
Atualizada às 15h08 Marcelo Carneiro da Cunha
de São Paulo
Estimados leitores, pois aqui estou de regresso. Nem a cerveja Solera Verde, nem o clima caribenho, nem as seduções de um mundo regado a rum Aniversário foram capazes de me manter longe da nossa terra de palmeiras onde canta o sabiá. Voltei.
E, estimados leitores, em uma semana de muitas e muitas conversas com venezuelanos de todos os cantos da sociedade, do bairro lindérrimo de Altamira até a favela de Petare, o tema foi sempre o mesmo e as pessoas falaram única e exclusivamente da sua sensação de estar vivendo em um mundo de ficção, onde discurso oficial e realidade viviam distantes um do outro, com a realidade se tornando mais e mais insuportável para quem gosta de sanidade como referência de vida.
Eu estava sendo dos mais diplomáticos, coisa fácil quando a gente sabe que vai encontrar um copo de Aniversário geladinho no fim do dia. Queria promover a paz e a compreensão entre os nossos povos e distribuir noções de como criar ficção, no seminário que fui conduzir. Não deu. A ficção produzida pelo governo era muito melhor do que a minha e muito pior para eles. Eu estava sinceramente tentando relativizar tudo, dizendo que o que eu via ao redor era "interessante", a palavra mágica para quem não quer se meter em encrenca, quando um dos participantes, um senhor amável e de cabelos brancos, me disse que "o que parecia interessante para mim, era uma tragédia para eles".
Desmontei, e naquela noite ao menos, bebi o maravilhoso Aniversário por outros motivos. Existe alguma coisa nesse neto da minha avó Jovita que treme quando vê uma injustiça, um povo sofrendo, um senhor que enche os olhos de lágrimas ao falar do que vê acontecer ao país que ama. Doeu, me senti fútil na minha diplomacia de quem sai rapidinho dali na hora que quiser. Desejei compreender melhor e explicar o que eu conseguisse compreender aos meus estimados leitores no Brasil, para que sentissem talvez o que eu sinto, e juntos possamos, algum dia, fazer algo de melhor pelos nossos vizinhos queridos que vivem acima do equador e tiveram o seu país tomado por métodos democráticos na forma, autoritários no conteúdo, como acontece tanto acontecer nesse mundo.
A minha querida avó Jovita foi, na verdade, a minha mestra nos procedimentos que separam a democracia do resto. Na casa de vovó havia a eleição diária que decidia o programa de tevê que iríamos assistir. Pequeno observador, comecei a notar que a eleição costumava ser decidida na base dos doces com que minha avó comprava o voto da maioria necessária. E, nos raros casos que a nossa articulação funcionava e ganhava o National Kid ou outra maravilha produzida no Japão, curiosamente, o canal saía do ar e sobrava apenas o da novela que minha avó nunca perdia e nunca perdeu. Pois não precisei de mais do que uns minutos em Caracas para perceber que a minha avó Jovita tinha servido de consultora política na República Bolivariana da Venezuela!
Já no aeroporto, na chegada, o que sentiriam meus milhares de leitores se dessem de cara, quatro da manhã minha gente - com uma enorme foto do Hugo Chávez com um aparelho de celular bluetooth parecendo um estranho operador de telemarketing - nos informando que a Venezuela já tinha se libertado, e para sempre. De quem mesmo? Ou no metrô, um cartaz oficial com o texto "Comandante Chávez nos conduz ao socialismo". Ou muros pintados com a logomarca de um ministério, portanto coisa oficial, dizendo "Pátria e Socialismo, ou Morte". Morte? Alguém aí falou em Morte? A sério?
Em que tipo de mundo bizarro e ridículo vive essa gente, minha gente? Em um lugar onde a cerveja é sempre geladissima, o mar é sempre quentíssimo e transparentissimo, e o rum é Aniversário, quem quer falar de morte?
Como você se sentiria, estimado leitor, se um partido no governo resolvesse que a partir de agora o seu país passa a ser defensor de um tal de incompreensível bolivarianismo, e então torra o precioso petróleo de que sua pobre nação é rica para que potências como a Bolívia, o Equador, Cuba e a Nicarágua formem um novo conglomerado de nações com a firme disposição de derrubar os Estados Unidos? E então o presidente do seu país faz alianças estratégicas com países como a Rússia e o Irã? E ainda além de torrar o petróleo torra a sua paciência gastando SEIS horas aos domingos falando para que todos escutem, em todos os canais, obrigados a reproduzir essa chateação em rede nacional?
Eu, leitores, fiz meu aprendizado de ditabranda com a minha avó e fiz a especialização com a outra ditadura que veio logo em seguida. Eu SEI como é humilhante e frustrante a gente ver o nosso país, algo feito para ser de todo mundo, ser ocupado e tomado de nós por um grupo, com seus interesses nada inclusivos - e em geral cobertos por discursos de um altruísmo inebriante. Eu conheço bem a retórica que serve de camuflagem para o sequestro da nossa nação e de nosso direito a uma vida digna para todos. Conheço o discurso populista que vem para defender aos pobres e oprime a quem estiver por perto.
E vi tudo isso por lá, ao redor, por todo lado, em todas, quase todas, as falas que ouvi. É fácil substituir estratégia, visão, ações de um governo real, por demagogia de governo irreal. É relativamente simples oprimir um país por um certo tempo. E é duro conviver com isso, mesmo que por uns dias.
O nosso governo diz que a Venezuela cumpre com as exigências democráticas do Mercosul, o que é natural que diga e eu entendo. Mas eu não sou governo. Sou neto da minha avó Jovita e um colunista que leva a sério o seu trabalho, quando não está bebendo rum Aniversário.
Se formos todos Mercosul, teremos mais chances de interferir e, quem sabe, ajudar. Hoje, somos uma referência para eles. TODOS me perguntavam do Lula com admiração, falavam do Brasil com respeito e alguma esperança. Nós fizemos o contrário deles. Fortalecemos nossas instituições e soubemos eleger um estadista. Sorte a nossa, mesmo que o nosso ex-presidente FHC e a Veja não estejam tão de acordo.
É duro vermos um país belo, de pessoas que se parecem muito conosco, sendo desmontado na sua economia e na sua linguagem política. Eu acredito que quanto mais soubermos, mais compreendermos, mais poderemos ajudar. A todos nós em geral, e a um senhor venezuelano de cabelos brancos em particular, um brinde com o Aniversário que me resta, e até a próxima.
Terra Magazine
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Marcelo Casal Jr./Agência Brasil
Presidente da Venezuela, Hugo Chávez
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