
Atualizada às 09h23 Paquito
De Salvador (BA)

Para Paulo Boa Nova e Greice Schneider
Já não me lembro exatamente quando aconteceu, mas Cássia Eller estava no auge com o disco da MTV, e veio à Salvador se apresentar na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Ela tinha gravado Vá morar com o diabo, de Riachão, canção que tinha conhecido por conta do disco do sambista que eu e J. Velloso produzimos. Foi feito um convite a Riachão para que participasse do show de Cássia, e a combinação da roqueira com o sambista deu certo, eles se afinaram no palco como se fossem amigos de longa data.
Terminada a apresentação, avisei a Lan Lan, então percussionista da banda de Cássia, que eu ainda ia fazer show naquela noite, mais tarde, no Calypso, templo do rock baiano (*). Quando cheguei ao Calypso, Álvaro Lemos, um amigo, me disse que Cássia Eller tinha estado ali mais cedo, mas o bar estava vazio - nenhum show começava pontualmente no Calypso porque o público simplesmente só começava a chegar lá pela uma da madrugada - e ela ia retornar.
Com a volta de Cássia, chegou uma entourage composta por fãs, roqueiros baianos - entre os quais, a ainda desconhecida Pitty - e afins, que jamais apareceriam se não fossem imantados pela presença de Cássia, estrela às avessas, pois não afetava glamour, e era até tímida no contato pessoal. Como era tradicional acontecer, no final da noite, iam rolar as canjas, e Cássia subiu ao palco sem que tivéssemos ensaiado nenhum número. Sugeri que cantássemos Satisfaction, dos Stones, que, além de ser um standard do rock, ela havia gravado. Ela disse que não sabia a letra, eu disse que cantaria com ela, e assim fizemos. Finalizada Satisfaction, quando olhei pra trás, já não era a minha banda que estava no palco, mas a banda da própria Cássia, ela sugeriu Come together, dos Beatles, e cantou a letra todinha, sem errar.
Depois da canja, perguntei a ela como sabia a letra inteira de Come together, mais complicada e menos conhecida que a de Satisfaction, e a resposta veio em forma de pergunta:
- Paquito, você acredita em Deus?
Nem lembro do que respondi, pelo inesperado da pergunta, e também pelo histórico um tanto atribulado das minhas relações com este ser controverso, mas Cássia continuou:
- Beatles, pra mim, é Deus!
Não esperava que os Beatles tivessem tanta importância assim pra Cássia Eller e, pelas circunstâncias dessa história, bem mais que os Stones, mas gostei. Não é segredo a minha predileção pelos Beatles, sobre os quais já escrevi tantas colunas aqui em Terra Magazine.
O mais comum, no entanto, quando se fala de Beatles, é enaltecer a sua discografia a partir do Rubber soul - quando passaram a ser mais inteirados - e desdenhar um tanto da chamada fase inicial, mais juvenil, a dos "yeahs, yeahs, yeahs" que, abrasileirados, deram o título, em português, ao disco/filme que representou a conquista da civilização ocidental pelos Beatles: Os reis do iê iê iê , de 1964; em inglês, A hard day´s night.
Pois eu adoro esse momento da trajetória dos Beatles: She loves you é uma das minhas canções preferidas. A melodia é linda, e a interpretação vibrante dos Fab four vai num crescendo até atingir o êxtase com o refrão, pleno em positividade, dos "yeahs".
O nome "iê iê iê", no Brasil, acabou, por associação, dando nome também à música que fazia a Jovem Guarda, capitaneada por Roberto Carlos, e era um nome novo para se denominar o rock & roll, egresso dos anos cinqüenta, mas com fôlego novo a partir da década de sessenta. O tempo passou, e "iê iê iê", pelo alcance popular e ligação com o que veio, mais tarde, a ser chamado de brega, ficou com pecha de cafona, ultrapassado.
Por isso é bacana que Arnaldo Antunes, tantos anos depois, tenha dado a seu Cd novo o título de Iê iê iê, ressaltando, nos timbres, aqueles mesmos usados nas gravações da Jovem Guarda - como aquele típico som do órgão de Lafayette, organista que gravava com Roberto - que compõem um universo familiar e afetivo que, talvez por isso mesmo, sempre foram execrados pelos adeptos do bom-gosto.
O Kid Abelha, é oportuno lembrar, lançou em 1993 um disco com o título de Iê iê iê, também. Eles e Arnaldo sabem, assim como Cássia sabia, o quanto devemos àquele momento inaugural e original do rock no Brasil. Entre tantos "yeahs", como dizia o poeta, "coragem grande é poder dizer sim".
(*)Templo é maneira de dizer, pois o Calypso era um inferninho lendário no bairro do Rio Vermelho, cujo palco ficava na frente do bar. Quem quisesse consumir, portanto, tinha que passar pelos músicos em plena atividade. Na Bahia é assim, casa onde se toca rock tem nome de ritmo latino-americano, Calypso, e no Rock in Rio café, que tem "rock" no nome, reinava mesmo o pagode.
Terra Magazine