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Sábado, 7 de novembro de 2009, 08h15

Obama, Web e Brasil II

Rosane Santana
De Boston (EUA)

A discussão sobre o uso da Internet na política, no Brasil, envolta em uma onda de mal entendidos e muita desinformação, ao que parece, passa ao largo do fenômeno globalização, ainda reduzido a questões de ordem econômica por muitos observadores que não se detêm em suas implicações tecnológicas, políticas e culturais, como ressalta o sociólogo inglês Anthony Giddens. Prova disso, é a mistificação em torno dos resultados eleitorais obtidos nas últimas eleições presidenciais americanas, através da Web, e os benefícios que o uso da Internet poderia trazer ao processo eleitoral brasileiro, já no próximo ano. A propósito, volto ao tema a pedido de leitores.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro: muito antes de Barack Obama eleger-se presidente dos Estados Unidos e Ben Self fundar a Blue State Digital, milhões de ativistas americanos e europeus insatisfeitos com a política externa dos EUA, especialmente após o 11 de Setembro, navegavam, tramavam e arrecadavam cifras milionárias no espaço cibernético, a partir de pequenas contribuições individuais, para apoiar candidatos contrários às guerras no Oriente Médio, a "Guerra contra o Terror", de George W. Bush.

Entre os militantes, muitos herdeiros ou ex-ativistas do Vietnã, cérebros em informática e tecnologia da informação, tribos de todas as idades e credos, formando um verdadeiro tsunami, da Europa à América do Norte, que mostrou sua força nas eleições presidenciais norte-americanas de 2008 -uma disputa globalizada-, através da Internet. O tsunami responde pelo nome de Moveon.Org Politic Action e possui hoje, segundo seus líderes, cinco milhões de membros, supostamente com alto grau de politização e familiaridade com as novas tecnologias, é preciso ressaltar, para dar uma dimensão do fenômeno.

Por acaso, o candidato que, naquela conjuntura, mais se identificava com as aspirações dos ativistas internautas, simpatizantes do Partido Democrata, era um afro-americano chamado Barack Obama, que prometeu - e está sendo cobrado -, mas não cumpriu até agora, pôr um fim aos conflitos da Era Bush. Não por acaso, Hillary Clinton, que apoiou a invasão do Iraque e continua favorável ao endurecimento contra o Irã e a Coréia do Norte, foi descartada como representante do Moveon, que prossegue dando o que falar na política americana e é objeto de estudo em prestigiosos centros acadêmicos como a Universidade de Harvard.

Ressalte-se que mais de 50% dos quase 800 milhões de dólares arrecadados pela campanha do candidato democrata Barack Obama originaram-se de pequenas contribuições de pessoas físicas, de até 200 dólares. Por trás dessa tática de arrecadação, a estratégia adotada há quase 10 anos pela onda gigante e revelada pelo seu diretor executivo, Eli Pariser, em entrevista ao jornal The New York Times (Março, 2003) e à Revista Rolling Stones, fonte já citada (Nov.de 2007): combater a crescente influência de grandes companhias sobre governos, em nível internacional, o que ele considera a maior ameaça à democracia.

O segredo para unir tanta gente em torno de uma causa é simples. Eli Pariser, que descende de judeus sionistas por parte de pai e de socialistas poloneses, por parte da mãe, ambos ex-ativistas do Vietnã, ensina que as mensagens políticas encaminhadas pela Internet devem ser sempre diretas, sem tecer análises ou comentários que possam suscitar divisões ideológicas. O Moveon abriga pessoas de diferentes nacionalidades e diversas organizações, envolvendo norte-americanos e europeus. E sua atuação não pára depois da eleição.

Os ativistas tiveram influência decisiva junto ao Congresso americano, nas recentes discussões sobre a reforma no sistema de saúde pública dos EUA, e articulam campanhas contra os senadores, inclusive democratas, que estão dificultando a aprovação da matéria, através de e-mails enviados aos seus membros, aos quais estão solicitando doações entre 25 e 200 dólares. A briga entre Obama e a FoxNews (pró-republicana), tem tido o apoio do movimento, que sugere boicote dos telespectadores à rede.

"A democracia através da Internet resolve o problema de como focar a atividade política em um extenso país onde a grande maioria dos cidadãos está extremamente ocupada e distraída, porque o que mantém tantos americanos ocupados e distraídos estes dias é a Internet", diz Eli Pariser (The New York Times, Março de 2003).

É possível que, no futuro, o Brasil possa encabeçar um movimento dessa natureza, através do espaço cibernético, com bandeiras próprias, parece óbvio, em direção, por exemplo, à América Latina. A Web abre um leque inimaginável de possibilidades também na política. Não soa, portanto, tão estranho, o recente apelo de Hugo Chávez às venezuelanas, para apoiarem Dilma Rousseff, a candidata de Lula. Mas para que a Internet favoreça essa unidade, dentro e fora do território, o Brasil e os outros países do continente terão que vencer o desafio de se modernizarem, combatendo a corrupção, distribuindo renda, democratizando a educação e a tecnologia.


Rosane Santana é jornalista, mestre em História pela UFBA, mora atualmente em Boston (EUA) e estuda em Harvard.


Fale com Rosane Santana: rsantana@fas.harvard.edu

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