
Eduardo Tessler
De Paris
O fotógrafo italiano Oliviero Toscani, autor de imagens inesquecíveis de moda e famoso por ter sido o mentor das propagandas da Benneton - que sempre mostrava alguma surpresa sem palavras - garante que conhece o povo de uma cidade logo ao sair do aeroporto.
Toscani presta atenção aos primeiros outdoors da estrada. Pela qualidade do anúncio, o estado de conservação do cartaz, o jeito em que a propaganda aparece ao público, a colagem, o acabamento, enfim, tudo faz com que o fotógrafo já possa montar em sua mente o estado cultural daquele povo.
Oliviero Toscani é experiente, aprendeu a conhecer o cidadão.
Mas há uma forma contemporânea de se entender a cabeça de um povo: o estado dos banheiros, principalmente os públicos. Banheiro sujo significa sociedade desleixada, que não dá muita atenção aos pequenos detalhes que fazem a vida ter mais prazer. Banheiro limpo é o cuidado extremo para que os visitantes sintam-se bem em um momento necessário - e incômodo - do dia.
Toscani nunca foi a um banheiro de rodoviária no Brasil. Se tivesse tido essa experiência antropológica talvez desistisse de voltar tantas vezes ao país atrás dos melhores cliques às mais lindas modelos do mundo - mesmo com outdoors maravilhosos na saída do aeroporto de Guarulhos.
Por R$ 0,50 o cidadão apertado enfrenta um cheiro nada agradável e condições abaixo da limpeza mínima necessária. Ou seja, paga e não recebe. Mas se não pagar sequer encontra algum local apropriado. E se tentar esvaziar sua bexiga em algum local público, corre o risco de acabar preso.
O turista brasileiro enfrenta a dificuldade do banheiro público em qualquer grande cidade, seja Roma, Nova York ou Londres. Alguns blogs indicam onde ir, dão dicas de banheiros confortáveis, grátis, mas inevitavelmente o viajante acaba deixando algumas moedas em banheiros fétidos, mas necessários. Banheiro limpo é necessidade. Banheiro confortável indica o grau de desenvolvimento de uma comunidade.
Em Paris a grande maioria dos banheiros é paga. Pequenos cubículos abafados que suportam o vai-e-vem de turistas nas principais vias da cidade. Mas a cidade-luz tem pelo menos um banheiro na rua, grátis e maravilhoso. Uma obra-de-arte. Um verdadeiro toilette. Fica ao lado da Igreja da Madeleine, na zona mais disputada da cidade, a poucos passos da Place de la Concorde e dos hotéis mais exclusivos do mundo. Pois o banheiro público ao lado de Madeleine vale uma visita. É sério! Um exemplo de estilo art nouveau em seu melhor estilo. No subterrâneo, iluminado pelos tijolos de vidro do piso. Com flores, decoração, azulejos originais, portas de madeira maciça.
Sim, um banheiro. O banheiro da Madeleine é a prova que o cidadão de Paris tem um bom gosto exemplar. Bom gosto que permite a cada primeiro domingo do mês o cidadão visitar seu museu preferido. Grátis. As crianças invadem os museus. Convivem com Picasso, Miró, Monet e Van Gogh, entre tantos. O bom gosto cultural é um dínamo motivador de criatividade.
Ou será que é mera coincidência o fato de que em qualquer vagão de metrô, a qualquer hora do dia, há alguém lendo um livro enquanto viaja? E saber que nas estações de metrô no subterrâneo do Museu do Louvre há obras de rara beleza? Ou se dar conta que os monumentos são fonte inspiradora de milhares de artistas que optam por Paris?
Quem nasce em Paris já sai na frente em matéria de inovação. Os outdoors estão impecáveis.
Terra Magazine