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Terça, 3 de novembro de 2009, 10h37

Muito pouco de algo bom

Paul Krugman
Do The New York Times

A boa notícia é que a Lei Norte-Americana de Recuperação e Reinvestimento, conhecida como o plano de estímulo Obama, está funcionando quase da maneira como a macroeconomia clássica disse que ela funcionaria. Mas essa também é a má notícia - porque a mesma análise clássica diz que o estímulo foi muito pequeno considerando a escala dos nossos problemas econômicos. A menos que algo mude drasticamente, enfrentaremos muitos anos de elevadas taxas de desemprego.


"O ônus da elevada taxa de desemprego recai sobre os jovens trabalhadores", diz Krugman.
Foto AP

E a notícia realmente ruim é que os "centristas" no Congresso não conseguem ou não estão dispostos a chegar à conclusão óbvia, que é que precisamos de muito mais gasto federal na criação de empregos.

Sobre essa boa notícia: Não muito tempo atrás a economia norte-americana estava em queda livre. Sem a lei de recuperação, a queda livre provavelmente teria continuado à medida que os trabalhadores desempregados reduziam seus gastos drasticamente e enquanto governos estaduais e municipais com problemas financeiros realizavam demissões em massa e muito mais.

O estímulo não eliminou completamente esses efeitos, mas foi suficiente para quebrar o círculo vicioso de declínio econômico. O auxílio aos desempregados e a ajuda aos governos estaduais e municipais foram provavelmente os fatores mais importantes. Se você quiser ver a lei de recuperação em ação, visite uma sala de aula: a sua escola local provavelmente teria que demitir muitos professores se o estímulo não tivesse sido promulgado.

E a queda livre terminou. O relatório do PIB da semana passada mostrou que a economia está crescendo novamente em uma taxa anual melhor que o esperado de 3,5%. Como Mark Zandi do Moody's Economy.com declarou recentemente, "O estímulo está fazendo o que deveria fazer: encurtar a recessão e estimular a recuperação".

Mas não é o suficiente.

Suponhamos que a economia continuasse crescendo 3,5%. Se isso acontecesse, o desemprego finalmente começaria a diminuir - mas muito, muito lentamente. A experiência da era Clinton, quando a economia cresceu a uma taxa média de 3,7% durante oito anos (você sabia disso?) sugere que com as taxas de crescimento atuais nós teríamos sorte de ver a taxa de desemprego cair meio ponto percentual por ano, o que significa que levaria uma década para retornar a algo parecido com emprego pleno.

Pior ainda, está longe de ser evidente que o crescimento continuará neste ritmo. Os efeitos do estímulo aumentarão ao longo do tempo - ainda é provável que ele crie ou salve um total de aproximadamente 3 milhões de empregos -, mas o seu impacto máximo sobre o crescimento do PIB (em oposição ao seu nível) já está atrás de nós. O crescimento sólido somente continuará se os gastos privados assumirem a responsabilidade à medida que o efeito do estímulo desaparecer gradualmente. E até agora não há sinal de que isto esteja acontecendo.

Assim, o governo precisa fazer muito mais. Infelizmente, as probabilidades políticas para novas ações não são boas.

O que eu continuo ouvindo em Washington é um de dois argumentos: ou (1) o estímulo fracassou, o desemprego ainda está aumentando, portanto não devemos mais perder tempo, ou (2) o estímulo foi bem-sucedido, o PIB está crescendo, então nós não precisamos fazer mais nada. A verdade, que é que o estímulo foi muito pouco de algo bom - que ele ajudou, mas não foi grande o bastante - parece ser muito complicada para uma era de política de frases de efeito.

Mas podemos nos dar ao luxo de fazer mais? Não podemos nos dar ao luxo de não fazer mais.

A alta taxa de desemprego não pune apenas a economia hoje; ela pune o futuro também. Diante de uma economia enfraquecida, as empresas reduziram drasticamente os gastos em investimento - tanto os gastos em instalações e equipamentos quanto em investimentos "intangíveis" em coisas como desenvolvimento de produtos e treinamento de funcionários. Isso prejudicará o potencial da economia nos próximos anos.

Os conservadores fiscais gostam de reclamar que os jovens de hoje acabarão tendo que pagar impostos mais altos para pagar os juros da dívida que estamos acumulando agora. Mas qualquer um que realmente se importasse com as perspectivas dos jovens norte-americanos estaria fazendo pressão para muito mais criação de empregos, visto que o ônus da elevada taxa de desemprego recai desproporcionadamente sobre os jovens trabalhadores - e aqueles que ingressam na força de trabalho em anos de desemprego elevado sofrem danos permanentes à carreira, jamais alcançando o mesmo nível daqueles que se formaram em épocas melhores.

Até mesmo a alegação de que nós teremos que pagar as despesas do estímulo agora com impostos mais altos depois está muitíssimo errada. Gastar mais em recuperação levará a uma economia mais forte, tanto agora quanto no futuro - e uma economia mais forte significa mais receitas públicas. Os gastos em estímulo provavelmente não se pagam por si, mas seu verdadeiro custo, mesmo em um sentido fiscal literal, é apenas uma fração do número principal.

OK, sei que estou sendo irrealista: Os grandes programas econômicos não podem passar no Congresso sem o apoio dos Democratas relativamente conservadores e estes Democratas vêm dizendo aos jornalistas que eles perderam o apetite por estímulo.

Mas eu espero que seus estômagos comecem a roncar em breve. Agora nós sabemos que o estímulo funciona, mas estamos fazendo muito menos que o suficiente. Para o bem dos desempregados de hoje e para o bem do futuro da nação, precisamos fazer muito mais.


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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