
Paul Krugman
Do The New York Times
Ok, pessoal, este é o momento. É o momento de definição para a reforma do sistema de saúde.
Os esforços do passado para dar aos americanos o que cidadãos de qualquer outra nação avançada já têm - acesso garantido à assistência básica - terminaram não com um estrondo, mas com um choramingo, geralmente morrendo no comitê sem nem mesmo chegarem a ser votados.
Mas desta vez, projetos de saúde pública parecidos em linhas gerais, conseguiram passar por diversos comitês em ambas as Câmaras do Congresso americano. E na quinta-feira, Nanci Pelosi, a porta-voz da Câmara, revelou a legislação que ela enviará para votação na Câmara, onde quase certamente passará. Não é um projeto perfeito, nem de longe, mas é um projeto de lei mais forte do que quase todos esperavam surgir até poucas semanas atrás. E levaria a uma cobertura quase universal.
Como resultado disso, todos na classe política - com isso quero dizer políticos, pessoas na mídia jornalística e assim por diante, basicamente qualquer um que esteja em uma posição de influenciar a etapa final desta maratona legislativa - têm que fazer uma escolha agora. O aparente sonho impossível da reforma da saúde básica está a apenas alguns passos de se tornar realidade, e cada jogador precisa decidir se ele ou ela irá ajudá-lo a atravessar a linha de chegada ou ficar no seu caminho.
Para os conservadores, claro, é uma decisão fácil. Eles não querem que os americanos tenham cobertura universal e não querem que o presidente Barack Obama tenha sucesso nisto.
Para os progressistas, esta é uma decisão um pouco mais difícil: eles querem assistência universal, e querem que o presidente tenha sucesso - mas a legislação proposta está longe do seu ideal. Ainda há alguns defensores da reforma que não aceitarão qualquer coisa que não seja uma mudança completa para a Medicare para todos, em oposição a um sistema híbrido e meio-termo, que se baseia muito em seguradoras privadas. E mesmo aqueles que se conformaram com as realidades políticas estão desapontados que o projeto não inclui uma opção pública "forte", com taxas de pagamento ligadas àquelas definidas pela Medicare.
Entretanto, o projeto inclui uma opção pública "médio-forte", na qual o plano público negociará as taxas de pagamento - desafiando as previsões de especialistas que declararam repetidamente qualquer tipo de plano de opção pública como morto. Também inclui subsídios mais generosos do que o esperado, facilitando o acesso à cobertura para famílias de renda mais baixa. E de acordo com as estimativas do Gabinete do Orçamento do Congresso, quase todos - 96% dos residentes legais jovem demais para receberem Medicare - receberiam seguro-saúde.
Então, os progressistas deveriam aprovar este plano? Sim. E eles provavelmente vão.
As pessoas que realmente precisam decidir, então, são aqueles no meio, os autoproclamados centristas.
O estranho a respeito deste grupo é que enquanto seus membros estão claramente desconfortáveis com a ideia de aprovar a reforma da saúde, eles estão tendo problemas em explicar exatamente qual é o seu problema. Ou para ser mais preciso e menos polido, eles estão atacando a legislação proposta por fazer coisas que não faz e por não fazer coisas que faz.
Assim, o Sen. Joseph Lieberman de Connecticut diz, "quero poder votar por um projeto de saúde, mas minha preocupação principal é o déficit". Esta seria uma oposição substancial às propostas atualmente em discussão se elas fossem, de fato, aumentar o déficit. Mas elas não vão, pelo menos de acordo com o Gabinete do Orçamento do Congresso, que estima que o projeto da Câmara, em especial, na prática reduziria o déficit em até US$ 100 bilhões ao longo da próxima década.
Ou considere a troca incrível que ocorreu nesta semana entre Peter Orszag, o diretor de orçamento da Casa Branca, e Fred Hiatt, o editor de opinião do The Washington Post. Hiatt criticou o Congresso por não executar o que ele considera os passos necessários para controlar os custos da saúde pública - em outras palavras, taxar planos de seguro de custo alto e estabelecer uma comissão independente da Medicare. Ao escrever no blog do gabinete de orçamento - sim, há um, e é leitura essencial - Orszag destacou, de forma não muito gentil, que o projeto de lei do Comitê de Finanças do Senado, na prática, inclui ambas as medidas supostamente ausentes.
Não tentarei psicanalisar os "do contra", como Orszag os descreve. Apenas recomendaria que eles dessem uma boa olhada no espelho. Se eles realmente querem se alinhar com os conservadores linha-dura, se eles apenas querem matar a reforma da saúde, então que seja. Mas eles não devem se esconder por trás de declarações de que eles, realmente, verdadeiramente apoiariam a reforma da saúde pública se ao menos ela tivesse sido melhor projetada.
Pois este é o momento da verdade. O ambiente político não poderia estar mais favorável para a reforma. A legislação em pauta não é perfeita, mas é o melhor que qualquer um, com bom senso, poderia esperar. A história está para ser feita - e todos precisam decidir de que lado estão.
Terra Magazine
|
Reuters
Progressistas também resistem á reforma do sistema de saúde proposta por Barack Obama
|