
Atualizada às 10h37 |
Redação Terra
"Gritaram de raiva pelas pernas lisas impossíveis" da aluna de minissaia, diz Goulart
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José Pedro Goulart
De Porto Alegre (RS)
Rapazes (e moças) xingaram e ameaçaram uma garota porque ela estava usando minissaia numa faculdade em São Paulo. A provocação inicial, provavelmente infantil, acabou se tornado um ato violento e incabível de histeria coletiva. O senso comum das opiniões viu na atitude uma barbárie. Mas o senso comum não entende - ou não quer saber - às razões dos bárbaros.
Há incêndios arrasadores que começaram com uma simples ponta de cigarro mal apagada. Mas o início banal não faz que o fogo seja irreal. No episódio, a bagana veio na forma de um chiste, uma piada. O que se sucedeu é o que importa: "um fogo devora um outro fogo".
"A pregação da castidade é um incitamento público à antinatureza", disse Nietzsche. A sociedade tal qual está baseada espera que haja um convívio harmônico entre homens e mulheres antinaturais. Afinal, apesar de toda aparente liberação sexual, o episódio da moça na faculdade de São Paulo, uma simples minissaia, e a bizarra reação dos colegas, revela um convívio longe de estar pacificado. Vez por outra escapa a válvula da panela de pressão.
Um par de pernas inacessível, inatingível, mas desejado. Todos os dias há milhares de pernas assim. Como há peitos, bundas. Cada corpo exposto é um convite ao desejo, mas logo uma ordem interna antagônica exige que ele se dissipe. Somos constantemente atiçados no nosso fogo e a nossa consciência age como bombeiro. "Todo o desprezo pela vida sexual, toda impurificação da mesma através do conceito de 'impuro' é o próprio crime contra a vida", insiste o bigodudo.
Nos corredores da faculdade, onde um indivíduo vira dez, como se houvesse um rastro de pólvora ateando fogo por tudo apareceu uma chance de vingança. Não contra a garota, menos ainda pela minissaia. Mas pela frustração de "todas" promessas não cumpridas. Gritaram pelo mesmo motivo que um automóvel caro é riscado na rua: por raiva.
Gritaram de raiva pelas pernas lisas impossíveis. Pelas coxas expostas, provocativas e inacessíveis. Gritaram para sufocar o desejo. E assim, o que no início era frívolo, provocado por um pequeno grupo, acabou gerando a ação de um exército abominável e violento. Como se fosse uma erupção da lava incandescente de tudo que havia de indomado dentro deles. E que há em cada um.
Hoje à tardinha na Feira da Livro, 18h30, haverá o lançamento do meu novo livro: "A voz que se dane", L&PM. Minissaias estão liberadas. Apareça.
Twitter - @ZPgoulart
Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br
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