Terra Magazine

 

Segunda, 9 de novembro de 2009, 13h02

Clarice Lispector, o sol escuro do Brasil

Tomás Eloy Martínez
Do The New York Times

Há pouco mais de meio século, a força de transformação da Literatura da América Latina surpreendia os países desenvolvidos que tinham se modernizado graças às indústrias, descobertas tecnológicas, redes de comunicação, trens e aviões. Mas a sua linguagem e a sua capacidade para descrever a sociedade estavam envelhecidas, cansadas e compensavam a falta de sangue novo e de novas ideias com jogos teóricos que não conduziam a lugar algum. Na América Latina, a vontade de criar esse novo mundo que expressava a revolução cubana parecia ter-se concentrado na literatura.

Enquanto os países do Rio da Prata, o México e a Colômbia respiravam avidamente os novos ares, o Brasil, o gigante, se mantinha impermeável a tudo o que não viesse de si mesmo. O Brasil mudava de pele, mas se alimentava da sua própria música e da sua própria herança literária. Certa vez alguém perguntou ao João Gilberto por que ele fazia tão poucas apresentações no exterior, onde a sua música era um grande sucesso.

"Para quê? respondeu. "No Brasil o meu público é tão numeroso quanto no exterior e, além disso, me ouvem com maior facilidade".

Na metade do século XX, um grande nome da literatura brasileira continuava sendo Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), autor de uma sucessão de obras-primas empregando o simples recurso de observar com atenção a paisagem interior dos pensamentos e dos sentimentos para narrá-los de uma forma incomum, surpreendente. Um dos seus maiores herdeiros é João Guimarães Rosa, que impressiona principalmente pela sua habilidade verbal e pelo ouvido apurado com o qual recolhe a música das vozes do sertão, no nordeste profundo do seu gigantesco país.

No entanto, a única filha direta e legítima de Machado de Assis é Clarice Lispector, cuja obra misteriosa começa a ser difundida nos Estados Unidos com tanta rapidez quanto a da Roberto Bolaño. O chileno foi consagrado no semanário The New Yorker. Clarice Lispector foi homenageada no influente The New York Review of Books com um extenso ensaio de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo.

Moore afirma que a mágica fama de Clarice Lispector deve-se em parte ao estudo do conjunto da sua obra, feito por Hélène Cixous, a quem as universidades francesas devem o auge dos estudos sobre a mulher. Na França, lembra Cixous, a fina abstração da prosa de Clarice Lispector fazia com que fosse tida como uma filósofa. Quando participou de um encontro de teóricos sobre a sua obra, Moore abandonou a sala no meio da homenagem alegando que não entendia nada sobre esse linguajar.

Uma das primeiras vezes que Moore ouviu falar de Clarice Lispector foi em Buenos Aires, no final da década de 1970, quando circulou a lenda de que tinha se queimado viva na sua casa, no Rio de Janeiro.

Em 1969, o célebre editor argentino Paco Porrúa tinha publicado alguns dos seus livros pela editora Sudamericana: os romances A maçã no escuro, A paixão segundo GH e Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, além dos admiráveis contos Os laços de família. Clarice rompia com todas as convenções da arte de narrar e tirava de cada palavra um tremor secreto, enigmático. As suas revelações eram como as de um teólogo oriental dançando em um ritual africano.

Quando a líamos, deslumbrados, no semanário Primera Plana, pensamos que viajar ao Rio de Janeiro para decifrar os seus segredos era algo urgente. Sara Porrúa, que era esposa de Paco naquela época, quis ser a pioneira dessa investigação.

As primeiras notícias que enviou acabavam com a lenda de que Clarice tinha se queimado viva. A sua cama tinha pegado fogo acidentalmente quando adormeceu com um cigarro aceso. Mas tinha sido salva a tempo. A sua estranha beleza (olhos amendoados e rasgados, pômulos salientes, a constante expressão de angústia em seu rosto) tinha sido abalada quando se queimou o lado direito do seu corpo e o braço perdeu os movimentos. Nada, no entanto, tirava a sua paixão por narrar o mundo.

Sara a viu um par de vezes mais e, com a sua intensa e inesquecível imagem, perdeu-se nas selvas da Guatemala e se tornou uma personagem de Cortázar.

Para ilustrar um pouco da sua imaginação, é necessário fazer algumas referências: O início do romance Uma aprendizagem (1969) é uma frase que surge do nada. A porta de entrada deste romance é uma vírgula: ", estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos (...)". Antes desse comentário doméstico e trivial, Clarice surpreendeu o leitor com a advertência que também é uma afirmação do seu ser:

"Este livro pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Está acima de mim. Tentei escrevê-lo humildemente. Eu sou mais forte do que eu. C.L."

E no final de Água Viva, levanta a voz: "Eu não vou morrer, você ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando e onde. Vou ficar muito feliz, ouviu? Como resposta, como insulto".

O seu desafio sem limites à morte impregnam muitas das suas crônicas reunidas em Revelação do mundo, que inclui todas as que escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Outras, inéditas, serão publicadas no próximo ano em espanhol, sob o título de Descubrimientos (Descobrimentos).

Clarice Lispector continua sendo um enigma sem descobrir, que surpreende em cada frase, em casa desvio da vida. Morreu aos 57 anos de câncer nos ovários, depois de ter passado os últimos anos fechada na solidão da sua casa no Leme, próxima às areias de Copacabana.

O seu autorretrato cabe em uma frase: "Ver-se no espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa".


Tomás Eloy Martínez é escritor e tem livros traduzidos em mais de 30 idiomas. É diretor do programa de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Rutgers. Artigo distribuido pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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