Terra Magazine

 

Terça, 10 de novembro de 2009, 08h06 Atualizada às 16h20

Psicanalista:Sem punição, barbárie pode se repetir na Uniban

Carolina Oms
Especial para Terra Magazine

- A mulher representa o 'outro sexo' em uma sociedade tradicionalmente falocêntrica - e não sei se algum dia deixará de sê-lo.


Os advogados da estudante foram à delegacia da Mulher em São Bernardo do Campo (SP)
Foto Adriano Lima/Futura Press

Com estas palavras, a psicanalista Maria Rita Kehl começou a analisar para Terra Magazine a polêmica sobre a minissaia da estudante Geisy Arruda, de 20 anos, do curso de Turismo da Universidade Bandeirante (Uniban), em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

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Em 22 de outubro, cerca de 700 alunos teriam se aglomerado em torno de Geisy, que precisou de escolta policial e um jaleco para deixar a universidade. Desde então, ela não retornou às aulas. Neste domingo, 8, depois de longa cobertura da mídia, a Uniban divulgou a expulsão da estudante, moradora de Diadema. Criticada pela opinião pública, a instituição revogou a decisão nesta segunda-feira.

"Ela me pareceu bastante tonta, ou até mesmo sonsa - não posso julgar porque não a conheço pessoalmente", opina Maria Rita Kehl, que ressalva: "Se essas manifestações de massa enlouquecidas não são barradas e punidas, as pessoas entendem que estão autorizadas e a barbárie tende a se repetir".

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Por que há tantos olhos e cuidados voltados ao corpo da mulher?
Maria Rita Kehl - Rapidamente eu diria, para não banalizar, que a mulher representa o "outro sexo" em uma sociedade tradicionalmente falocêntrica - e não sei se algum dia deixará de sê-lo. O corpo da mulher é enigmático, ele atrai o olhar justamente porque esconde a ausência do falo.

O que significa chamar uma mulher de "puta"? Estamos falando de uma profissão ou de uma manifestação de desejo?
Penso usar a palavra puta como insulto revela ressentimento do homem diante do desejo sexual da mulher, quando esse desejo não é voltado para ele. Uma prostituta não é simplesmente uma mulher que transa com muitos homens, nem uma mulher exageradamente sensual. É uma mulher que faz disso seu ganha pão. A mulher que faz sexo porque gosta, sem cobrar, não é prostituta. A prostituta é profissional - gostando ou não do que faz, algumas por necessidade, outras por amor à arte, mas sempre profissionalmente.

Mas a profissão da prostituta sempre foi desqualificada nas sociedades em que o tabu da virgindade vigorava para as mulheres de "boas famílias". Assim, a palavra "puta" é usada até hoje para desqualificar uma mulher sexualmente livre - coisa que não sei se a Geisy é ou não, nem vem ao caso. Ela pode ser só uma moça que se acha gostosa e gosta de se exibir.

Quase todos esperavam que a Uniban iniciaria sindicância contra os alunos, mas houve a expulsão de Geisy. Como isso é possível? O que pode explicar o comportamento da Universidade?
A Universidade errou do começo ao fim. Primeiro, como escreveu algum articulista hoje: se a roupa da moça era inadequada, (coisa com a qual concordo, mas vou me explicar na próxima resposta) por que ela não foi barrada na porta? Segundo, parece que o próprio esquema de segurança da Universidade demorou a ser acionado quando a confusão começou. Terceiro - não me lembro de haver menção à presença de alguém da diretoria, quando o tumulto engrossou. Quarto: houve alguma orientação da direção, depois do incidente, para se discutir o assunto em classe com os alunos? Ou antes disso: houve alguma medida punitiva, alguma suspensão de aulas, ou rebaixamento de nota para os que pretendiam linchar e estuprar a moça? Alguma sindicância para detectar os líderes fascistas da massa? Se essas manifestações de massa enlouquecidas não são barradas e punidas, as pessoas entendem que estão autorizadas e a barbárie tende a se repetir. A expulsão de Geisy, por outro lado, me parece pura covardia da direção da Uniban: vamos nos livrar de um problema com o qual não sabemos lidar.

