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Sábado, 7 de novembro de 2009, 08h15

Resenha convidada: 9: A Salvação

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

*Por Alfredo Suppia

9: A Salvação (2009), de Shane Acker, é uma adaptação para longa-metragem do curta 9 (2005), escrito e dirigido pelo próprio Acker. O longa foi produzido por Tim Burton (de Batman, Ed Wood, Edward Mãos de Tesoura e A Noiva Cadáver) e Timur Bekmanbetov (de Nightwatchers, Daywatchers e Procurados). 9 é uma fábula steampunk sobre futuro pós-apocalíptico em que interesses político-militares arruínam e civilização humana. Herdam um mundo dark e destruído um grupo de robozinhos humanóides, bonecos de pano com partes móveis em metal e madeira. Seus nomes são números de um a nove. Vivem entre as ruínas da civilização humana, aterrorizados pela besta, um ciborgue feito de restos mortais de um cachorro e partes mecânicas. São liderados por 1, sugestivamente caracterizado como sacerdote. 1 tem uma personalidade mesquinha e autoritária, mas sua resignação tem sido útil para a sobrevivência do grupo.

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Seu poder sobre os demais é mantido por astúcia e pelo apoio do grandalhão 8, o mais robusto dos robozinhos. A chegada de 9, porém, vem abalar a ordem instaurada por 1. Cada personagem tem um traço psicológico evidente e, conforme se saberá mais tarde, guarda um aspecto do espírito de seu criador, cientista genial responsável pela criação da "Máquina" ("The Machine"). 1 é astuto e mesquinho, 2 generoso e industrioso, 5 é sincero e emotivo, 7 é heróica e corajosa, 8 é forte e arrogante e 9, o último a ser criado, traz em seu altruísmo e curiosidade a chave para uma reordenação do planeta.

9: A Salvação opera numa vertente bem conhecida do cinema de ficção científica, a das fábulas pós-apocalípticas. Lembra filmes como as séries Matrix e O Exterminador do Futuro em sua antinomia homem x máquina. A ruína da civilização em 9 é desencadeada justamente quando "A Máquina", criada inicialmente com propósitos pacíficos por seu inventor, acaba caindo nas mãos de um caudilho inescrupuloso. O instrumento, adormecido após a catástrofe da guerra mundial, é despertado inadvertidamente por 9. Algo pior do que a besta passa a ameaçar os robozinhos, que agora têm de enfrentar a perda de companheiros e o risco de extermínio. .

Nada de novo até então. O mais interessante fica por conta da tecnologia empregada na animação e o design de produção, gestados no curta 9 de Acker. Os robozinhos, a besta e A Máquina são animados pela energia vital de seu criador, o cientista. A transferência dessa energia vital dos corpos se dá por meio de um talismã misterioso, o qual inicia nas mãos de 9, mas logo em seguida cai em poder da Máquina. Essa iconografia confere ainda um caráter alquímico a fábula, algo familiar à estética steampunk e em animações como Fullmetal Alchemist, por exemplo. .

Como no caso de outros trabalhos de Tim Burton, 9: A Salvação não é um filme exclusivo para o público infanto-juvenil. A influência negativa de Timur Bekmanbetov parece evidente nas longas seqüências de ação arrebatadora, embora não chegue a comprometer o filme - talvez em virtude do contrapeso exercido por Burton. De toda forma, 9: A Salvação reafirma a persistente moda distópica presente na ficção cientifica atual,seja literária, televisiva ou cinematográfica, conforme se verifica em demais filmes como Distrito 9 (2009), de Neill Blomkamp. .

A propósito, talvez seja interessante contrapôr essas duas produções. 9: A Salvação investe na inquietante estranheza da máquina, alteridade e até mesmo vilania, numa longa tradição da ficção científica cinematográfica que remonta a filmes como O Golem (1920), de Paul Wegener, os Alraune (1918, 1928, etc.), e (1927), de Fritz Lang. A máquina é então antropomorfizada, para o bem ou para o mal, mas especialmente servindo ao propósito de identificação tão essencial a um cinema orientado pelo protagonismo. Em Distrito 9 a tecnologia é mais neutra, seu potencial destrutivo mais associado ao ethos humano. Em 9 o terror vem da máquina fora de controle. Em Distrito 9 o horror brota da arma manuseada por seres humanos. A antropomorfização também serve a propósitos identificadores, mas também oferece o deslocamento de uma leitura analítica por contraste. Em 9, os robozinhos são repositórios de uma humanidade romântica perdida. Em Distrito 9 os alienígenas cumprem esse papel, especialmente Christopher Johnson e seu filho, enquanto todos os personagens humanos ilustram em maior ou menor grau o que há de mais mesquinho, indesejável ou bestial. Enfim, são humanos "autênticos", enquanto a única saída para o resgate de uma humanidade idealizada está na transformação do homem em alienígena. Ambos os filmes, porém, terminam em chave melancólica se comparados a produções equivalentes dos anos 1950, ou mesmo 1970 e 1980. Não é de se estranhar tal procedimento no cinema de Tim Burton, mas mesmo filmes como Minority Report (2002),de Steven Spielberg, ou a série Homem-Aranha de Sam Reimi, já demonstram uma acentuação da sensibilidade cyberpunk ou simplesmente mais dark de obras influentes do estilo, entre elas Blade Runner (1982) de Ridley Scott. Ainda mais escuro e taciturno, mais humor negro, escárnio e violência são aspectos que parecem esperados para um futuro próximo do cinema de ficção cientifica. .

*Alfredo Luiz Suppia é Doutor em Cinema pela UNICAMP e leciona Audiovisual na Universidade Federal de Juiz de Fora

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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