
Atualizada às 11h02 Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)
Percorro vastidões de terras férteis, monoculturas de cana, laranja, eucaliptos e capinzais para o gado. Aqui e acolá resquícios de plantações de café e mínimas amostras de florestas, que já reinaram absolutas até bem pouco, cedendo lugar para monótonos e ordenados plantios lucrativos, desenhos verdes a perder de vista, canaviais infinitos. Monocultura, lucro, monocultura, lucro... Uma cantilena de maria-fumaça.
Quase não se avista casas; os campos se esvaziaram de seus habitantes: animais, pássaros, homens. Chega-se a imaginar que marcianos invisíveis cultivam as terras, pois os homens só aparecem nas periferias das cidades ou pequenos e anônimos na imensidão dos cultivos. Pergunto-me se toda riqueza gerada fica nas cidades em volta e se reverte para os seus habitantes. Ou se ela foge nas mãos de algum milionário, para longe. Minha pergunta parece boba e ninguém sabe responder.
É mentira falar-se em vida rural, nostalgia caipira de duplas sertanejas, pois ela não mais existe por ali. Verdadeiras são apenas as cidades e suas periferias, os ricos latifúndios e as máquinas. Experimento a sensação de percorrer os sertões desabitados do nordeste. Nos interiores paulistas as terras se povoaram de tratores e poucos homens, tornando-se ricamente produtivas. Nas planuras secas nordestinas, no lugar onde não existe irrigação também não habitam homens nem máquinas. O deserto infértil se adensa apenas nas cidades e suas periferias, quase sempre pobres. Os poetas cantam um sertão rico de mentira.
Viajo de São Paulo para Botucatu. Sigo até Macatuba, que me impressiona pelo silêncio, a ordem e as praças intercalando os quarteirões de casas. Depois Pederneiras, aonde é possível pescar e tomar banho no Tietê e a biblioteca municipal pulsa como o coração da cidade. De noite, vimos queimarem a cana e imaginamos algum Nero endiabrado incendiando o mundo. No tempo de moagem, chove fuligem negra em todas as cidades afogadas nos canaviais. Em Pernambuco, chamam malunguinho essa neve pestilenta.
Outra travessia, agora para Cerqueira César, a cidade que guarda a nostalgia dos trens de ferro. A biblioteca funciona numa antiga estação. Pessoas entram e saem da casa de livros, como se estivessem em suas próprias casas. Converso com alunos sobre literatura e o encantamento faz que esqueçam as horas.
No dia seguinte parto novamente. Dessa vez retorno a Botucatu, aonde mais alunos esperam para outras conversas sobre livros, brincadeiras, histórias. É preciso conquistar leitores para o objeto livro, esse que dizem estar ameaçado de morte, com os dias contados.
Em Cerquilho, fazemos a última parada da viagem em torno de bibliotecas. Conversamos com educadores, bibliotecárias, gerentes de educação e cultura. Inventamos fórmulas de ganhar leitores. Elas se parecem com os recursos dos antigos narradores ambulantes, os que andavam pelas casas contando e encantando. Todos desejam o mesmo que eles: encantar e educar.
Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br
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