Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › José Pedro Goulart

Quarta, 4 de novembro de 2009, 07h51 Atualizada às 10h37

O fogo que devora

Redação Terra
Gritaram de raiva pelas pernas lisas impossíveis da aluna de minissaia, diz Goulart
"Gritaram de raiva pelas pernas lisas impossíveis" da aluna de minissaia, diz Goulart

José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)

Rapazes (e moças) xingaram e ameaçaram uma garota porque ela estava usando minissaia numa faculdade em São Paulo. A provocação inicial, provavelmente infantil, acabou se tornado um ato violento e incabível de histeria coletiva. O senso comum das opiniões viu na atitude uma barbárie. Mas o senso comum não entende - ou não quer saber - às razões dos bárbaros.

Há incêndios arrasadores que começaram com uma simples ponta de cigarro mal apagada. Mas o início banal não faz que o fogo seja irreal. No episódio, a bagana veio na forma de um chiste, uma piada. O que se sucedeu é o que importa: "um fogo devora um outro fogo".

"A pregação da castidade é um incitamento público à antinatureza", disse Nietzsche. A sociedade tal qual está baseada espera que haja um convívio harmônico entre homens e mulheres antinaturais. Afinal, apesar de toda aparente liberação sexual, o episódio da moça na faculdade de São Paulo, uma simples minissaia, e a bizarra reação dos colegas, revela um convívio longe de estar pacificado. Vez por outra escapa a válvula da panela de pressão.

Um par de pernas inacessível, inatingível, mas desejado. Todos os dias há milhares de pernas assim. Como há peitos, bundas. Cada corpo exposto é um convite ao desejo, mas logo uma ordem interna antagônica exige que ele se dissipe. Somos constantemente atiçados no nosso fogo e a nossa consciência age como bombeiro. "Todo o desprezo pela vida sexual, toda impurificação da mesma através do conceito de 'impuro' é o próprio crime contra a vida", insiste o bigodudo.

Nos corredores da faculdade, onde um indivíduo vira dez, como se houvesse um rastro de pólvora ateando fogo por tudo apareceu uma chance de vingança. Não contra a garota, menos ainda pela minissaia. Mas pela frustração de "todas" promessas não cumpridas. Gritaram pelo mesmo motivo que um automóvel caro é riscado na rua: por raiva.

Gritaram de raiva pelas pernas lisas impossíveis. Pelas coxas expostas, provocativas e inacessíveis. Gritaram para sufocar o desejo. E assim, o que no início era frívolo, provocado por um pequeno grupo, acabou gerando a ação de um exército abominável e violento. Como se fosse uma erupção da lava incandescente de tudo que havia de indomado dentro deles. E que há em cada um.

***

Hoje à tardinha na Feira da Livro, 18h30, haverá o lançamento do meu novo livro: "A voz que se dane", L&PM. Minissaias estão liberadas. Apareça.

Twitter - @ZPgoulart


José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.


Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela