por aquela época Bruni acreditava que a virtù - a capacidade de mudar o destino e afirmar o valor republicano do bem estar público - fosse mais forte que a ganância e a exploração. Acreditava que o bem público fosse o símbolo maior da perfectibilidade humana e que a razão fosse preponderante nas relações humanas.
Não foi exatamente o que viria acontecer nos séculos seguintes, mas o fato concreto é que o tema da riqueza tem uma boa origem: o compromisso ético com o bem público. E, por sua vez, a comunicação guarda intima relação com esse mesmo bem.
O Renascimento, como insistiu o professor Valverde, é chave principal para o entendimento do mundo contemporâneo. Foi naquele período, que começa em 1300 e se prolonga até o século XVII, a despeito dos seus limites imprecisos, que brotaram tipos característicos dos nossos dias como o humanista, o republicano, o banqueiro, o comunicador, o artista, o liberal, enfim, foi a época que influenciou as revoluções inglesas e americanas. É o momento em que se pensou, como viria a teorizar posteriormente a Escola de Frankfurt, a reedição da democracia ateniense, só que sem escravos.
No caso especifico da comunicação, o retorno ao Renascimento permite compreender que seu surgimento não se dá nos Estados Unidos do pós-guerra, com fins de alargar o mundo dos negócios. Se dá, sim, com os humanistas com fins de alargar os espaços públicos da participação política e, consequentemente, de democratizar o exercício do poder. Inclusive, os grandes conselhos datam daquela época. Os Medici ,em Florença, chegaram a governar com conselhos de três mil cidadãos, apesar de serem os populistas da época.
Por fim, um último registro: como integrante do Grupo de Pesquisa Renascimento da PUC-SP participei do Simpósio com uma palestra sobre Leonardo Bruni. O tema: a ética da Riqueza. Todo o conteúdo do evento será publicado nos Cadernos do Renascimento, em fase de elaboração. Um dado auspicioso foi a participação intensa dos alunos da Faculdade de Direito de Sorocaba. Ativa e atenta. Não se via celulares ligados, nem computador.
Houve interesse, muitas perguntas e uma platéia nunca inferior a uma centena de alunos. O que é muito indicador do interesse pela história e pela política num momento em que se tenta criar uma cidade ahistórica, isto é, afirmar a idéia neoliberal de que não existe passado, nem futuro, apenas o repetitivo tempo presente de produção do lucro máximo.
No caso do Simposio na Fadi houve um outro fato merecedor de registro: foi o empenho do professor Flávio Panequi de informar e mobilizar os alunos. Isto prova que em havendo empenho e ação - vida ativa unidade a vida reflexiva, como nos idos do Renascimento - as coisas acontecem e germinam propiciando boas colheitas.
Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br
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