Me parece que a universidade nesse caso se comportou segundo as normas da empresa lucrativa que ela realmente é: procurou satisfazer o grande número dos clientes-pagantes em detrimento de uma cliente-problema. O freguês, para o comerciante, tem sempre razão. Só que a universidade, ao se comportar como um comércio, se desmoraliza como instituição de ensino e educação. Daí que nada garante que tais incidentes não se repitam, tanto por parte de algum outra aluna que acha que pode se vestir como quiser quanto do lado dos alunos e alunas que acham que, ao se sentir provocados, podem se comportar como um bando de foras-da-lei. Como se ele também não pudesse se repetir!

Como é possível conciliar viver em uma sociedade ao mesmo tempo extramente sexualizada e repressora? Muitos homens se perguntaram "o que querem as mulheres", mas a pergunta agora parece ser: "o que a sociedade quer das mulheres?"
Me parece que o problema do excesso de erotização do corpo jovem (sejam homens ou mulheres) é uma característica da sociedade atual. Quando Geisy se defende dizendo "eu me visto como quero e como me sinto bem", ela nem se dá conta de que está tentando corresponder ao padrão de hipersensualidade que vê na publicidade, nas novelas, nos filmes comerciais, etc. Mas até aí, se ela gosta, tudo bem. No entanto, o fato de ela ter sido a vítima no episódio bárbaro da Uniban não nos poupa de também criticar a falta de noção da moça. Existem convenções de comportamento, aparência, etc, que não são exatamente morais, mas ajudam a clarear o que se espera das pessoas em determinados ambientes. Ninguém vai a uma recepção de gala usando bermuda e camiseta a não ser que queira escandalizar, certo? Ninguém vai à faculdade de biquini porque chamaria tanta atenção que dificultaria o andamento das aulas. Será que os rapazes ficam sem camiseta na classe nos dias de calor, por exemplo?

Se a Geisy tinha uma festa mais tarde poderia ter levado o vestido na bagagem e trocado depois das aulas, mas pelo depoimento dela me parece que a moça não tem a menor noção da diferença entre, por exemplo, a faculdade e a balada. Ela me pareceu bastante tonta, ou até mesmo sonsa - não posso julgar porque não a conheço pessoalmente. Mas duvido que ela utilizasse o argumento "faço o que quero/uso o que gosto", se em seu emprego o patrão exigisse um uniforme. Ou ainda, se a exigência de adequação correspondesse a uma distinção de classe: aposto que Geisy não iria a um casamento chic com uma roupa inadequada: ficaria super preocupada em saber o que se "deve" vestir na ocasião. Só que a Universidade - a Escola, em geral - é uma instituição muito desmoralizada atualmente, e ela se achou no direito de quebrar a convenção de um certo decoro no ambiente de estudo. É grave? Não. Merecia o que aconteceu? Absolutamente. Só quero dizer que ela me pareceu, em sua posição isolada, tão tonta e tão alienada quanto a turba que não soube dar uma expressão civilizada a seu descontentamento.

É possível relacionar o caso ao clichê: Uma mulher deve ser um anjo em sociedade e uma prostituta na cama? Por que homens e mulheres dizem isso sem se considerarem machistas?
Penso que é porque as prostitutas, tradicionalmente, é que entendiam das artes e manhas do sexo. As moças conservadas virgens e puras até o casamento geralmente eram ignorantes e excessivamente envergonhadas do sexo - daí o clichê de que a boa esposa deveria ser, pelo menos na cama, igual a uma puta. Mas, para não comprometer a reputação do marido - para que os outros não o considerassem um "corno" em potencial - ela deveria se comportar como casta na frente dos outros. Bem, não vejo porque uma mulher sedutora deva ser considerada prostituta, mas já falei sobre essa diferença.

 

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