
Thomas L. Friedman
Do The New York Times
Em 2003, eu estava em uma viagem para o Iraque e havia providenciado um encontro na Zona Verde com um membro do então Conselho de Governo do Iraque. A segurança era severa. Estava com meu tradutor iraquiano, um homem de meia-idade que já foi professor no passado. Quando chegamos ao conselho, após uma longa caminhada, mostrei minha identidade a dois jovens soldados dos Estados Unidos, que estavam uniformizados. Então, pediram-me para esperar, entrei e saiu um homem vestindo roupas civis, um daqueles coletes de pescaria e um chapéu australiano.
Ele nunca se identificou adequadamente, mas estava óbvio que ele era um "prestador de serviços civil" pelo logotipo na sua camisa. Quando tentei explicar porque estávamos ali, ele literalmente me disse para calar a minha boca até que me dissessem para falar. Então, ele disse ao meu tradutor iraquiano para sentar no calor escaldante enquanto ele me escoltava - o americano - para dentro para ver se o nosso entrevistado iraquiano estava disponível. Preciso admitir: tanto meu tradutor quanto eu queríamos, realmente, apenas nocauteá-lo. Mas continuei pensando comigo: "A quem este cara responde? Se eu der um murro na cara dele e ele vier atrás de mim, para quem eu reclamo?".
Este foi o meu primeiro encontro com um dos muitos seguranças particulares, prestadores de serviço e trabalhadores de ajuda humanitária - também conhecidos como fornecedores civis - que, desde então, se tornaram parte integrante dos esforços de guerra dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Alguns foram utilizados até em Abu Ghraib para realizar "interrogatórios avançados" - também conhecidos como tortura - de terroristas suspeitos. Hoje, não há operação sensível demais que não possa ser terceirizada para o setor privado.
Enquanto debatemos quantas tropas mais enviar para o Afeganistão, pode ser uma boa hora para também debatermos o quão longe já fomos ao contratar fornecedores privados para executar trabalhos que o Departamento de Estado, o Pentágono e a CIA uma vez faziam por conta própria. Um bom lugar para começar é com o novo livro de Allison Stranger, professor de Middlebury College, sobre este assunto, intitulado One Nation Under Contract: The Outsourcing of American Power and the Future of Foreign Policy (Uma nação sob contrato: a terceirização do poder americano e o futuro da política externa).
A cada ano, mais dos negócios centrais da segurança nacional "diplomacia, desenvolvimento, defesa e até o serviço de informações está sendo passado para as mãos de fornecedores privados - muito mais do que nosso povo percebe", disse-me Stranger. Uma grande razão de porque temos conseguido lutar as guerras no Afeganistão e no Iraque com tão poucos aliados é que, basicamente, contratamos a ajuda.
"O Afeganistão e o Iraque", explicou Stranger, "são as nossas primeiras guerras com fornecedores, que diferem de intervenções anteriores na sua confiança sem precedentes no setor privado para todos os aspectos de sua execução". De acordo com o Serviço de Pesquisa do Congresso, os fornecedores, em 2009, responderam por 48% da força de trabalho do Departamento de Defesa no Iraque e 57% no Afeganistão. O Pentágono não é a única entidade governamental implementando fornecedores; o Departamento de Estado e a Usaid (Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento internacional) também fazem amplo uso deles.
Os fornecedores oferecem segurança para pessoal e locais importantes, incluindo nossas embaixadas; alimentam, vestem e abrigam nossas tropas; treinam unidades de polícia e as forças armadas; e até supervisionam outros fornecedores. Sem uma força multinacional de fornecedores para preencher a lacuna, precisaríamos de um alistamento militar para executar estas duas intervenções".
Ou então precisaríamos de aliados reais.
Não sou contra terceirização, melhorar a eficiência do governo ou contratar as melhores pessoas para realizar tarefas especializadas. Mas caímos em um padrão de terceirizar algumas das tarefas mais essenciais do governo - investigação, segurança, promoção da democracia. Enquanto mais e mais deste trabalho do governo passa a ser contratado e, então, subcontratado - ou como Stranger coloca, "quando o dinheiro e as instruções trocam de mão diversas vezes em um país estrangeiro" - o interesse público pode se perder e o abuso e a corrupção são convidados a entrar. Estamos também construindo um "complexo industrial de fornecedores" em Washington que possui um interesse econômico em expedições no exterior. Não faz com que isso seja errado; faz com que você queira estar atento.
Em 2008, observa Stranger, aproximadamente 80% do orçamento requisitado do Departamento de Estado foi porta afora na forma de contratos e concessões. O principal fornecedor de apoio das forças armadas no Iraque, a KBR, supostamente possui 17 mil funcionários diretos lá.
Agora, as forças armadas dos Estados Unidos estão propondo um enorme projeto de construção de nação para o Afeganistão, de forma a substituir seu governo problemático por um estado que possa estar presente para o povo afegão, de forma que ele não se alie aos talibãs. Eu poderia estar mais aberto a este projeto se tivéssemos uma verdadeira aliança global para dividir a responsabilidade de um esforço que levará décadas. Mas não temos. Os europeus não encaram esta guerra com bons olhos, e nossos aliados apenas fornecerão tropas suficientes para ter o seu "Cartão de Aliado Norte-Americano Frequente" oficial renovado. Nós completaremos a diferença contratando fornecedores privados.
O governo pode operar de forma mais eficiente com fornecedores privados. E a terceirização pode, com frequência, oferecer inovação verdadeira, especialmente no desenvolvimento econômico. Apesar disso, eu sou antiquado: Quando os Estados Unidos estão agindo no exterior, prefiro que nossos serviços públicos sejam oferecidos, o máximo possível, por servidores públicos especialistas e motivados pelo bom e simples patriotismo comum - sem lucros ou ambições particulares.
Terra Magazine