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Quinta, 5 de novembro de 2009, 08h01 Atualizada às 16h32

Para celebrar o Dia Nacional da Cultura

Ceci Alves
Salvador (BA)

Pobre do Dia Nacional da Cultura, festejado hoje, 5 de novembro. Sua celebração ficou inadvertidamente espremida entre fatos mais imponderáveis e marcantes do que discutir as conquistas desta pasta que, finalmente, consegue ganhar fôlego de assunto de importância para os caminhos do País. Nesta semana, além do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss - um dos 'descobridores' intelectuais do Brasil -, e do eterno inventor do samba-reggae baiano, o percussionista Neguinho do Samba, morreram, na Bahia, o apresentador de TV Jorge Pedra, vítima de homofobia, e o último remanescente da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950, o zagueiro Juvenal Amarijo, por complicações causadas pelo abandono.

Longe de colocar estas pessoas e seus passamentos no mesmo balaio - apesar de todos eles, em seus devidos domínios, terem causado similar comoção -, as duas mortes citadas em particular nos chamam à realidade de um País que não pode desenvolver uma sã discussão sobre cultura enquanto a sociedade ainda estiver sendo devorada silenciosamente pelos cânceres da intolerância e da falta de memória.

Por uma traquinagem do destino, estas mortes e, principalmente, suas causas, jogam sobre si luz na mesma semana em que se deveria comemorar, via uma data institucionalizada, um dos processos mais democráticos de ação e pensamento da Cultura das últimas gerações: a proposta de uma política cultural que proponha a continuidade e que permita um maior acesso aos produtores, gestores e público (tudo isso, pelo menos, está na repisada carta de intenções do Ministério da Cultura).

Mas, nenhum debate cultural pode ser seriamente instaurado enquanto os pesos da intolerância e da amnésia insistirem em desequilibrar a balança. Como lembrar da votação do Plano Nacional de Cultura, que está a um passo de ir ao Senado, quando ainda se morre por homofobia num País que ocupa o incômodo e inaceitável primeiro lugar em crimes contra homossexuais no mundo? Em 2008, 190 homossexuais foram assassinados no Brasil. Um a cada dois dias.

O jornalista baiano Jorge Pedra foi estripado como um porco no quarto de um hotel miserável e entrou para as estatísticas como o 19º homossexual morto no Estado da Bahia este ano. E têm piores: o Paraná está à frente, com 20 assassinatos brutais por homofobia. Claro que, aqui, se está enxugando de juízos de valor este assunto-faca-de-dois-gumes: afinal, não deixa de ser suicida brincar de roleta-russa com garotos de programa prontos para tudo, como fazia instantemente Jorge Pedra.


O apresentador Jorge Pedra

Mas, não será que os programas politicamente corretos de Cultura GLTB, apesar de serem um bem intencionado começo, dão conta de uma arraigada estrutura de preconceito que até hoje exila na categoria de 'minoria' os que têm a orientação sexual diferente do masculino/feminino?

Como falar impunemente da PEC 150/2003 - a qual determina que anualmente 2% do orçamento federal, 1,5% dos estados e 1% dos municípios, advindos de receitas resultantes de impostos, sejam aplicados diretamente em Cultura, aumentando o orçamento da Cultura para o 1% aceitável pela Unesco -, se a memória da nação ainda mata suas personalidades antes que a morte propriamente dita se ocupe disso?

O gaúcho Juvenal Amarijo, ex-defensor da Seleção Brasileira em 50 (Copa em que o Brasil perdeu o título por 2 a 1 na 'partida-calamidade' que ficou conhecida com Maracanazo), vivia na penúria num casebre em Camaçari, município da Região Metropolitana de Salvador, carcomido por uma artrose no joelho, à qual não tinha condições financeiras de cuidar.

Tentou-se resgatá-lo, numa ação, claro, televisionada, e dar-lhe uma sobrevida. Mas, em vão: seu problema de saúde já irremediavelmente ia longe, graças aos anos e anos em que foi relegado ao ponto cego da memória nacional que, enquanto ele padecia, festejava suas vitórias futebolísticas, na sociedade do espetáculo. No País do futebol, que será sede da Copa do Mundo de 2014, antigos heróis nacionais viram bagaços de cana na memória cultural da nação.

Assim, longe de ter desfocado o Dia Nacional da Cultura, estas mortes servem para dimensionar a efeméride não como uma data executiva, como seria do gosto do Ministério da Cultura, mas como um momento de reflexão, onde se pode ponderar em que medida a cultura do brasileiro precisa ser mudada para que a Cultura, com C maiúsculo, possa ser discutida sem tropeços tão abissais.


Ceci Alves, é cineasta e jornalista. Atualmente faz mestrado em Cultura e Sociedade - linha de pesquisa Cultura e Identidade, na Universidade Federal da Bahia.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.


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