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Terça, 3 de novembro de 2009, 15h55

Primeiro, silenciem o denunciante

Christopher Hitchens
Do The New York Times

Se acontecer de nós refletirmos sobre a nossa intervenção no Afeganistão como um fracasso humilhante, este fim de semana passado pode muito bem ser identificado como um dos momentos em que a calamidade se tornou irreversível.

No prelúdio às eleições de 2004 no Afeganistão, eu visitei os lugares onde as populações locais estavam sendo instruídas nos princípios bem como na mecânica da votação. Foi como assistir a um broto muito bem dobrado começando a desabrochar e se abrir.

Autoridades de diversas organizações internacionais esperavam, por exemplo, atrair uma certa porcentagem de mulheres afegãs para enfrentar com bravura seus antigos opressores e aparecer para fazer o registro eleitoral: As instalações para esse fim estavam dominadas pelo grande número de mulheres que compareceram espontaneamente.

Os grupos minoritários que tinham sido desprezados e massacrados pelo Talibã - como a Hazara, uma comunidade xiita prima do Irã - estavam se mobilizando para fazer o registro eleitoral. A imprensa e a televisão, totalmente novas para muitos afegãos, mostravam algumas cenas vívidas de democracia e alguns debates úteis.

No dia da votação, houve queixas sobre a tinta inapagável para as pontas dos dedos não ser tão inapagável assim, mas um grande número de pessoas enfrentou corajosamente as "cartas noturnas" do Talibã e fez fila debaixo de sol para ter a chance de votar. Nenhuma imperfeição processual poderia destruir a impressão de que os afegãos estavam adquirindo a ideia crucial de uma eleição livre e competitiva.

A farsa melancólica e desagradável de 20 de agosto de 2009 quase eclipsou essa lembrança. Uma tapeação ridícula digna de um país governado tiranicamente produziu em seu primeiro turno um resultado que não sobrevivia nem mesmo ao exame mais superficial.

Na primeira inspeção dos locais de votação e das cédulas, era ridiculamente fácil descobrir locais de votação fechados que haviam registrado grande afluência às urnas e cédulas que tinham saído direto da máquina impressora para o bolso do Presidente Hamid Karzai e seus associados - um dos quais, Azizullah Lodin, faz as vezes de presidente da absurdamente chamada Comissão Eleitoral Independente do Afeganistão.

Isso seria ruim o suficiente, se não fosse pela conivência covarde da missão da ONU em Cabul. Talvez US$ 200 milhões em dinheiro da comunidade internacional tenha sido repassado para garantir que o povo afegão pudesse votar, mas quando um grande número deles não votou ou não pôde votar, e enquanto muitos outros conseguiram votar, na verdade, cinco ou seis vezes, não houve nenhum sinal de alarme das autoridades da ONU responsáveis em Cabul.

Ou talvez eu devesse reformular isso: Um oficial realmente reclamou, escrevendo no jornal The Washington Post que tinha havido a) uma fraude generalizada, b) conluio do governo e c) indiferença da ONU que equivaleu à conivência. Este oficial foi Peter Galbraith, um alto diplomata norte-americano que na época era representante especial interino do Secretário-Geral da ONU, aquela figura cintilante conhecida em prosa e verso como Ban Ki-moon.

Em seu artigo de opinião de 4 de outubro, Galbraith reclamou que Kai Eide, o chefe norueguês da missão da ONU, tinha sido indiferente à parcialidade flagrante demonstrada pelas autoridades afegãs locais, que estavam de fato gastando dinheiro da ONU para comprar votos para o seu chefe político.

Eide, por sua vez, queixou-se a Ban, que imediatamente fez o favor de demitir Galbraith. Assim, não podemos dizer completamente que alguém envolvido neste fiasco e festival de corrupção perdeu o emprego até agora - seria quase verdade não fosse o fato de o principal denunciante ter sido demitido como o primeiro item da pauta.

Não importa agora se houve ou não um segundo turno ou uma eleição "impugnada" - não é possível que exista algum afegão consciente que acredite que o processo seja algo mais do que uma manipulação cínica. Isso não é tão ruim quanto a recente supressão dos direitos de voto no vizinho Irã, mas devemos ter um padrão ligeiramente mais elevado do que esse (e a mera comparação, é claro, serve para mostrar quão altos são os riscos).

O Talibã, imagina-se, mal pode acreditar na sua sorte. Eles opõem-se à votação por princípio como algo anti-islâmico e eles opõem-se especial e cruelmente ao voto das mulheres, mas agora eles não precisam enfatizar isso. Eles podem simplesmente ajudar a aumentar o coro do cinismo e do desprezo.

As medidas resultantes de pânico propostas para corrigir este resultado terrível em alguns casos foram tão ruins quanto a doença original. Admitindo tarde demais e com muita má vontade que a fraude havia tornado inevitável um segundo turno, Kai Eide deixou-nos confrontados com uma escolha entre uma segunda votação apressada supervisionada pelos mesmos vigaristas ou um adiamento até depois do brutal inverno afegão - outro brinde às forças da ruína e do fanatismo.

Alguns também propuseram um governo "interino" deteriorado ou uma solução temporária para guardar as aparências entre Karzai e seu principal rival, Abdullah Abdullah (tão bom que recebeu um nome duplo). Tudo isso representa uma tentativa de evitar encarar o fato óbvio de que durante meses este ano, e com o nosso dinheiro, o povo afegão foi enganado e traído na sua hora de necessidade mais urgente.

O que dirão agora os grandes amigos da moralmente infalível ONU, pergunto-me? E como o presidente e o Congresso dos Estados Unidos, e as lideranças dos outros estados doadores e patrocinadores, explicarão o que aconteceu com o financiamento que eles autorizaram?

Já escrevi dezenas de vezes sobre como nenhum dos chamados paralelos com o Vietnã é válido (al-Qaeda uma importação estrangeira para o Afeganistão; nenhuma ameaça Viet Cong para as cidades americanas; você sabe o resto), mas há uma coisa que realmente desfigurou o Vietnã do Sul e é essencial evitar em qualquer caso: o compromisso das forças norte-americanas com um governo que consegue ser simultaneamente enriquecido e falido - e faz seu próprio povo querer cuspir.

Christopher Hitchens é jornalista, escritor e colunista de Vanity Fair e Slate Magazine. É autor do livro "Deus não é Grande: como a religião envenena tudo". Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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