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Sábado, 7 de novembro de 2009, 08h18 Atualizada às 16h47

Operação Mãos Limpas

José Luiz Teixeira
De São Paulo

Estou impressionado como as pessoas ainda sentam-se à mesa para comer sem lavar as mãos.

Apesar da recente pandemia da Gripe Suína, esse hábito não foi incorporado pelos brasileiros.

Recentemente, ao comemorar o aniversário de um amigo com mais sete convivas em um restaurante razoavelmente chique aqui de São Paulo, fiquei perplexo.

Reparei que nenhum deles, ao chegar, passou primeiro pelo toalete para deixar ali os micróbios arrebanhados pelo caminho.

Todos fizeram questão de socializar com os amigos os vírus e bactérias adquiridos no estacionamento, nas escadas rolantes das estações do metrô ou nos balaustres dos ônibus.

Apertavam a mão do aniversariante, repetiam o gesto com os demais presentes e, ato contínuo, pegavam um pedaço de pão da cestinha do couvert, passavam patê e o levavam à boca com os próprios dedos - sujos, certamente.

Depois de todos os empolgados cumprimentos, me levantei para ir passar água e sabão em minhas mãos. Na volta, ainda fui motivo de gozação.

Acusando-me de exagerado, chegaram a me comparar ao personagem de Jack Nicholson no filme "Melhor é Impossível" - no qual ele interpreta um obsessivo-compulsivo que, entre outros tiques, tem mania de limpeza.

Só me restou rir, resignado com a constatação de que esse anti-higiênico costume ainda vai perdurar por um bom tempo entre nós.

Exceção feita a Deus, parece não acreditarmos em mais nada que não podemos ver a olho nu, como é o caso do H1N1, por exemplo.

O curioso é que há mais de um século o médico húngaro Ignaz Semmelweis comprovou que as infecções hospitalares poderiam ser evitadas com o simples ato de lavar as mãos.

Sua descoberta foi provocada pelo excessivo número de grávidas que morriam após o parto no hospital em que ele trabalhava e lecionava.

O Dr. Ignaz constatou que isso ocorria porque os estudantes de Medicina dissecavam cadáveres nas aulas de Anatomia, no porão do prédio, e depois atendiam às parturientes com as mãos e aventais ainda sujos. Resultado: "matavam" quase todas por infecção hospitalar.

Todos os alunos passaram a fazer uma assepsia completa, mas, mesmo assim, algumas grávidas ainda morriam.

Inconformado, o professor passou a vigiar seus alunos e descobriu que um deles não estava obedecendo às suas recomendações. Só depois de uma ameaça séria ao rebelde o problema foi sanado e a tese das mãos sujas comprovada.

Passaram-se mais de cem anos desse fato e, mesmo assim, até agora, muita gente tida como educada desconhece ou faz pouco caso da profilaxia.

É difícil, entretanto, condenar as pessoas mais simples por atitudes como essas, arraigadas em nossa cultura.

Pelo menos uma vez por semana almoço em uma pequena cantina do centro da cidade, onde sou atendido há anos por dois simpáticos garçons.

Ambos tem o hábito de gentilmente sempre dar as mãos para os clientes mais antigos, estejamos em pé ou sentados com a comida no prato.

Apertar a mão de quem está comendo já é considerado há muito tempo falta de educação (quem leu, no passado, Marcelino de Carvalho sabe disso; quem não leu, consulte a Glorinha Kalil)

Depois da Gripe Suína, então, esse ato já é um atentado à saúde do próximo. Mas quem irá chamar a atenção desses dois simpáticos garçons?

Eu é que não! Por isso, já adotei a seguinte estratégia: quando chego, procuro os dois e vou logo estendendo a mão para eles; depois, passo no lavatório, sirvo-me à vontade de água e sabão, e me sento tranquilamente à mesa.

Pelo sim, pelo não, este ano não peguei nem um resfriado - toc, toc, toc.

José Luiz Teixeira é jornalista. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, Tupi e BBC de Londres, e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde.

Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br

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