
Atualizada às 09h50 |
TV Globo/Divulgação
O colunista Paulo Costa Lima comenta declaração do apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, sobre a "doutrinação" nas universidades
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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
"Eu tenho dito nas palestras que é lamentável, sobretudo nas escolas públicas de comunicação, e nas humanidades em geral... em fazer uma espécie de doutrinação de esquerda nas pessoas que estão ali, em desrespeito a uma filosofia mais abrangente que é a filosofia da universidade, o universo do conhecimento..."
Ainda repercute na internet a entrevista do editor-chefe do maior jornal televisivo do País, e o que todos mais comentam é a surpresa de vê-lo, em geral compenetrado de sua função, fazendo gracejos e imitações em resposta a provocações da hábil entrevistadora...
Ponto alto: palhinha de New York, New York... (não é que ele poderia ser cantor!). A entrevista foi bem bolada, o ambiente parecia natural e até neutro, fazendo a gente esquecer que tudo acontecia "de dentro" da própria emissora. Marília registrava rindo a seriedade quase sisuda do entrevistado - bom profissional, bom marido, bom pai, bom cidadão... -, e até espantava antigos miasmas com as tais chamadas cômicas. A estratégia deu certo.
Só que lá pelas tantas, ele desembocou no discurso transcrito no início desta coluna, pontificando sobre as premissas filosóficas da formação universitária. Um terreno provavelmente pouco familiar.
Ninguém pode questionar o direito de externar incômodos, ou de apontar problemas na contratação de jovens profissionais. Muito menos, o direito de discutir a formação universitária brasileira, da qual nosso futuro depende. Interesse e críticas são bem-vindos. Essa não é a questão.
A questão é a utilização de conceitos ralos e de um rótulo pantanoso como "doutrinação de esquerda". Como discutir se isso é verdade ou não sem a definição dos termos? O que é mesmo direita hoje, ou esquerda? Não que não existam diferenças, muito pelo (ao) contrário - mas jogar o assunto assim sem cuidado é investir na confusão ou nas idéias pré-formadas.
Além disso, é muito fácil tachar a universidade pública brasileira de esquerdizante - afinal, poucos cumpriram o árduo papel de se posicionar historicamente contra a ditadura e a repressão de direita - inclusive ao arrepio de boa parte da mídia. A quem caberia a tarefa e o desafio de elaborar modelos pensantes em prol de uma visão autônoma de nós mesmos e do futuro?
Difícil imaginar gigantes das humanidades na USP - universidade onde o entrevistado estudou (na ECA) -, tais como Marilena Chauí, Florestan Fernandes, Milton Santos, Boris Fausto, José Arthur Giannotti, Antonio Cândido, todos eles preocupados com a capacidade crítica da universidade brasileira e com as marcas de qualidade, contribuindo para um modelo de doutrinação esquerdizante. Definitivamente, não foi isso que construíram...
Portanto, simplificar tudo a partir de um rótulo pode ter efeitos desastrosos. O que dizer do maior conglomerado de comunicação do País - quantos rótulos já atraiu para si ao longo dos anos? O episódio leva a pensar se a editoria do jornal também trabalha com esse tipo de reducionismo - já que entrevistado e editor habitam a mesma cabeça?
Ora, o papel de doutrinação de pessoas não é compatível com a função universidade. Em todo o mundo, e também no Brasil, é muito mais comum identificar doutrinação em produtos da cultura televisiva. Se há doutrinação não há universidade, pois a função universidade depende justamente do esforço de construção de visão crítica - especialmente numa sociedade tão desigual como a nossa.
Se as universidades públicas estão porventura falhando na construção de visão crítica, estão falhando em sua missão central. Daí, a gravidade do pseudo-diagnóstico¹, que acaba obliterando um tema muito necessário -
o garimpo de atitudes e modelos que apontem para a construção de autonomia e emancipação, num mundo que já não dispõe de credibilidade para os tradicionais grandes relatos, embora os problemas que deram origem a tais relatos tenham permanecido e até se agravado.
Só que, para apontar problemas dessa ordem, o entrevistado deveria estar bem mais preparado do que demonstrou - simplesmente não é assunto para observações en passant -, pois dele também se espera, e com todo direito, visão crítica argumentativa, ao invés de rótulo fácil e, diriam alguns, doutrinação de direita.
¹ Vale lembrar que os indicadores de eficácia até o momento são positivos e diferenciados com relação às universidades públicas.
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