
Atualizada às 16h48 Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)

Jean-François Dusigne e a força das máscaras
Foto Gláucia Rodrigues
Em março de 2008, recém-chegada de Paris, descobri - graças a Fernando Mencarelli - o Encontro Mundial de Artes Cênicas - ECUM que, na ocasião, completava dez anos. Ao longo desses anos, graças ao trabalho de Guilherme Marques e sua equipe, um mundo de gente boa passou por Belo Horizonte, compartilhando, em workshops, palestras e debates, a paixão e o conhecimento sobre a tradição e atualidade do teatro. A descoberta foi tão boa que acabei entrando para a turma e assumindo as relações internacionais de um projeto apaixonante, um novo braço do ECUM: o Centro Internacional de Formação e Pesquisa em Artes Cênicas. A "estreia" aconteceu na capital mineira, dia 26 de outubro, como parte das comemorações do Ano da França no Brasil, reunindo durante uma semana alguns dos mais importantes pesquisadores/artistas/pedagogos franceses da área para ministrar quatro oficinas para cerca de 100 artistas, profissionais e estudantes, vindos de 11 Estados brasileiros. Voltei de BH com a sensação de que ali se iniciava uma bela aventura e que havíamos começado a escrever uma história.

Alexandre Del Peruggia
Foto Gláucia Rodrigues
Entre os pioneiros do projeto encontram-se Béatrice Picon-Vallin, diretora do Laboratório de Pesquisas sobre as Artes do Espetáculo do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e Jean-François Dusigne, professor em Artes do espetáculo e etnocenologia na Universidade Paris 8. Com Ana Teixeira, diretora do Amok, sediado no Rio, e Fernando Mencarelli, professor do Departamento de Artes cênicas da UFMG eles elaboraram o plano pedagógico que visa o ator, em busca de um aprofundamento da questão da formação, um verdadeiro "mergulho no que seria a tradição do ator, em tradições do passado, para poder confrontá-las ao ator de hoje e à cena de hoje, fazendo um vai e vem", nas palavras de Ana Teixeira.

Balagan, a oficina de Ph. Goudard e B. Picon-Vallin
Foto Gláucia Rodrigues
Para o pontapé inicial a equipe foi escolhida a dedo: Béatrice Picon-Vallin e Philippe Goudard elaboraram o curso chamado "Balagan", que em russo significa "barraca de feira", e deu origem a um verbo que significa "fazer o palhaço", sendo portanto o clown o centro das atenções. Claire Heggen preparou o curso "A teatralidade do movimento", tema sobre o qual a pesquisadora francesa - discípula de Etienne Decroux - se debruça há cerca de 30 anos. Claire Arnaud-Dusigne e Jean-François Dusigne prepararam a oficina "Atuar o Íntimo a Céu Aberto", baseados em três grandes textos: Hamlet, de Shakespeare A Gaivota, de Tchekhov e As Coéforas, de Ésquilo, para exercícios de experimentação no palco. Alexandre Del Peruggia trabalhou as relações do artista com o palco através da oficina "O jogador - A presença do intérprete e o espaço do palco" na qual ele partia de exercícios lúdicos ou de sensações corporais para fazer proposições criadoras. Nas palavras de Ana Teixeira, as oficinas "buscam lançar uma pesquisa mais profunda, que busca aproximar prática e reflexão. Não são coisas distanciadas. Nem os criadores devem trabalhar sem que haja uma reflexão sobre o que se faz nem o pesquisador deve trabalhar sem a prática."

