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Sábado, 7 de novembro de 2009, 08h18

Mais soft drinks para paladares exigentes

Mauricio Tagliari
De São Paulo

Confesso minha surpresa com a enxurrada de emails que a coluna da última semana gerou. A imensa maioria de gente me apoiando e se identificando com minha opinião. Para quem não leu, explico. Aproveitei uma semana de sobriedade e abstinência absoluta para reclamar da falta de oferta de soft drinks não adocicados no mercado brasileiro. Citei as club sodas, as tônicas e o San Bitter como minha salvação.

Curiosamente, uma coluna que pretende tratar de bebidas, as alcoólicas fique subentendido, descobriu ter uma porção bastante expressiva de leitores entre os abstêmios "técnicos". Gente que, por um motivo ou outro, quase não bebe, mas tem curiosidade e gosta do assunto.

Fui brindado com dicas de drinks não-alcoólicos caseiros, alguns parecidos com os que preparo, dicas de soft drinks italianos que desconhecia e, mais do que tudo, com pedidos de receitas para o paladar mais educado ou, como descrevi, menos infantilizado pelo sabor doce.

Antes de mais nada, quero agradecer o carinho e a atenção do leitor.

Ora, minha reclamação é, sim, contra a indústria. Contra o mercado. Entre as soluções caseiras, definitivamente, o limite é a criatividade. O problema é que vai ser quase impossível para o consumidor mais exigente beber seu soft drink não adocicado num bar ou restaurante, por exemplo.

Há o caso anedótico que descreve bem o hábito do açúcar no Brasil. Um turista pede um suco de laranja num quiosque de Salvador, aquela terra abençoada. Pede e insiste: "Sem açúcar". Assiste ao preparo na sua frente, a fruta fresquinha sendo espremida. E para sua surpresa, ao final, o atendente indiferente aos protestos começa a virar um pote de açúcar dentro do seu suco até se formar uma camada branca de quase um centímetro no fundo do copo. Ao reclamar, o turista ouve perplexo do sorridente soteropolitano: "Mexa não..."

Quem nunca foi brindado com um monte de pacotes de adoçante ao pedir um suco, uma caipirinha ou um café sem açúcar? E quando recusa o adoçante artificial, qual não é a cara de espanto do garçom?

Em casa, contudo, ainda estamos a salvo nesta nossa esquisitice. Temos sempre as opções dos drinks à base de chá, café e frutas. A grande salvadora mesmo é a água com gás. Sim, pois as borbulhas são, assim como o álcool, um muito bom estímulante das papilas. Deixam o paladar mais aguçado. A água com gás, quando natural, deve ser bebida, de preferência, sem nada, no máximo com gelo de boa procedência ou uma rodelinha de limão. Mas a gasosa artificial serve de veículo para outros sabores interessantes.

E aí devemos prestar uma homenagem a um inventor pouco citado: Joseph Priestley. Este foi um clérigo herege e dissidente político na Inglaterra do século XVIII. Filósofo e um dos maiores cientistas de seu tempo. Amigo de Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e Lavoisier, entre outros.

Em suas pesquisas, ele descobriu, entre outras coisas, nada menos do que o oxigênio! Sim, algo tão banal hoje para nós, semi-analfabetos da ciência, era um mistério naquele tempo. Priestley pesquisou e descobriu quase uma centena de gases diferentes, entre eles o dióxido de carbono, chamado por ele na época de "ar metífico". E ficou maravilhado ao perceber quão agradável se tornava a água em contato com este "ar".

Tentou vender para o almirantado britânico a ideia de que esta água carbonatada, produzida por máquinas inventadas por ele, combateria o escorbuto, o que hoje sabemos não ser verdadeiro. Mas a marujada pegou gosto pela coisa e um outro cidadão, Johann Schwepps, aproveitou-se da ideia e patenteou um processo de carbonatação da água. Schwepps é, até hoje, sinônimo de club soda e água tônica. Estas e outras histórias estão no livro recém-lançado A Invenção do Ar, de Steven Johnson (editora Zahar).

E aqui vão algumas das delícias que podemos preparar com a invenção de Priestley. Melhor ainda, podemos experimentá-las à vontade e continuar sóbrios neste atípico calor primaveril que nos aflige em São Paulo.

Polícia e ladrão

Uma pitada de angostura
Um copo com gelo picado
Complete com água tônica

Um drink simples e básico. Refrescante e amarguinho. Não exagere na angostura.

Knightsbridge

Suco de meia lima
Angostura
Um copo com gelo picado
Complete com club soda

Não me pergunte de onde vem este nome.

Verde

Uma folha de boldo fresca
Algumas folhas de hortelã
Algumas folhas de limoeiro (opcional)
Suco de meio limão
Água
Club soda
Gelo picado

Bata todos os verdes com a água e limão, coe e sirva num copo com gelo picado. Complete com club soda.

Camões

3 rodelas de gengibre
Um anis estrelado
Cravo a gosto
Uma canela em pau
Uma pitada de angostura
Gelo picado
Suco de meio limão
Club soda
Folhas de hortelã

Nesta homenagem aos aventureiros do ciclo dos descobrimentos, ferva o gengibre, o anis, o cravo, a canela em ¾ de litro de água por uns dois minutos. Quando esfriar, coe, acrescente o suco de limão e a angustura. Despeje até o meio dos copos cheios de gelo picado. Complete com club soda e decore com folhas de hortelã.


Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical. Sócio da ybmusic, escreve sobre música e bebidas no blog www.maisumgole.wordpress.com e sobre música no http://ybmusica.blogspot.com. É co-autor do Dicionário do Vinho Tagliari e Campos.

Fale com Mauricio Tagliari: mauricio.tagliari01@terra.com.br

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