
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Juro que não estou criticando, só constatando e tentando explicar. Os fatos que comento, como o leitor verá, são pequenos gatos, questiúnculas que escapam ao mais atento escrevinhador, e que fazem a delícia dos caçadores de erros, dos que, encontrando-os em textos de autores bastante letrados, ao invés de reconhecerem que as coisas (no caso, a língua) estão mudando, ou, pelo menos, que há mais coisas entre o céu e a terra do que seu manualzinho de bem escrever, berram que agora nem mesmo os intelectuais sabem nossa língua.
Aos dados, pois. Num texto de Pondé, colunista da Folha que escreve às segundas-feiras, encontrei a passagem "mande ele ou ela elencar a lista de 'valores' que julga certa (não vale coisas do tipo 'não matarás' porque essa idéia é de Moisés)". O probleminha estaria na sequência de pronomes ("ele ou ela"), que os defensores da pureza linguística diriam que não deve ocorrer. Em seu lugar deveria estar um pronome oblíquo: a forma deveria ser "mande-o ou mande-a". Dentre os vários fatores que determinaram a construção deve estar o fato de que Pondé não poderia escrever "mande-o ou a". Teria que repetir o verbo... Além disso, o pronome está numa posição em que pode ser tomado como objeto de "mandar" ou como sujeito de "elencar". A tradição aceita a forma oblíqua (mande-o elencar). É a mesma que acha o fim da picada que "mim" esteja numa posição análoga em "livro para mim ler"... (os ilustres não se dão conta disso, claro, porque os temas não estão tratados na mesma página no seu pequeno almanaque).
Mas vejam este outro pequeno gato do mesmo autor: "Quando muito os pais vêem os filhos à noite. Só não terceirizam os filhos quem não tem dinheiro ou mulheres sem inquietações profissionais ou libertárias...". O verbo "terceirizam" sai por conta da presença de 'os pais" na oração anterior (aposto meu Mattoso). O autor se deixa "enganar", porque, segundo os sábios de almanaque (estou me repetindo demais), o verbo deveria concordar com "quem não tem dinheiro e...". Também pode ser que ele tenha escrito "os que não têm" e depois tenha decidido mudar para "quem não tem", esquecendo o restante.
Já o ombudsman (18/10/2009) caiu na armadilha - que a cada dia se impõe a mais gente - do verbo "tratar", e escreveu "ou se tratavam de uns completos trapalhões". Concordando o verbo com o objeto, hein, seu ombudsman! (E um objeto indireto, além do mais!)
Já a repórter Janaína Lage, não querendo cair na armadilha de empregar um "lhe" que muita gente corrige porque tem substituído objetos diretos, decidiu radicalizar e mandou a seguinte construção (FSP, 27/10): "Juanita deixou Cuba em 1964, após Raúl tê-la dito que suas atividades haviam sido descobertas". Aqui, "ter-lhe" estaria de acordo com o estilo do restante do texto. Certamente ela quis evitar construções como "vim convidar-lhe para minha formatura". É um caso sensacional de hipercorreção. Até parece inventado para mostrar versões radicais do fenômeno.
Quem fornece a garantia de que não se trata de invenção de professor é o mesmo Pondé (puxa, hoje ele alimentou minha coluna!!) que, em 02/11/2009 escreveu, falando de Obama (que ele acha o fim da picada): "Acho que mesmo sua mãe deve ter lamentado tê-lo dado de mamar". "Ter-lhe", Luiz Felipe, "ter-lhe"! "Lhe" em vez de "lo" passa, é para onde a língua está indo, mas "lo" em vez de "lhe" é só um equívoco, devido ao esforço excessivo para ser correto.
Insisto: não estou me divertindo com esses dados (isso é coisa dos que acham que falar "pra mim ler" é coisa de índio, em sua pretensa - e pouca - sabedoria gramatical). Anoto-os e os ofereço ao leitor como amostras, como indícios de que a língua está sempre em mudança. Ela muda diante de nós.
Os dados que anotei não são erros - no sentido corrente (talvez as hipercorreções possam ser assim classificadas). São construções que denunciam os movimentos da língua, que, às vezes, se perde um pouco por excesso de esforço para acertar de alguns de seus usuários. Coisa perfeitamente normal. E que ocorre em todos os campos da atividade humana.
Terra Magazine