Claire Heggen, maga do teatro do movimento
Foto Gláucia Rodrigues
Foram dias de muito trabalho, de uma atividade sem fim, de muitos encontros e alguns desencontros, de uma experiência profissional única ao lado de uma equipe que bateu um bolão - Guilherme, Menca, Ana, Fernanda, Vânia, Marcella, Luciana, Isadora, Taquinho, Clerinha e euzinha - com o apoio da Béatrice, do Philippe, do Alexandre, da Claire Heggen, da Claire Dusigne, do Jean-François e a torcida do Arthur e da Jô...e a turma dos tradutores: Maria, Marco, Mimi e Suzanne... Dias de muita reflexão...dias de ouvir os alunos questionarem tudo o que haviam aprendido até o momento e mesmo uma professora da UFMG dizer textualmente ao Menca que eles precisavam rever todo o programa do curso. Sobrava emoção e energia, mas faltava a alguns alunos - as oficinas foram totalmente gratuitas - o engajamento necessário. O processo de seleção deverá ser ainda mais rigoroso... Como se tudo isso não bastasse essazinha aqui ainda foi muito paparicada... Claire Heggen me trouxe uma caixa de bombons de cereja, dessas de tirar o fôlego de uma gastroplastizada. Béatrice Picon-Vallin me trouxe vários presentes maravilhosos - mas destaco o DVD "Feiticeiro da cena", filme de Miruna Coca-Cozma feito para a televisão Suíça que conta a trajetória do Omar Porras e o livro recém-lançado por ela sobre Ariane Mnouchkine para a coleção Mettre em scène da Actes Sud... E, last but not least, as mãos de Jean-François Dusigne foram portadoras de um cadeau enviado pelo Théâtre du Soleil, o DVD de Les Éphemères, belo estojo com quatro DVDs do espetáculo apresentado em 2007 no Brasil. Detalhe dos detalhes: o mesmo ainda não se encontra à venda na França. Muito menos no Brasil. Morram de inveja:)
Para quem não pode estar pelas Alterosas aconselho uma visita ao blog do evento http://ecum.wordpress.com e deixo a dica: fiquem ligados porque ano que vem tem mais...e se Deus quiser estarei por lá...
Seminário Malraux em Salvador

André Malraux, um dos meus ídolos
Foto 1 Yousuf Karsh/ Foto 2 Bill Ray
Uma parceira entre o SCAC de Salvador, Antena de Recife, leia-se Irène Kirsch; a SECULT, leia-se Márcio Meirelles e, nesse caso específico, Monique Badaró - Relações internacionais e o Ministério da Cultura e da Comunicação da França, graças ao auxílio luxuoso de Marie-Frédérique BERGEAUD, adjunta ao Chefe do Departamento das relações européias e internacionais - marca um ponto importantíssimo nesse finalzinho de Ano da França no Brasil ao trazer para Salvador o Séminaire Malraux, fazendo da capital soteropolitana uma das duas únicas cidades, a outra foi Porto Alegre, contempladas com o evento.
Para os que não conhecem a figura, André Malraux foi, de certa forma, o criador da política cultural, tal como conhecemos hoje, no mundo. Primeiro ministro da Cultura na França nomeado por Charles De Gaulle, que criou especialmente para ele o cargo em 1959 e no qual permaneceu até 1968. Além disso, Malraux foi romancista, ensaísta, aviador, resistente ao fascismo, aventureiro, amante, colecionador e crítico de arte.
A França criou os Séminaires Malraux como resposta aos interesses de outros países em conhecer a experiência cultural francesa. Esses encontros entre profissionais promovem, juntamente com o país anfitrião, uma reflexão sobre os mais variados temas da cultura: organização e missão do Ministério da Cultura, financiamento público da cultura, descentralização e desconcentração da cultura, capacitação na área de gestão da cultura, apoio à produção artística, organização de museus, proteção do patrimônio, legislação cultural e sistemas de apoio às indústrias culturais. Foram realizados, desde sua criação, em 1994, 61 encontros em 44 países.
Na Bahia, o Séminaire Malraux Economia da Cultura e as Políticas de Apoio às Indústrias Culturais, acontece nos dias 9 e 10 de novembro sob a organização da Secretaria de Cultura e conta com a presença de especialistas franceses e brasileiros de alto nível.
Representando a França, Philippe Chantepie, professor de economia e de indústrias culturais na Universidade Paris II-Sorbonne e no Instituto de Estudos Políticos de Paris, dirige o Departamento de estudos, prospectivas e estatísticas, do Ministério da Cultura e Comunicação. Chantepie falará das políticas econômicas das indústrias culturais na era digital. Patrick Olivier, professor na Universidade Paris-Dauphine e responsável pelo Serviço de Inspeção Geral do Ministério da Cultura e da Comunicação, falará sobre as políticas de fomento ao audiovisual e Sylvie Octobre que estuda práticas culturais e dirige pesquisas no Ministério da Cultura, abordará o tema do desenvolvimento das indústrias e das práticas culturais.
Representando o Brasil, Carlos Paiva apresentará uma palestra sobre a economia da cultura na Bahia e Ana Carla Fonseca as estratégias de desenvolvimento da economia da cultura.
Serviço:
Séminaire Malraux na Bahia
Economia da Cultura e as Políticas de Apoio às Indústrias Culturais
09 e 10.11, 9h às 18h, Auditório do SEBRAE
Rua Horácio Cezar, nº 64 - Dois de Julho, Salvador (71) 3320-4427/4367/4404
O Modelo de Produção do Théâtre du Soleil

Soleil, ética e estética muito além da rima
Fotos Deolinda Vilhena, Michèle Laurent e Sophie Préveyraud
Foi na noite de São João, em casa de meu amigo Armindo Bião, que Raimundo Leão se deixou levar pela minha paixão sobre o Théâtre du Soleil. Nasceu ali a ideia de um bate-papo sobre o modelo de produção do Théâtre du Soleil. O tempo passa, o tempo voa, o Bamerindus até faliu e cá estou nas terras do Senhor do Bonfim para dividir, com quem quiser se juntar aos bons na Sala da Cena na Faculdade Social, lá em Ondina para falar dessa que é, sem dúvida alguma, uma das maiores aventuras teatrais do século XX e que, ao final da primeira década do século XXI ainda arrebata almas e corações.
Os meus 17 leitores já sabem que o Théâtre du Soleil é a mais importante companhia de teatro da França, em atividade ininterrupta há 45 anos, precursora e não herdeira do movimento de Maio de 68, onde não existe a figura do primeiro ator e a divisão de tarefas é cláusula de um contrato moral, na qual trabalham cerca de 80 pessoas, de 35 nacionalidades, falando cerca de 25 línguas, recebendo todas o mesmo e parco salário.
Sabem também que o Soleil foi fundado em 29 de maio de 1964, por um grupo de amigos reunidos em torno de Ariane Mnouchkine, como uma Sociedade Cooperativa Operária de Produção, ou seja, uma empresa coletiva baseada na associação voluntária de pessoas dispostas a exercer uma atividade econômica que responda às necessidades do grupo, cuja gestão é feita por todos os membros e os lucros são divididos equitativamente.
Sabem mais ainda, pois sabem que para Mnouchkine não se pode separar o teatro da forma como ele é produzido, logo, explica-se a cooperativa como alternativa à forma de organização econômica e social e como forma de questionamento ao modelo capitalista.
Os que não sabem disso tudo, e mesmo aqueles que confundem o Théâtre du Soleil com o Cirque du Soleil, suprema heresia, venham conversar com essa que vos escreve e que é misto de jornalista e produtora teatral, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle com tese sobre o modelo de produção do Théâtre du Soleil dirigida por Jean-Pierre Ryngaert.
Atualmente, sou bolsista da FAPESP, e realizo meu pós-doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, tendo Sílvia Fernandes como tutora, um luxo! Sou também professora-conferencista do Departamento de Artes Cênicas da mesma escola, onde, nesse momento estou em processo de implementação da disciplina Produção teatral. Em dezembro próximo parto para Paris, onde farei um estágio pós-doutoral na Université Paris Ouest Nanterre La Défense, sob a direção de Emmanuel Wallon. O bate-papo na capital baiana será uma ocasião de descobrir as coxias da mítica companhia da não menos mítica Ariane Mnouchkine. Espero por vocês!
Serviço: Bate-papo O modelo de produção do Théâtre du Soleil
09.11, 19h na Sala da Cena - Faculdade Social - Av. Oceânica, 2717 - Ondina
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
Terra Magazine
» O teatro brasileiro de ontem, hoje e amanhã